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sábado, setembro 30, 2006

Reflexos do Olhar XXX

O rosto que nela se imprime tem a tua cor...

(Chagall)




Desfaço nos olhos o azul do céu, e
deito-o na página, com um brilho de manhã
à mistura. As palavras cintilam, numa
breve alquimia de luz. Depois, voltam
ao primeiro significado, mas o que leio
é já outra coisa. O azul fica envolto
numa espuma de oceano; a manhã
tem a frescura do fruto que se acabou
de colher; a página estende-se até
ao fim da imaginação, onde outros
continentes se abrem. E o rosto que
nela se imprime tem a tua cor, a tua
pele, o vermelho dos teus lábios,
o mármore divino do dia que nasce
quando, nos olhos, desfaço
o azul do céu.

posted by Nuno Júdice @

http://www.aaz-nj.blogspot.com/

Reflexos do Olhar XXIX

(Aguarelas de Turner) Verdes que espreitam...

quinta-feira, setembro 28, 2006

Reflexos do Olhar XXVIII

(Aguarelas de Turner)

Voar é Humano, transitório, momentâneo...





Que é voar?
É só subir no ar,
levantar da terra o corpo,os pés?
Isso é que é voar?
Não.

Voar é libertar-me,
é parar no espaço inconsistente
é ser livre,leve,independente
é ter a alma separada de toda a existência
é não viver senão em não-vivência

E isso é voar?
Não.

Voar é humano
é transitório,momentâneo...

Aquele que voa tem de poisar em algum lugar:
isso é partir
e não voltar.


Ana Hatherly

quarta-feira, setembro 27, 2006

Reflexos do Olhar XXVII

(Aguarelas de Turner) Farol do Cabo da Roca

Toda a arte de viver...




Susceptíveis de serem utilizadas para isso, sentia juntar-se em mim uma multidão de verdades relativas às paixões, aos caracteres, aos costumes. Aperceber-me delas causava-me alegria; recordava-me, todavia, de que descobrira várias delas no sofrimento, e outras em bem mesquinhos prazeres.
Cada pessoa que nos faz sofrer pode ser relacionada por nós com uma divindade da qual não é mais que um reflexo fragmentário e o seu último grau, divindade (Ideia) cuja contemplação nos causa imediatamente alegria, em lugar da dor que sentíamos. Toda a arte de viver consiste em não nos servirmos das pessoas que nos fazem sofrer a não ser como de um degrau que permite aceder à sua forma divina, e assim povoar alegremente a nossa vida de divindades.(...)E compreendi que todos estes materiais da obra literária eram a minha vida passada; compreendi que tinham vindo até mim nos prazeres frívolos, na preguiça, na ternura, na dor, que os armazenara tanto lhes adivinhando o destino, ou até a sobrevivência, como a semente ao guardar a reserva de todos os nutrientes que haverão de alimentar a planta. Tal como a semente, eu poderia morrer quando a planta se desenvolvesse, e verificava que, sem o saber, tinha vivido por causa dela, sem achar que a minha vida devesse alguma vez entrar em contacto com aqueles livros que teria gostado de escrever e para os quais, quando em tempos me sentava à mesa de trabalho, não encontrava assunto.Assim toda a minha vida até ao dia de hoje poderia e não poderia resumir-se sobre o título: «Uma vocação» Não poderia na medida em que a literatura não desempenhara qualquer papel na minha vida.E poderia porque esta vida, as recordações das suas tristezas e das suas alegrias constituíram uma reserva semelhante ao albúmen que reside no óvulo das plantas e aonde este vai buscar o seu alimento para se transformar em semente, quando se ignora ainda,que o embrião de uma planta, lugar de fenómenos químicos e respiratórios secretos, mas muito activos, se está desenvolvendo Assim estava a minha vida ligada ao que lhe traria maturação.

(Marcel Proust)O Tempo Reencontrado

terça-feira, setembro 26, 2006

Soltar os cavalos do espanto...

