Será feita de aves a primeira sensação da manhã
ser-nos-ão concedidos os dons do voo e do sonho permanente
juntos descobriremos a fonte do nocturno bosque
e a sabedoria do estritamente necessário
despojar-nos-emos dos corpos
dos objectos acumulados na memória
do sonho e do ouro utópico chegará a metamorfose
o tempo será rigorosamente prolongado a cada enxertia dos pomares
da mesma árvore derramar-se-ão frutos diferentes
quando os dias se tornarem mais nítidos
o regresso é demorado
avança manhã adiante
com o crescimento das mãos e da sageza.
(Al Berto- Vigílias)
Turner na liberdade das suas aguarelas dá-nos a emoção do olhar e do sentir em estado puro.Este espaço propõe-se convocar, pela voz dos que sabem, múltiplos instantes de vida: luz e sombra; esquecimento e memória; vida e morte...
"Seja qual fôr o caminho que eu escolher um poeta já passou por ele antes de mim"
S. Freud
terça-feira, dezembro 30, 2008
Será feita de aves......
Olhar o mundo à minha volta,
gostar dos que me são queridos,
usar, da melhor maneira, aquilo, que julgo saber...
domingo, dezembro 28, 2008
Ele é um dos eternos mensageiros...

(Munch)
Celebrar, sim! Eleito a celebrar
surgiu como o minério do silêncio
da pedra. Ó coração, mortal lagar
de um vinho inesgotável para os homens.
A nenhum pó a sua voz falhou
se o exemplo divino dele se apossa
Tudo se faz vinhedo e se faz uva
amadurada no seu Sul sensível.
Nem nas criptas dos reis a podridão
poderá desmentir seu celebrar,
ou sombra que dos deuses caír possa.
Ele é um dos eternos mensageiros
que ainda pra lá dos umbrais dos mortos
erguem taças de frutos gloriosos.
(Rainer Maria Rilke-Sonetos a Orfeu)
Olhar o mundo à minha volta,
gostar dos que me são queridos,
usar, da melhor maneira, aquilo, que julgo saber...
Bach. Cantata BWV 147. 1
Olhar o mundo à minha volta,
gostar dos que me são queridos,
usar, da melhor maneira, aquilo, que julgo saber...
O ser humano não se compadece com os males a que não assiste
XV Uma civilização de compartimentos estanques
(...)
(...)
Oscar Wilde escreveu em qualquer parte que o pior crime é a falta de imaginação: o ser humano não se compadece com os males que não experimenta directamente ou a que não assiste. Pensei muitas vezes que as carruagens blindadas e os muros bem construídos dos campos de concentração asseguraram a extensão e a duração dos crimes contra a humanidade, que teriam acabado bem mais cedo se tivessem sido efectuados ao ar livre e à vista de todos. O hábito, nas praças públicas da Idade Média e do Grande Século, entorpecia talvez certos espectadores; mas sempre restavam alguns para se comoverem, ou até para protestar, e o seu murmúrio acabou por ser ouvido. Os executantes de tais obras hoje em dia são mais cuidadosos nas suas precauções.(...)
(Marguerite Yourcenar-1972-O Tempo esse grande escultor)
(Marguerite Yourcenar-1972-O Tempo esse grande escultor)
Olhar o mundo à minha volta,
gostar dos que me são queridos,
usar, da melhor maneira, aquilo, que julgo saber...
sábado, dezembro 27, 2008
Da consciência-perdoem-me- mas desconfio...
ESPERAR O INESPERADO
Esperar o inesperado é uma expectativa que se abre sem limites definidos, sem trajectória, sem apostar seja no que for. A esperança não tem nada a ver com este exercício permanente de disponibilidade. Nem, propriamente, a surpresa. Esperança e surpresa estão demasiado contaminadas de humano para poderem participar nesta disponibilidade para o que vier de um lá que nem sabemos onde se situa, onde terá vigência. E, no entanto, a busca do inesperado impõe-se, não pode reduzir-se àquela expectativa que eu tentei traduzir num texto poético: «Amadonada vitralesca, a Noiva do Bairro morreu de doce expectoração à janela.» Foi Heraclito quem muito bem formulou essa imposição: «Se não buscas o inesperado não o encontrarás, que é penoso e difícil encontrá-lo.» Portanto, não esperar mas buscar, o que implica, por parte do agente, um moto próprio. E como buscar o inesperado, ir ao encontro dele, conseguir que ele aceda a nós? Praticando uma estratégia, por assim dizer, do vazio? Não ter e não esperar nada para buscar tudo? Estar aberto, vácuo, livre? Aceitar o que nos chega como se de inesperado sempre se tratasse? Explorar o chamado acaso objectivo, essa forma de manifestação da necessidade exterior que abre um caminho até ao inconsciente humano, como alguém o definiu?
Usando de um prudente relativismo, penso que todas estas interrogações se podem reduzir a uma: que fazer do desejo?
Hoje a maioria de nós vive presa a formas martelantes de vida ( família, trabalho, consumo, cultura), como preservar o nosso desejo naquilo que ele tem de mais imperativo? Porque é através desse potente motor que nós, para nos salvarmos da rotina no que ela tem de mortal, poderemos avançar para mais liberdade.
