terça-feira, novembro 15, 2011

Desejei-te pinheiro à beira-mar...

                           ( Ladmore)
 Paisagem


Desejei-te pinheiro à beira-mar
para fixar o teu perfil exacto.

Desejei-te encerrada num retrato
para poder-te contemplar.

Desejei que tu fosses sombra e folhas
no limite sereno dessa praia.

E desejei: «Que nada me distraia
dos horizontes que tu olhas!»

Mas frágil e humano grão de areia
não me detive à tua sombra esguia.

(Insatisfeito, um corpo rodopia
na solidão que te rodeia.)


David Mourão-Ferreira, in "A Secreta Viagem"

domingo, novembro 13, 2011

Tornei-me perfeitamente frequentável em amor...


(...)
Chegou, portanto, o momento de fazer o balanço da minha vida. Que fiz de bom, e de menos bom? Em que fui bem sucedido, em que falhei?
O domínio que obtive menos sucesso, devo confessar, foi o amor. Por uma razão misteriosa, não soube amar as mulheres como devia ter amado. Foi como se tivesse permanecido demasiado tempo à superfície- nem sempre é assim. É um dos meus maiores desgostos.
Quando era jovem, tinha a cabeça recheada de ideias imbecis a este respeito. O amor era uma coisa que o homem impunha à mulher pois ela era por essência recalcitrante. A única maneira de proceder, era subjugá-la.
 Uma história de amor era em primeiro lugar uma história de uma conquista, depois a de uma ocupação. Uma pura relação de força na qual o homem tinha interesse em se manter na posição dominante. Estava fora de causa deixar-se arrastar, mesmo depois dela ter cedido. Sendo legítimo o seu domínio, o homem devia "vigiar" constantemente a sua conquista, devia mantê-la sob guarda se quisesse evitar que ela se rebelasse. Impossível imaginar uma relação harmoniosa, uma relação baseada na troca, ou numa qualquer igualdade entre parceiros.
Ainda hoje me pergunto de onde me vinham estas ideias idiotas que deterioraram as minhas histórias de amor até aos trinta anos. Com esta concepção imperialista na cabeça, esforçava-me por me me conduzir como uma potência ocupante. A minha actividade amorosa resumia-se a procurar um domínio a conquistar. Resultado. amava, por vezes como um louco, mas não era amado. Ou antes, mesmo quando era amado- chegou a acontecer- não me permitia sentir-me amado. Porque teria, nesse caso que depor as aramas e aceitar deixar de ser comandante de bordo. 
 As histórias que vivi nessa época de grande imbecilidade deixaram-me um horrível sabor a frustração. Por exemplo, tinha a convicção íntima que as mulheres eram feitas de tal maneira que não se interessavam absolutamente nada pelo amor físico. Mas não era só o sexo que estava em causa. Elas não se interessavam na realidade por nada. Apenas aceitavam  ir dar um passeio, ver um filme, ou jantar num restaurante agradável. Enquanto eu, pelo meu lado, era capaz de sentir um real prazer em sair para namorar, jantar fora...
Acontecia, bem entendido, que uma mulher ficasse encantada por partilhar estas coisas comigo, e mesmo sentisse realmente vontade de fazer amor. mas eu mantinha a linha imperialista sem tergiversar. Nem me deixar perturbar e ainda menos influenciar.Que tristeza ter perdido tanto tempo e tantas oportunidades de felicidade! Vinte anos mais tarde, ainda me resta alguma coisa de tudo isto: a minha mulher queixa-se frequentemente de que não sei deixar-me amar... Felizmente acabei por me libertar destas ideias grotescas. Por volta dos trinta anos, dei um salto quântico que me projectou a anos-luz, num universo encantado em que as mulheres eram dotadas de inteligência e podiam partilhar comigo uma imensidão de interesses comuns. Deixei de avaliar a mulher pela bitola de um modelo ideal e do qual ela só podia sair derrotada. Compreendi que o óptimo, no amor como em tudo, é inimigo do bom e que a procura de perfeição é deletéria.
Tornei-me por fim capaz de viver verdadeiras histórias de amor com mulheres que eram iguais a mim, humana e intelectualmente. Consegui abandonar o papel frustrante de "tutor". Fiquei a saber que havia mais prazer em dar e receber do que em dominar e impor-se pela sedução. Em suma, tornei-me perfeitamente frequentável em amor.