( Ron Mueck)



Resistir



Dobrar na boca o frio da espora

Calcar o passo sobre lume

Abrir o pão a golpes de machado

Soltar pelo flanco os cavalos do espanto

Fazer do corpo um barco e navegar a pedra

Regressar devagar ao corpo morno

Beber um outro vinho pisado por um astro

Possuir o fogo ruivo sob a própria casa

numa chama de flechas ao redor.

(Joaquim Pessoa)

Reflexos do Olhar XXVI

Faro. Porta velha

segunda-feira, setembro 25, 2006

Poema à duração

(Evans Coney)

(...)

O poema da duração é um poema de amor.
Trata de um amor à primeira vista,
a que se seguem ainda numerosos olhares como esse primeiro.
E este amor
não tem a duração em nenhum acto,
mas sim num antes e num depois,
em que, mediante o outro sentido do tempo do acto de amar,
o antes foi também depois
e o depois também antes.
Já nos tínhamos unido,
continuámos a unir-nos
depois de nos termos unido
e ficámos assim durante anos,
deitados ao lado um do outro,
anca contra anca, respiração na respiração.

Peter Handke (1942)- Poema à Duração

Reflexos do Olhar XXV

http://web.mac.com/fcnpereira/iWeb/Site/Chile%20Ski%20Tour%202006.html

domingo, setembro 24, 2006

Reflexos do Olhar XXIV

(Aguarelas de Turner) Sesimbra . Fortaleza.

UM DOMINGO COM AL BERTO

(Manet)


O Amor aumenta com o amarelecimento do linho
maior quietude rodeia agora a casa lunar
soçobram do fundo dos espelhos submersos os instrumentos
de muitos e delicados trabalhos
repousam sobre a erva para sempre


só o desejo dalguma eternidade despertaria o terno arado
mas a vida tropeça nos húmidos órgãos da terra
as selvagens flores afligir-te-ão o olhar
por isso inventaremos o necessãrio ciclo do outono

a noite dilata a viagem
pressentimos a nervosa luta dos corpos contra a velhice
mas nada há a fazer
resta-nos descer com as raízes do castanheiro
até onde se ramificam as primeiras águas e se refaz o desejo

as bocas erguem-se
procuram um rápido beijo no éter da casa.

AL BERTO (Vígilias)

sábado, setembro 23, 2006

Reflexos do Olhar XXIII

(Aguarelas de Turner) Mulher olhando o mar

Contra el inevitable helor del tiempo...

(Vermeer)

LA REALIDAD

No, no quiero los sueños. Es la vida,
la realidad la que nos llama. Escucha.
Son las cosas estrictas que tocamos
las que nos prestan su difícil música.

Difícil, sí, difícil es alzarse
desde el silencio de la pena abrupta
y tocar con los dedos aún heridos
estas candentes realidades duras.

Pero lo mismo que esos pobres árboles
frente a los brazos del otoño luchan,
hemos de defender hoja por hoja
la rama viva que nos da la fruta

de la esperanza, que hace cada día.
esa naranja un poco más madura.
Contra el inevitable helor del tiempo
que con tus amantes manos la recubran.

No. No es el sueño. Es esta vida diaria
la que hay que comenzar de nuevo. Busca
en mí el esfuerzo y la sonrisa. Míralos.
(Aunque los finja Por vencer tu duda.)

Porque era esto lo que contenía
aquella caja de sorpresas...
Nunca
podremos ya volver atrás. La tarde
sombra a nuestras espaldas acumula.



