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segunda-feira, janeiro 26, 2009

Voltou a comprar corvos perfumados....

(Sisley)
A casa abandonada pelo pai proporcionou a Fermina Daza um refúgio próprio contra a asfixia do palácio familiar. Mal se conseguia escapar aos olhos do público, ia às escondidas ao Parque dos Evangelhos e aí recebia as novas amigas e algumas antigas do colégio ou das lições de pintura: um substituto inocente da infidelidade. Vivia horas agradáveis de mãe solteira com o muito que ainda tinha das suas recordações de menina. Voltou a comprar corvos perfumados, recolheu gatos da rua e entregou-os aos cuidados de Gala Placidia, já velha e um pouco limitada pelo reumatismo, mas ainda com ânimo para ressuscitar a casa. Voltou a abrir o quarto da costura onde Florentino Ariza a viu pela primeira vez, onde o doutor Juvenal Urbino a mandou deitar a língua de fora para tentar conhecer-lhe o coração, e transformou-a num santuário do passado. Uma tarde de Inverno, ao fechar a janela da varanda antes que desabasse a tempestade, viu Florentino Ariza no seu canto sob as amendoeiras do parque, com um fato do pai, apertado à sua medida e o livro aberto sobre o colo, mas não o viu como então o tinha visto, por acaso, várias vezes, mas sim na idade com que ele lhe ficou gravado na memória.

( Gabriel García Márquez- o Amor nos Tempos de Cólera)

2 comentários:

  1. Parece que o estou a reler. Um dos livros da minha vida.

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  2. Esta ideia de fugir à asfixia do palácio através de um ambiente absolutamente alternativo, faz-me lembrar um livrinho delicioso de William Beckford (A Corte da Rainha D. Maria I, Editora frenesi), um diário escrito durante a sua estadia em Portugal, no qual arrasa a nossa claustroóbica aristocracia e claustrofóbico catolicismo.
    Muito recomendável para íntimo divertemento.

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