segunda-feira, setembro 13, 2010

Não vás tantas vezes à estrada...

                                                     

Carta a minha mãe

Estás viva ainda, velhota minha?
Eu vivo também. Saudações, saudações!
Que passe sobre a tua cabana
aquela luz da tarde indescritível!

Escrevem-me que tu, embora o escondas,
te preocupas demasiado comigo,
que vais muita vez até à estrada
com o teu casacão fora de moda.

E a coberto do azul da noite
muitas vezes imaginas a mesma coisa-
que alguém numa rixa de taberna
me enterrou no coração uma navalha...

Nada acontece, mãe! Descansa.
Isso é só a tua imaginação.
Eu não sou um bêbado inveterado
para morrer sem te ver primeiro

Como dantes tão afeiçoado
Sonho apenas em escapar
à minha angústia intranquila
e voltar à nossa pobre casa.

Eu voltarei, quando estender os ramos
na Primavera o nosso jardim branco.
Só te peço que, de madrugada,
não me acordes como oito anos atrás.

Não acordes aquele que esgotou todos os sonhos,
não perturbes aquele que não se realizou-
demasiado cedo o sofrimento e o cansaço
encheram totalmente a minha vida.

E não me ensines orações. Não é preciso!
Não se pode já voltar atrás.
Tu sozinha me és ajuda e conforto,
Tu sozinha me és inefável luz.

Assim, esquece, pois as tuas angústias,
não fiques tão triste por minha causa.
Não vás tantas vezes à estrada
com o teu casacão fora de moda.

(Serguéi Iessénine)

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