Leopoldo de Luis (Espanha,1918-2005)

http://amediavoz.com/luis.htm

____________________________
Enviado por Amélia Pais
http://barcosflores.blogspot.com/
http://cristalina.multiply.com/

sexta-feira, setembro 22, 2006

Ocioso e magnífico como uma tela de Gauguin

(Gauguin)


O Velho Fausto parecia um Domingo. Costumava vê-lo, manhã cedo, cruzar o passeio, pisando sem ruído as flores das acácias, muito aprumado no seu fato de linho branco, chapéu de palha, laço e bengala, e tão sem pressa, meu Deus!cumprimentando com acenos lentos(largos sorrisos) a turba ansiosa. Um dia alguém o provocou:
«Afinal, o que faz você nos dias úteis?»
Ele sorriu, ainda mais generoso, e o claro fulgor dos seus dentes perfeitos cegou o atrevido:
«Todos os meus dias são inúteis», respondeu com solene orgulho: «Eu os passeio.»
Durante muitos anos, devo confessar, quiz ser como ele.Hoje sei que pecava por excessiva ambição.Trabalhando intensamente qualquer pessoa é capaz de alcançar, no fim da vida, relativa prosperidade e a admiração dos outros. Um ladrão hábil pode ficar rico em dez ou quinze anos. A conquista do poder também impõe considerável esforço; isto, já para não falar em santidade ou heroicidade. A inutilidade, porém,
exige algo de mais difícil:talento.Nem todos podem ser inúteis, realmente inúteis, da mesma forma que poucos conseguem fazer chorar um violino. Também nem todos merecem ser inúteis.Fausto, sim, era inútil- e merecia-o. Foi, enquanto viveu, ocioso e magnífico como uma bela tela de Gauguin.

José Eduardo Agualusa (O homem que parecia um domingo. Contos e crónicas)

Reflexos do Olhar XXII

(Aguarelas de Turner) Sesimbra. Tarde de Setembro.

quarta-feira, setembro 20, 2006

Se calhar amanhã telefono-te...



É da tua mão que eu preciso agora

É da tua mão que eu preciso agora. Há momentos, sabes, que me sinto tão cansado, todos estes dias cheios de palavras que me fogem. Então penso em ti: Joana. Penso: vou contar-te uma coisa. Há pouco tempo morreu a filha de um amigo meu, homem generoso e bom, melhor do que alguma vez fui. Um cemitério é um lugar horrível e a dor dele doía-me. Depois de tudo acabar voltei para o automóvel. Eram muitos passos nas veredas a voltarem para os automóveis. O caixãozinho branco. Aquelas árvores que tu conheces de quando a gente há dois anos. Despedi-me das pessoas um pouco ao acaso, sem sentir os dedos que apertava: têm tantos dedos as pessoas. Nem me lembro já porquê abri a mala do carro. Estavam lá dentro coisas tuas de Espanha: batas, papéis, as inutilidades confusas que estás sempre a juntar. Peguei numa das tuas batas, abracei-a. E desatei num choro de menino, de cabeça inclinada para a mala do carro na esperança : que não me vissem. Depois lá enxuguei o nariz à manga nunca perdi o hábito de enxugar o nariz à manga engoli-me a mim mesmo e vim-me embora. Sempre que me sento no teu carro lembro-me de ti. Também me lembro quando não me sento no carro mas sempre que me sento no carro lembro-me de ti. De ti e de Malanje onde começaste a ser, e as mangueiras tremem-me no interior do sangue.Mas é da tua mão que eu preciso agora. Há momentos em que me farto de ser homem: tudo tão pesado, tão estranho, tão difícil. Eu vou tendo paciência e no entanto, às vezes as coi­sas magoam, há ideias que entram na gente como espinhos. Não se podem tirar com uma pinça: ficam lá. É então que a cara prin­cipia a estragar-se e a gente diz envelhece. Necessito de muito pouca coisa hoje em dia: uns livros, o meu trabalho de escrever, amigos que se estreitam com o tempo, alguns deixados para trás, não sei onde. A minha avó dizia que fui a pessoa por quem chorava mais. Nunca acre­ditei. Era autoritária, mimada, sedutora: tratava-me tão bem! Jogávamos a ver qual de nós dois conquistava o outro: andáva­mos mais ou menos empatados(sabes como detesto perder)e nisto ela morreu. Recordo-me de sair de sua casa e vir à cervejaria comer. Ainda não tinha tempo de sentir-lhe a ausên­cia. Pedi o jornal desportivo ao empregado. Ao voltar para cima achei-a vestida sobre a cama.Agora é novembro, tenho frio, ando às voltas com um romance de que não estou a gostar. Nunca estou a gostar do que escrevo, acho aquele em que trabalho o mais difícil, acho que as palavras me derrotam. Frases puxadas como pedras de um poço que não vejo. Banalidades que me indignam por estarem tão longe do que quero. Capítulos que me fogem, o plano da his­tória dinamitado pelos caprichos da minha mão, que não faz o que pretendo: escapa-se sempre, inventa, tenho de apanhá-la a meio de um período inverosímil. Talvez seja por isso que preciso da tua. Ou não por isso: não bebo e no entanto há alturas em que me sinto tão só que é quase o mesmo. E sem essa solidão não me é possível escrever. O meu amigo a quem morreu a filha chama-se José Francisco. Quando sorri os cantos da boca parecem levantar voo. Faz-me bem. Gostava de sorrir assim. Experimentei ao espelho e não é igual. Quer dizer, a boca curvou-se mas os olhos ficaram fixos, duros. Deixei de sorrir e enchi a cara de espuma da barba, até ser apenas nariz e olhos. Então sorri outra vez e os olhos acharam graça e mudaram. Os meus olhos sérios olhavam para os meus olhos divertidos. Pisquei o esquerdo e o espelho piscou o direito. Lavei a cara, apaguei a luz, saí. Por um segundo veio-me a sensação de caminhar em Malanje. Aquele cheiro da terra, demorado, opaco, violento. E pronto, é tarde. Em chegando ao fim da página aca­bou-se. Ponho a tampa na caneta, os cotovelos na mesa e fico a observar a parede. Nem vou reler isto, mando tal e qual. Prefiro observar a parede, deixar-me impregnar devagarinho pela essên­cia das coisas. Esta cadeira, aquele móvel, uma manchinha de cinza no chão, as minhas mãos geladas de frio a acabarem esta crónica. Se calhar amanhã telefono-te. Ou regresso ao romance na teimosia dos cães. Penso: nem que deixe a pele nele hei-de conseguir acabá-lo. Comecei-o no princípio de outubro, falta muito. Alinho os papéis, ponho tudo em ordem para a escrita. Nem que deixe a pele nele hei-de conseguir acabá-lo. Leio a última frase, continuo. Só por um bocadinho de nada, antes que continue, importas-te de tirar as batas do carro? Importas-te de me dar a mão?
António Lobo Antunes, Segundo Livro de Crónicas