(David Servan-Schreiber- antes de dizer adeus)


Há alguns anos atrás fiz um poster neste blog com uma passagem do livro Anti-Cancro de David Servan-Schreiber. Sempre que alguém próximo se via mergulhado nessa luta desigual contra esta doença, fiz sempre questão de lhe oferecer um exemplar daquele livro. Era e é para mim a expressão inteligente da esperança, esperança fundamentada em numerosas investigações em áreas complementares à medicina, que permaneciam inacessíveis ao grande público. 
 Quando há pouco tempo tive conhecimento da morte de David, vi-me a questionar a validade do conteúdo da obra. Acreditara que ele conseguira vencer o seu cancro. Desejamos sempre encontrar soluções mágicas e quando tal não acontece, de repente, duvidamos de tudo o que críamos. 
Foi-me pois indispensável ler o seu último livro, um livro-testamento, que é escrito com uma coragem e verdade invulgares, respondendo, nos mais diferentes ângulos, às dúvidas que me  assaltaram e deixando a todos os que o lêem o sentimento  do amor pela vida.

terça-feira, novembro 08, 2011

Sobem dois perfumes...

                                           (Monet)

Chovem duas chuvas:
de água e de jasmins
por estes jardins de flores e nuvens.


Sobem dois perfumes
por estes jardins:
de terra e jasmins,
de flores e chuvas.


E os jasmins são chuvas
e as chuvas, jasmins,
por estes jardins
de perfume e nuvens.


(Cecília Meireles)

domingo, novembro 06, 2011

Dans ma rue.....

sábado, novembro 05, 2011

Na foz é que há a aventura....

A morte da água  

Um dos passeios que mais gosto de dar é ir a esposende ver desaguar o cávado. Existe lá um bar apropriado para isso. Um rio é a infância da água. As margens, o leito, tudo a protege. Na foz é que há a aventura do mar largo. Acabou-se qualquer possível árvore geneológica, visível no anel do dedo. Acabou-se mesmo qualquer passado. É o convívio com a distância, com o incomensurável. É o anonimato. E a todo o momento há água que se lança nessa aventura. Adeus margens verdejantes, adeus pontes, adeus peixes conhecidos. Agora é o mar salgado, a aventura sem retorno, nem mesmo na maré cheia. E é em esposende que eu gosto de assistir, durante horas, a troco de uma imperial, à morte de um rio que envelheceu a romper pedras e plantas, que lutou, que torneou obstáculos. Impossível voltar atrás. Agora é a morte. Ou a vida. 

(Rui Belo)

sábado, outubro 29, 2011

Na manhã débil, sem alvorada...

sábado, outubro 22, 2011

De súbito avistamos irisado o Tejo....

    (Aguarelas de Turner)

Aqui e além em Lisboa- quando vamos
Com pressa ou distraídos pelas ruas
Ao virar da esquina de súbito avistamos
Irisado o Tejo:
Então se tornam
Leve o nosso corpo e a alma alada

(Sophia de Mello Breyner- 3º Andamento)

terça-feira, outubro 11, 2011

ave matutina, ouve-me...

 Última Canção
Se puderes ainda
ouve-me, rio de cristal, ave
matutina,
ouve-me,
luminoso fio tecido pela neve,
esquivo e sempre adiado
aceno do paraíso.
Ouve-me, se puderes ainda,
Devastador desejo,
fulvo animal de alegria.
Se não és alucinação
ou miragem ou quimera, ouve-me
ainda: vem agora
e não na hora da nossa morte
- dá-me a beber a própria sede. 


(Eugénio de Andrade)

sexta-feira, outubro 07, 2011

Mas Lisboa não deixa de ser uma cocaína feliz...