Da consciência-perdoem-me-mas desconfio. Ela está tão ocidentalmente conformada que não raro, se confunde com a culpa, o remorso, a espiação ou então, com a vaidade, o orgulho, a prepotência. Através do desejo, poderemos buscar o inesperado e encontrá-lo. Parece-me ser a única forma autêntica de libertação. Mas que, nestas filosofâncias, fique bem claro que, quando penso em desejo, não estou a pensar em termos exclusivamente sexuais. O desejo é mais que o apetite. É como o amor: uma forma de sexualidade alargada. Não há comportamento humano que lhe escape.
(Alexandre O'Neill- Uma coisa em forma de assim)
Usando de um prudente relativismo, penso que todas estas interrogações se podem reduzir a uma: que fazer do desejo?
Hoje a maioria de nós vive presa a formas martelantes de vida ( família, trabalho, consumo, cultura), como preservar o nosso desejo naquilo que ele tem de mais imperativo? Porque é através desse potente motor que nós, para nos salvarmos da rotina no que ela tem de mortal, poderemos avançar para mais liberdade.
Da consciência-perdoem-me-mas desconfio. Ela está tão ocidentalmente conformada que não raro, se confunde com a culpa, o remorso, a espiação ou então, com a vaidade, o orgulho, a prepotência. Através do desejo, poderemos buscar o inesperado e encontrá-lo. Parece-me ser a única forma autêntica de libertação. Mas que, nestas filosofâncias, fique bem claro que, quando penso em desejo, não estou a pensar em termos exclusivamente sexuais. O desejo é mais que o apetite. É como o amor: uma forma de sexualidade alargada. Não há comportamento humano que lhe escape.
(Alexandre O'Neill- Uma coisa em forma de assim)
Olhar o mundo à minha volta,
gostar dos que me são queridos,
usar, da melhor maneira, aquilo, que julgo saber...
sexta-feira, dezembro 26, 2008
Agora sim...agora não....Os Deolinda
Estou deliciada com este disco. Se ainda não o conhecem não percam a oportunidade. Um grupo, radicalmente original, capaz de inovar no plano musical/instrumental e no plano da letra. Esta canção caracteriza, genialmente, a nossa resistência à mudança.
Olhar o mundo à minha volta,
gostar dos que me são queridos,
usar, da melhor maneira, aquilo, que julgo saber...
quinta-feira, dezembro 25, 2008
Lisboa não é a cidade perfeita-Os Deolinda
Olhar o mundo à minha volta,
gostar dos que me são queridos,
usar, da melhor maneira, aquilo, que julgo saber...
quarta-feira, dezembro 24, 2008
Hoje é Noite de Natal
(Aguarelas de Turner) Esta noite a lareira vai estar sempre acesa. Se a família tem o seu lugar cativo, os amigos, qualquer que seja a hora, podem sempre entrar... Sei que também estão à volta da mesa, que os risos se redobram no reencontro com os imprescindíveis bacalhau e couves, que só neste jantar especial sabem tão bem. Mas se lá pela madrugada ou no acordar da manhã quiserem dar aqui uma saltada (ainda que virtual) vão encontrar por aqui as brasas que nunca deixaram de ser atiçadas para vos receber. E agora uma palavra especial para o meu querido mano, que já não sei há quantos anos, foi recriar a magia do outro lado do Oceano. Sentimos sempre a tua falta!
Olhar o mundo à minha volta,
gostar dos que me são queridos,
usar, da melhor maneira, aquilo, que julgo saber...
terça-feira, dezembro 23, 2008
A pena não acode ao gesto seu...

Soneto de natal
Um homem, — era aquela noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno, —
Ao relembrar os dias de pequeno,
E a viva dança, e a lépida cantiga,
Quis transportar ao verso doce e ameno
As sensações da sua idade antiga,
Naquela mesma velha noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno.
Escolheu o soneto . . . A folha branca
Pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca,
A pena não acode ao gesto seu.
E, em vão lutando contra o metro adverso,
Só lhe saiu este pequeno verso:
"Mudaria o Natal ou mudei eu?"
(Machado de Assis)
Olhar o mundo à minha volta,
gostar dos que me são queridos,
usar, da melhor maneira, aquilo, que julgo saber...
segunda-feira, dezembro 22, 2008
Não podemos ignorar...
(Henri Rousseau)Cantata da Paz
Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar
Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar
Vemos, ouvimos e lemos
Relatórios da fome
O caminho da injustiça
A linguagem do terror
A bomba de Hiroshima
Vergonha de nós todos
Reduziu a cinzas
A carne das crianças
D'África e Vietname
Sobe a lamentação
Dos povos destruídos
Dos povos destroçados
Nada pode apagar
O concerto dos gritos
O nosso tempo é
Pecado organizado.
(Sophia de Mello Breyner Andersen)
Olhar o mundo à minha volta,
gostar dos que me são queridos,
usar, da melhor maneira, aquilo, que julgo saber...
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