lembrado in http://puracoincidencia.blogspot.com/

____________________________Enviado por Amélia Paishttp://barcosflores.blogspot.com/

Reflexos do Olhar XXI

(Aguarelas de Turner)
Para todos os não desistem de procurar a beleza

segunda-feira, setembro 18, 2006

Quanto terror latente...




Quanto terror latente
nesse mar gelado
que desde sempre
levamos na alma.

António Castañeda

sábado, setembro 16, 2006

Nunca o medo da vida foi tão intenso...



Os homens afastam-se dos livros, o que quer dizer dos escritores, dos "intelectuais".É bom sinal- desde que substituam os livros pela vida! Mas será isto que se passa? Nunca o medo da vida foi tão intenso. O medo da vida substitui o medo da morte. Vida e morte passaram a significar o mesmo.No entanto, nunca a vida encerrou tantas promessas como agora.Nunca na história do homem a questão foi tão clara- a opção entre a criação e o aniquilamento. Sim, deitem fora os vossos livros! Especialmente se eles encobrem a questão em causa. Nunca a própria vida foi mais um livro aberto do que no momento presente.Mas seremos nós capazes de ler o Livro da Vida?

Henry Miller ( Os livros da minha vida)

Reflexos do Olhar XX

Fim de tarde- Costa da Caparica

sexta-feira, setembro 15, 2006

Temos todos que vivemos...

(Laughlin)

Temos todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada

Fernando Pessoa

Reflexos do Olhar XIX

(Aguarelas de Turner) Clareiras de luz

quinta-feira, setembro 14, 2006

O livro que se torna vivo...


