Google+ Followers

sábado, janeiro 13, 2007

...até tive medo que caísse um raio!



Carta do reverendo frei Ben Zicabòlico, assistente na cidade de Lisboa, ao ilustríssimo e poderossíssimo conde Matamouros, em serviço na Índia, sobre as novidades literárias de 1572.
...
Agora que aconselhei estes três volumes a Vossa Senhoria, todos novos, e um de cada materia- ordens religiosas, ordens militares, regras e regrinhas-,sempre quero prevenir o Senhor Conde contra um poema saído este ano da mesma oficina que o "Compêndio das Crónicas".
É um oitavo delgado(mau sinal!), impresso em papel barato.Vem todo em estrofes, e fala da Índia e dos Portugueses com desenvoltura de estarrecer. Chamam-lhe "Os Lusíadas", não se sabe bem porquê. O verso é do pior! Daquele que fez o Ariosto na Itália, e depois se enraizou em Espanha, e mais valia que não tivesse entrado neste Reino. Como se não tivéssemos uma medida velha bem portuguesa! O autor é um tal Luís de Camões, desembarcado das Índias há três anos, e muito notado pela sua turbulência, tanto lá como cá, onde até frequentava o Mal-Cozinhado.
A portada do livro está enquadrada pelo desenho das colunas e do pelicano, manifesta inconveniência, pois esta mesma esquadria servira já a obras de real virtude e instrução, como a "Doutrina Cristã", impressa em 1554 e as "Coisas da cidade de Lisboa", mandadas publicar há vinte anos pelo Sr.D Fernando, arcebispo desta metrópole.
(...)
Bastará referir, para Vossa Senhoria fazer uma ideia, que o autor deste poema sem exemplo entende celebrar as glórias das Índias, ganhas pelos avôzinhos de Vossa Senhoria e outros católicos capitães. Mas, passa-se isto: em vez de cantar os esplêndidos combates de Chaúl e Diu, emprega-se em descrever à sua maneira( e que maneira!) a viagem de D.Vasco da Gama, como se meras navegações fossem mais honrosas, e abrissem mais largamente o reino dos Céus, que os combates e a redução dos inimigos da nossa Fé. Pior: a viagem das Índias, tal como o poema explica, torna-se resultado de uma contenda entre os falsos deuses do paganismo, os quais, como todos nós, os Católicos, sabemos, não passam de debuxo do Demónio. O partido de Vénus vence o partido de Baco.Para disfarçar, o autor desta ficção ímpia e nada patriótica invoca também, sobretudo ao narrar a história de Portugal, a nossa santa religião; e finge ardores, quando menos se espera, de quem chama os fiéis à guerra santa e à cruzada.(...) Nunca um livro português, impresso ou de mão se tinham lido sacrilégios tais: ao fim do canto 6, Vasco da Gama, vendo sosobrar a sua armada, invoca a protecção do nosso Deus, e quem realmente acode aos marinheiros em perigo é a deusa pagã do Amor e da Luxúria. Mais: o capitão português, miraculado de Vénus, agradece ao Deus das escrituras a protecção dispensada pela indecente filha de Júpiter e Diana. Como se esta é que fosse a verdadeira, e o nosso Deus uma protecção do Gama. Ao ler estes versos até tive medo que caísse um raio!
Dos termos em que o poeta descreve a figura e os encantos de Vénus, não tenho coragem para falar. Não pintam mais ao vivo- acredite Vossa Senhoria!- os autores condenados que se imprimem em países de heresia!(...)Chega o poema a ponto, em que Vasco da Gama e os seus companheiros são recebidos, mimosiados e laureados numa ilha deleitosa, verdadeira sucursal do Inverno. O que lá passam com as Ninfas, e o poeta descreve por míudo, seria suficiente, se tivesse acontecido, para levar ao fogo eterno as suas almas. O episódio da Ilha não é apenas atentatório da religião. Admitindo que o assunto de um poema à glória de Portugal devesse ser uma viagem, e não uma guerra, os Argonautas haviam de ser recebidos, ao regressarem da Índia, pelo rei que os mandara. Ora, essa audiência não descreve o poeta. Quem abre os braços a Vasco da Gama é a ninfa Tétis.Quem recompensa os marinheiros ávidos( e de que maneira!) são as nereidas estimuladas por Cupido. Debuxos do Demónio em vez do céu verdadeiro!(...)
Espanta que um religioso tenha aprovado o livro.Mas também digo: quem sabe se o manuscrito submetido a exame, não seria ainda muito pior? Há quem pretenda que sua Majestade vai outorgar uma tença ao autor de tais dislates...coisa de pouca monta...certamente...Que época a nossa! Que confusão de valores! Por mim não tenho dúvidas.Tal volume não pode entrar na Biblioteca de Vossa Senhoria. Horroriza-me pensar que o folheiem por acaso a Senhora Condensa, e as cândidas filhas de Vossas Senhorias. E menos ainda que chegue ao alcance de soldados da Índia. Os que sabem ler haviam de ser desviados da austeridade da milícia pelas perniciosas cores, com que o poeta pinta o vício. Todo o cuidado é pouco. Bom será que o tal poema d'Os Lusíadas, se o nosso relaxamento permitir que seja de novo impresso, leve indispensáveis modificações. Quanto ao autor, esse Camões que dizem, tenho por certo que há-de acabar mal.

Feita em Lisboa aos 4 de Janeiro do ano da Graça de 1573,

FREI BEN ZICALÒBICO (publicado no Suplemento de Artes e Letras do Jornal "Républica" no dia 4/01/1973)

3 comentários:

  1. sim, satânica esta obra, com frontespício de simbologias cristãs puras (o pelicano simboliza a ressureição, entre outras coisas)e por isso ofensivas.

    Lendo isto subitamente questiono-me sobre a oportunidade do desaparecimento e D. Sebastião, o rei a quem a obra foi oferecida.
    E se ele tivesse desaparecido porque era opotuno que não reinasse, para que nenhuma fénix renascesse das águas!

    Lendo isto questiono-me também sobre o conflito de gerações e vejo-me como se personificsse a idade pós-adulta e usasse o meu estatuto para me espantar perante a novidade da idade adolescente.

    Quando grito, os ecos não me são todos favoráveis (não tanto os dos outros, porque aí sabemos que nunca colhemos consensos, mas os meus!).

    Foi muito apropriada esta escolha. Gostei de ler o texto.

    (apaguei o comentário anterior porque tinha gralhas)

    ResponderEliminar
  2. Amiga: eu que sou,ou me dizem ser, camoniana, não conhecia ainda este texto.Seria possível enviar-mo na íntegra?Lembro uma edição d'Os Lusíadas em que se dizia que era uma pena haver pedaços escabrosos no poema - e por isso os suprimiam.Claro que edição anterior a 74.No entanto, já no tempo em que pela 1ªvez estudei o Poema (1958) se usava a ainda boa edição da Porto editora,organizada por Emanuel Paulo Ramos, que vinha inteirinha, sem cortes...

    ResponderEliminar
  3. Amiga:se tiver paciência para esperar um pouco, ele irá chegar às suas mãos...com todo o gosto!

    ResponderEliminar

Não são permitidos comentários anónimos