     (Eduardo Salavisa)
Tinham-se em pé num terreno roubado ao Tejo e se não tinham preço, pelo menos, tinham um fim. Estou certa, recorda Pia, que devem ter partido tão tristes e tremido como varas verdes quando foram levadas do Terreiro de Paço, uma vez que nunca trataram por cima do ombro nenhum lisboeta.

Ora, não há pedra inteligente e delicada que não sinta pena de não estar ligada a alguma coisa real. E a memória de uma pedra é bem capaz de ser como um cesto de desagradáveis inquietações. E foi o que aconteceu, parece-me, às duas colunas.

Senão vejam. O cais da Pedra mais não foi que uma exaltação erótica da corte de D.Manuel e a Casa da Índia, mesmo tão perto, era o resultado de um tempo artificial mas que sustentava um poderoso negócio como quem sustenta um ceptro ou uma amante.

Mas as duas colunas, Pia, não são desse tempo. E se me disseres que o dormitório do convento de S.Domingos, o mosteiro do Restelo, a Torre de S. Vicente de Belém ou as tercenas navais se adaptaram imensamente felizes ao rio, eu concordo. Agora, as duas colunas colocadas anos mais tarde naquele local, não!

Ora, ora, tinham nos braços o Tejo. Tinham-no como quem nos braços uma paixão mas também como quem sabe que com ela chegará mais dia menos dia à infelicidade.

As tuas palavras, diz-lhe Napoleana, têm fé. Mas repara que ter amores com, ter o berço em, ter cabeça para, ter dono, ter dúvidas, ter na mão, ter juízo, ter um dote ou ter o diabo no corpo são apenas razões que militam a favor e contra a felicidade.

Mas eu não entendo a vossa inquietação e mágoa pelo desaparecimento das duas colunas do Terreiro do Paço. Desapareceram e pronto! À justa, nem mais nem menos, a uma hora justa foram-se! E se calhar há na sua fuga a alegria de fugir.

Bem observado Matusalém. Anda meia Lisboa a engolir este desaparecimento com as teorias mais conspirativas quando o que devia engolir era o simples facto de as duas colunas terem adivinhado o momento preciso, exacto, da sua fuga.

Mas todos vocês se recordam de ouvir falar da polémica que agitou e ondulou a cidade quando voltaram a colocá-las no Terreiro de Paço. Foi julgo, há trinta anos .Lembram-se?

Uns advogam que deviam voltar ao lugar inicial, outros não. Por sua vez, o poder político defendia que os últimos serão os primeiros e os primeiros os últimos. E os mais exaltados explicavam que as duas colunas tinham chagado às últimas, estavam nas últimas e era chegada a última hora.

E no meio de tanta profecia ouvida, sabem o que fizeram as duas colunas de pedra? Pois bem, eu  sei que elas resolveram fugir dali pelo seu próprio pé e de uma vez por todas.

Napoleona, Pompílio e Matusalém estão calados. E Pia conta que a coluna do lado esquerdo resolveu entrar pelo rio com a determinação de um pintor quando dá a última demão num quadro. Já a sua companheira escolheu deixar pela madrugada a praça e, sem ser vista, dirigiu-se a uma pedreira de Loures onde dias mais tarde foi desfeita pela ignorância de de alguém. E confesso-vos, agora contei a verdadeira história do desaparecimento das duas colunas do Terreiro do Paço, sinto um  fascínio triste por esta velhice urbana. Mas Lisboa não deixa de ser uma cocaína feliz.

(Carlos Mota de Oliveira- Logo, em Porto Formoso)

domingo, outubro 02, 2011

Se pone blanca con blanco de una mejilla de sal....

    (Imogen Cunnigham)

La Rosa Mudable

Cuando se abre en la mañana,
roja como sangre está.
El rocío no la toca
porque se teme quemar.


Aberta en el medio día
es dura como ele coral.
El sol se asoma a los vídrios
para verla relumbrar.
Cuando en las ramas empiezan
los pájaros a cantar
y se desmaya la tarde
en las violetas del mar,
se pone blanca, con blanco
de una mejilla de sal.
Y cuando toca la noche
blanco cuerno de metal
y las estrellas avanzan
mientras los aires se van,
en la raya de lo oscuro,
se comienza a deshojar.


(Federico García Lorca)