O livro que se torna vivo é o livro que foi penetrado até ao âmago pelo coração devorador. Até ser acendido por um espírito tão vivo e flamejante como aquele que lhe deu origem, uma obra está morta para nós. As palavras desprovidas da sua magia não passam de hieróglifos mortos. As vidas despojadas de curiosidade, de entusiasmo, de dádiva e de capacidade de receber, são absurdas e estéreis como letras mortas.Encontrar um homem a quem posso chamar um livro vivo é alcançar a própria fonte de criação. Ele permite-nos ver o fogo que consome o universo inteiro e que não emite apenas luz mas também uma visão, uma força e uma coragem perenes.

Henry Miller ( Os livros da minha vida)

quarta-feira, setembro 13, 2006

Reflexos do Olhar XVIII

Obra do Tempo

Mas há a Vida...




Mas há a vida



Mas há a vida
que é para ser
intensamente vivida, há o amor.

Que tem que ser vivido
até a última gota.
Sem nenhum medo.
Não mata.


Clarice Lispector

segunda-feira, setembro 11, 2006

Não há revolta no homem que se revolta calçado...





Do sentimento trágico da vida

Não há revolta no homem
que se revolta calçado.
O que nele se revolta
é apenas um bocado
que dentro fica agarrado
à tábua da teoria.

Aquilo que nele mente
e parte em filosofia
é porventura a semente
do fruto que nele nasce
e a sede não lhe alivia.

Revolta é ter-se nascido
sem descobrir o sentido
do que nos há-de matar.

Rebeldia é o que põe
na nossa mão um punhal
para vibrar naquela morte
que nos mata devagar.


E só depois de informado
só depois de esclarecido
rebelde nu e deitado
ironia de saber
o que só então se sabe
e não se pode contar.


Natália Correia

Reflexos do Olhar XVI


Lembrando o 11 de Setembro

domingo, setembro 10, 2006

UM DOMINGO COM DOLORES DURAN



A noite do meu bem

Hoje eu quero a rosa mais linda que houver
E a primeira estrela que vier
Para enfeitar a noite do meu bem
Hoje eu quero a paz de criança dormindo
E o abandono das flores se abrindo
Para enfeitar a noite do meu bem
Quero a alegria de um barco voltando
Quero a ternura de mãos se encontrando
Para enfeitar a noite do meu bem
Ah! Eu quero o amor mais profundo
Eu quero toda a beleza do mundo
Para enfeitar a noite do meu bem
Ah! Como este bem demorou a chegar
Eu já nem sei se terei no olhar
Toda a ternura que eu quero lhe dar.

( Dolores Duran)

Reflexos do Olhar XV

Gentilmente cedida pelo meu filhote - Lago Lomond

sábado, setembro 09, 2006

Era isto o Inverno?

(Bruegel)


