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domingo, março 25, 2007

UM DOMINGO COM BORIS CYRULNIK e com um menino que fez ontem dois meses...



O encantamento surge desde os primeiros minutos após o nascimento, quando o recém-nascido chupa os captores sensoriais a que é mais sensível.
O feto já sentira as informações que o vinham tocar e a que respondia por explorações comportamentais durante as deslocações maternas, mudanças de postura e grandes ruídos. Porém, o bebé, no fim da gravidez, preferiria, claramente,a palavra da mãe que,tal como uma carícia, entrasse em contacto com os seus lábios e as suas mãos para neles vibrar suavemente. Então, responderia levando à boca tudo o que agarrasse, e engoliria todos os dias líquido amniótico,provando,deste modo,a mãe quando a ouvisse.
Depois do nascimento, o simples facto de viver num mundo aéreo alterou a forma dos estímulos: a luz tornou-se mais viva, o ar mais frio e os choques mais duros. Porém, estamos a esquecer de falar numa perturbação vital: a secura! Após nove meses de universo aquático,morno e protector, em redor do seu corpo,mas também na boca e no nariz, houve , subitamente, que secar!Teve frio, teve sede, e estas duas privações iniciais tornaram-no sensível à tepidez dos braços que o envolviam e à humidade do mamilo que lhe apresentavam. Soube prendê-lo na boca e representar o inverosímil argumento comportamental da primeira mamada, porque se treinara muito antes de nascer, quando a mãe, ao falar, o convidara a explorar com a boca e as mãos tudo o que flutuava.
A partir dos primeiros minutos após o nascimento, foi uma carência, uma perda de calor e humidade nutritiva que o tornou ávido do encantamento. Esta privação sensibilizou-o para o objecto sensorial composto pelo corpo morno e abrangente da mãe e por um mamilo odorífero e que segrega colostro, o primeiro leite diluído que permite ao bebé reencontar um pouco do universo aquático desaparecido e de nele se humidificar. Foi, pois, uma perda, um pequeno sofrimento, que o tornou ávido de encontrar qualquer objecto que evocasse o oceano passado onde se banhava.Não poderia ser enfeitiçado por uma agulha, um clarão vivo ou um empurrão, quando um objecto sensorial que evoca um vestígio inscrito na sua pequena memória pôde capturá-lo, para sua grande felicidade.
O argumento comportamental do primeiro encontro talvez constitua a metáfora que tematiza a nossa sobrevivência e explica a necessidade de nos enfeitiçarmos. O recém-nascido que não encontrasse um mamilo não poderia sobreviver, mas, para que se lhe agarre, é preciso que uma carência o tenha tornado sensível. O primeiro encantamento exige um corpo de mãe e um sis tema nervoso de bebé sensiblizado por uma carência.

(Boris Cyrulnik) Do Sexto Sentido. O Homem e o Encantamento do Mundo.

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