sábado, setembro 30, 2006

Reflexos do Olhar XXX

O rosto que nela se imprime tem a tua cor...

(Chagall)




Desfaço nos olhos o azul do céu, e
deito-o na página, com um brilho de manhã
à mistura. As palavras cintilam, numa
breve alquimia de luz. Depois, voltam
ao primeiro significado, mas o que leio
é já outra coisa. O azul fica envolto
numa espuma de oceano; a manhã
tem a frescura do fruto que se acabou
de colher; a página estende-se até
ao fim da imaginação, onde outros
continentes se abrem. E o rosto que
nela se imprime tem a tua cor, a tua
pele, o vermelho dos teus lábios,
o mármore divino do dia que nasce
quando, nos olhos, desfaço
o azul do céu.

posted by Nuno Júdice @

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Reflexos do Olhar XXIX

(Aguarelas de Turner) Verdes que espreitam...

quinta-feira, setembro 28, 2006

Reflexos do Olhar XXVIII

(Aguarelas de Turner)

Voar é Humano, transitório, momentâneo...





Que é voar?
É só subir no ar,
levantar da terra o corpo,os pés?
Isso é que é voar?
Não.

Voar é libertar-me,
é parar no espaço inconsistente
é ser livre,leve,independente
é ter a alma separada de toda a existência
é não viver senão em não-vivência

E isso é voar?
Não.

Voar é humano
é transitório,momentâneo...

Aquele que voa tem de poisar em algum lugar:
isso é partir
e não voltar.


Ana Hatherly

quarta-feira, setembro 27, 2006

Reflexos do Olhar XXVII

(Aguarelas de Turner) Farol do Cabo da Roca

Toda a arte de viver...




Susceptíveis de serem utilizadas para isso, sentia juntar-se em mim uma multidão de verdades relativas às paixões, aos caracteres, aos costumes. Aperceber-me delas causava-me alegria; recordava-me, todavia, de que descobrira várias delas no sofrimento, e outras em bem mesquinhos prazeres.
Cada pessoa que nos faz sofrer pode ser relacionada por nós com uma divindade da qual não é mais que um reflexo fragmentário e o seu último grau, divindade (Ideia) cuja contemplação nos causa imediatamente alegria, em lugar da dor que sentíamos. Toda a arte de viver consiste em não nos servirmos das pessoas que nos fazem sofrer a não ser como de um degrau que permite aceder à sua forma divina, e assim povoar alegremente a nossa vida de divindades.(...)E compreendi que todos estes materiais da obra literária eram a minha vida passada; compreendi que tinham vindo até mim nos prazeres frívolos, na preguiça, na ternura, na dor, que os armazenara tanto lhes adivinhando o destino, ou até a sobrevivência, como a semente ao guardar a reserva de todos os nutrientes que haverão de alimentar a planta. Tal como a semente, eu poderia morrer quando a planta se desenvolvesse, e verificava que, sem o saber, tinha vivido por causa dela, sem achar que a minha vida devesse alguma vez entrar em contacto com aqueles livros que teria gostado de escrever e para os quais, quando em tempos me sentava à mesa de trabalho, não encontrava assunto.Assim toda a minha vida até ao dia de hoje poderia e não poderia resumir-se sobre o título: «Uma vocação» Não poderia na medida em que a literatura não desempenhara qualquer papel na minha vida.E poderia porque esta vida, as recordações das suas tristezas e das suas alegrias constituíram uma reserva semelhante ao albúmen que reside no óvulo das plantas e aonde este vai buscar o seu alimento para se transformar em semente, quando se ignora ainda,que o embrião de uma planta, lugar de fenómenos químicos e respiratórios secretos, mas muito activos, se está desenvolvendo Assim estava a minha vida ligada ao que lhe traria maturação.

(Marcel Proust)O Tempo Reencontrado

terça-feira, setembro 26, 2006

Soltar os cavalos do espanto...

( Ron Mueck)



Resistir



Dobrar na boca o frio da espora

Calcar o passo sobre lume

Abrir o pão a golpes de machado

Soltar pelo flanco os cavalos do espanto

Fazer do corpo um barco e navegar a pedra

Regressar devagar ao corpo morno

Beber um outro vinho pisado por um astro

Possuir o fogo ruivo sob a própria casa

numa chama de flechas ao redor.

(Joaquim Pessoa)

Reflexos do Olhar XXVI

Faro. Porta velha

segunda-feira, setembro 25, 2006

Poema à duração

(Evans Coney)

(...)

O poema da duração é um poema de amor.
Trata de um amor à primeira vista,
a que se seguem ainda numerosos olhares como esse primeiro.
E este amor
não tem a duração em nenhum acto,
mas sim num antes e num depois,
em que, mediante o outro sentido do tempo do acto de amar,
o antes foi também depois
e o depois também antes.
Já nos tínhamos unido,
continuámos a unir-nos
depois de nos termos unido
e ficámos assim durante anos,
deitados ao lado um do outro,
anca contra anca, respiração na respiração.

Peter Handke (1942)- Poema à Duração