O mês de Julho fora quente e luminoso.Mas no princípio do novo mês fez-se mau tempo, reinou uma humidade fria, chuva mesclada de neve, seguida de uma nevada incontestável e esse Verão, além do fim de Agosto, até pleno Setembro. No começo os quartos conservaram o calor do período estival precedente: registaram-se dez graus no seu interior, o que passava por uma temperatura agradável. Mas aos poucos o frio aumentava, e o aspecto da neve que caía sobre o vale causou viva satisfação, porque só ele- a queda de temperatura não teria bastado- decidiu a Administração a acender o aquecimento central, em primeiro lugar na sala de jantar e depois também nos quartos; e quem, após ter cumprido o dever do repouso, se desembaraçasse dos dois cobertores e, abandonando a sacada, entrasse no aposento, podia tocar com as mãos húmidas e enregeladas os radiadores reanimados, cuja emanação seca intensificava o ardor das faces.
Era isto o Inverno? Os sentidos não se esquivavam a essa impressão, e todos lamentavam « que lhes tivessem roubado o Verão», posto que eles mesmos, ajudados por circunstâncias artificiais e naturais, por um pródigo consumo do tempo, o tivessem esbanjado eles próprios. A razão argumentava que ainda viriam uns belos dias de Outono, talvez até uma série deles, e que teriam um esplendor tão cálido que não seria excessiva honra atribuir-lhes nome de Verão - uma vez que se fizesse abstracção da órbita do Sol já menos oblíqua e do facto de anoitecer mais cedo. Mas o efeito que a paisagem de Inverno exercia sobre a alma era mais forte que todas as consolações. Pelo menos era essa a atitude de Joachim que disse numa voz oprimida:
-Irá recomeçar isto agora?
Hans Castorp respondeu do fundo do quarto:
- Seria um pouco prematuro.Isto não pode ser definitivo, mas têm uma aparência terrivelmente definitiva. Se o Inverno consiste na escuridão, na neve, no frio e nos radiadores quentes, temos outra vez Inverno, não podemos negá-lo. E quando considero que o Inverno acaba apenas de terminar e mal passou o degelo- em todo o caso parece-nos que acabamos de saír da Primavera; não achas?- bem, sentimo-nos desanimados, francamente! Estas ideias são perigosas para o nosso optimismo. Vou-te explicar o que estou a dizer. Quero dizer que o mundo normalmente está organizado de maneira a corresponder às necessidades do homem e a estimular-lhe a alegria de viver; isto deve ser admitido(...) Mas o caso é que as nossas necessidades e os factos básicos e gerais da Natureza estão, graças a Deus, de acordo uns com os outros. (...) Na planície, quando vem o Verão ou o Inverno , já passou tanto tempo desde o Verão ou Inverno anteriores, que a estação que chega é-nos outra vez nova e bem-vinda, e disso deriva a alegria de viver. Mas aqui em cima, essa ordem e esse acordo são perturbados, primeiro porque no fundo não há verdadeiras estações, como tu mesmo me disseste uma vez, mas sòmente dias de Inverno e dias de Verão misturados, numa completa desordem e segundo, porque aquilo que decorre para nós aqui não é Tempo, de maneira que o Inverno quando chega, não é novo, mas sim o mesmo que o passado. Daí se explica o mau humor com que estás a olhar pela janela.

Thomas Mann ( Montanha Mágica)

Reflexos do Olhar XIV

(Aguarelas de Turner) Transparências II

sexta-feira, setembro 08, 2006

Reflexos do Olhar XIII

(Aguarelas de Turner) Festa de rua -Festival de Edimburgo

Examinai,sobretudo, o que parece habitual...




Nada é impossível de mudar

Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural nada deve parecer impossível de mudar.

Bertold Brecht

quinta-feira, setembro 07, 2006

Reflexos do Olhar XII

(Aguarelas de Turner) Urze vulgar

Pousa a tua mão devagar...

(Henri Moore)





Não tenhas medo do amor. Pousa a tua mão
devagar sobre o peito da terra e sente respirar
no seu seio os nomes das coisas que ali estão a
crescer: o linho e genciana; as ervilhas-de-cheiro
e as campainhas azuis; a menta perfumada para
as infusões do verão e a teia de raízes de um
pequeno loureiro que se organiza como uma rede
de veias na confusão de um corpo. A vida nunca
foi só Inverno, nunca foi só bruma e desamparo.
Se bem que chova ainda, não te importes: pousa a
tua mão devagar sobre o teu peito e ouve o clamor
da tempestade que faz ruir os muros: explode no
teu coração um amor-perfeito, será doce o seu
pólen na corola de um beijo, não tenhas medo,
hão-de pedir-to quando chegar a primavera.

(Maria do Rosário Pedreira)

quarta-feira, setembro 06, 2006

Reflexos do Olhar XI

(Aguarelas de Turner) Cambridge , Janela

A minha alma está neles...

(Renoir)




São Meus Estes Rios

São meus estes rios
que buscam caminho
rastejando entre luar e silêncio,
sombra e madrugada,
até ao seu fim marítimo.

A minha alma está neles,
líquida e sonora
como a água entre o quissange das pedras,
o anoitecer nas fontes.

Tenho rios vermelhos e quentes
na minha dimensão física,
rios remotos, remotos como eu.


Manuel Lima

terça-feira, setembro 05, 2006

Reflexos do Olhar X

(Aguarelas de Turner) Transparências

segunda-feira, setembro 04, 2006

Só ela me podia defender...

(Fragonard)


A Sílaba

Toda a manhã procurei uma sílaba.

É pouca coisa,é certo:uma vogal,

uma consoante,quase nada.

Mas faz-me falta.Só eu sei

a falta que me faz.

Por isso a procurava com obstinação.

Só ela me podia defender

do frio de janeiro,da estiagem

do verão.Uma sílaba.

Uma única sílaba.

A salvação.

de Ofício de Paciência


(Eugénio de Andrade)

Reflexos do Olhar IX

(Aguarelas de Turner) Lago Lomond (retomando a viagem...)

domingo, setembro 03, 2006

UM DOMINGO COM ANTÓNIO CÍCERO

(Lapage)




Guardar uma coisa
não é escondê-la
ou trancá-la.

Em cofre não se guarda
coisa alguma
Em cofre perde-se
a coisa à vista
Guardar uma coisa é
olhá-la, fitá-la, mirá-la
por
admirá-la, isto é,
iluminá-la ou ser por ela
iluminado
Guardar uma coisa é
vigiá-la, isto é,
fazer vigília
por
ela, isto é, velar por ela,
isto é, estar acordando
por ela,
isto é, estar por ela ou ser
por ela.

Por isso melhor se guarda
o vôo de um pássaro
Do que pássaros sem vôos.

Por isso se escreve, por
isso se diz, por isso
se publica,
por isso se declara
e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele,
por sua vez,
guarde o que guarda:
Guarde o que quer
que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que quer guardar.

António Cícero

Reflexos do Olhar VIII

Voltando um pouco atrás na história...

sábado, setembro 02, 2006

A diferença que há...

(Hodler)

A Diferença Que Há

A diferença que há entre os estudiosos e os poetas

É que aqueles passam a vida inteira com o nariz num assunto

A ver se conseguem decifrá-lo, e estes

Abrem o livro, lêem três páginas, farejam as restantes

(nem sequer todas) e sabem logo do assunto

o que os outros não conseguiram saber.

Por isso é que

os estudiosos têm raiva dos poetas,

capazes de ler tudo sem Ter lido nada

( e eles não leram nada tendo lido tudo).

O mal está em haver poetas que abusam do analfabetismo,

E desacreditam a gaya Scienza .

Jorge de Sena

Reflexos do Olhar VII

(Aguarelas de Turner) Loch Ness -janelas...

sexta-feira, setembro 01, 2006

Um misto de mar e capibaribe...(um presente para a Márcia)

( Michael Stang)



para um poema de amor

acordei querendo escrever um poema de amor

um poema que de amor reluzisse
nessa manhã sem azul
que trouxesse de volta o bem-te-vi sumido
e reinventasse ninhos no pinheiro
e fantasmas amigos na varanda
vivos ou não

um poema que verdágua transbordasse
num misto de mar e capibaribe
de paralelepípedo e mangue
e que fizesse florir em pleno inverno os
baobás e todas as acácias
guardando os flamboyants para o verão

um poema que se negasse ao corriqueiro
eu te amo e dissesse do amar
com verso e rima
numa voz peculiar de gesto novo
que fosse efêmero como o bronze esverdeado
das estátuas e permanente como o brilho
que há nas bolas de sabão

que dissesse de mim sem me dizer
e alardeasse o querer de cada gente
dispensando os como os quando e todos os porquês

e que algum dia em um livro em um blogue
onde quer que alguém o visse
que se lhe abrisse um sorriso ao fim de o ler

Márcia Maia (http://www.tabuademares.blogger.com.br/

Reflexos do Olhar VI

(Aguarelas de Turner) Loch Ness - janelas (cont.)