quarta-feira, dezembro 09, 2009

Ouçamos .......Leonard Cohen

terça-feira, dezembro 08, 2009

Pequena janela


                            Addiragram
Nota póstuma:

Houve uma migração acidental de um blog para outro.  Esta era uma foto que começara por pensar publicar no "Reflexos do Olhar", tendo acabado por a "pôr na prateleira". Como descobri que me enganei no lugar  resolvi deixá-la ficar, olhando-a mais como a foto que não conseguiu ser aquilo que sonhei, mas que busca novas oportunidades de se poder abrir a um novo olhar...
São sobretudo os erros que nos ensinam a querer continuar a procurar.

E depois os lapsos são sempre produtivos para o próprio, já que nos fazem discorrer sobre os caminhos que os traçaram.

Ela irá estender a sua larga saia...

                                     
                                        

                         (Keith Gantos)                    
                                          Devias ir
                                          de lugar em lugar
                                          para recuperar os poemas
                                          que foram escritos para ti,
                                          as quais poderias afixar a tua assinatura.
                                          Não fales destes assuntos
                                          com ninguém.
                                          Resgata, resgata.
                                          Quando o cesto estiver cheio
                                          há-de aparecer alguém
                                          a quem possas oferecer
                                          Ela irá estender a sua larga saia
                                          e sentar-se
                                          numa pedra preta
                                          e o teu cesto há-de ressaltar
                                          como uma mancha à luz do sol
                                          na imensa paisagem do teu regaço.


                                  (Leonard Cohen- Livro do Desejo)

segunda-feira, dezembro 07, 2009

Seus caturras duma figa...

                                           


                                (Salvador Dali)              

                                                 Existe em Camarate,
                                                 Terreola suburbana
                                                 Uma quinta que encanta
                                                 Toda a alma...sendo humana!
                                                   
                                                 Ela é mesmo um paraíso!
                                                 Essa quinta que é minha
                                                 Chama-lhe a gente do sítio
                                                 Da Victória ou Ribeirinha.

                                                 Em essa bela vivenda
                                                 Em a qual eu fui criado,
                                                 Existe tudo o que existe
                                                 Desde a capela ao cerrado.

                                                Querem vender essa terra
                                                Porque faz muita despesa.
                                                Mas quando se fala disto
                                                Digo eu assim com aspreza:

                                               « Não vêem que esta quinta
                                               Dá uma fruta tão bela?
                                               Seus caturras duma figa
                                               Sejam gratos pra com ela».

             (Mário de Sá- Carneiro- 30 de Julho de 1903)

sábado, dezembro 05, 2009

Ouçamos .......

Cultura a desenvolver-se dentro de nós como um novo orgão...


Antes de prosseguir nas minha considerações sobre cultura não posso deixar de observar que o mundo enferma de fome e ignora a cultura e que a tentativa de reconduzir à cultura um pensamento ocupado apenas pela fome é um recurso por completo artificial.
O que acima de tudo importa, assim me parece, é não tanto defender uma cultura cuja existência jamais excluiu a fome e libertou o homem da preocupação de uma vida melhor, como extrair daquilo que se denomina cultura umas quantas ideias vectoriais cuja energia motriz equivalesse à da fome.
Antes de mais nada, necessitamos de viver, necessitamos de acreditar que não estamos condenados a que esse indefinido produto do misterioso íntimo de todos nós para sempre nos obceque com uma ansiedade exclusivamente gástrica. O que pretendo frisar é que, se o que mais nos importa é comer, de maior importância será ainda não desperdiçar unicamente nessa única preocupação  todo o nosso mero potencial de fome. Se o traço característico da nossa época é a confusão, distingo perfeitamente na raiz desta confusão uma ruptura entre as coisas e as palavras, entre as coisas e as ideias e os signos que as representam.
E a causa de tudo isto não é decerto a carência de sistemas filosóficos, pelo contrário, o facto de serem inúmeros e contraditórios caracteriza a nossa velha cultura francesa e europeia. Todavia em que é que estes sistemas afectaram jamais a vida, a nossa vida? Não pretendo afirmar que os sistemas filosóficos devam ser postos em prática directa e imediatamente, mas das alternativas que passo a expor uma terá de ser verdadeira: Ou estes sistemas estão dentro de nós e impregnam  o nosso ser a ponto de servirem de manutenção à própria vida ( e se é este o caso, de que servem os livros?) ou então não penetram em nós e não têm, por consequência, possibilidade de prover à subsistência da vida (que importa nesse caso a sua desaparição?).
Temos de insistir numa ideia de cultura-em-acção, cultura a desenvolver-se dentro de nós como um novo orgão, uma espécie de segundo hálito; e na de civilização como uma cultura aplicada, a controlar até às nossas acções mais subtis, uma presença de espírito. (...)

(Antonin Artaud- O teatro e o seu duplo)

quinta-feira, dezembro 03, 2009

Feliz só será...




                                                           (Chagall)

Feliz só será
A alma que amar.

'Star alegre
E triste,
Perder-se a pensar,
Desejar
E recear
Suspensa em penar,
Saltar de prazer,
De aflição morrer —
Feliz só será
A alma que amar.

(Johann Wolfgang von Goethe, in "Canções"
Tradução de Paulo Quintela)

terça-feira, dezembro 01, 2009

A dificuldade de pensar o tempo ...


É portanto através de uma figura do excesso - o excesso de tempo- que começaremos por definir a situação de sobremodernidade, sugerindo que, devido às suas próprias contradições, ela oferece um magnífico terreno de observação e, no sentido pleno do termo, um objecto à investigação antropológica. Da sobremodernidade, poderíamos dizer que é a face de uma moeda da qual a pós-modernidade nos apresenta apenas o reverso- o positivo de um negativo. Do ponto de vista da sobremodernidade, a dificuldade de pensar o tempo está ligada à superabundância de acontecimentos do mundo contemporâneo, e não à derrocada de uma ideia de progresso de há muito posta em xeque, pelo menos sob as formas caricaturais que tornam a sua denúncia particularmente cómoda; o tema da história iminente, da história que não nos larga os calcanhares (quase imanente a cada uma das nossas existências quotidianas) surge como um preliminar ao tema do sentido ou do não-sentido da história: porque é da nossa exigência de compreender todo o presenteque decorre a nossa dificuldade de dar um sentido a um passado próximo; a busca positiva de sentido ( da qual o ideal democrático é, decerto, um aspecto essencial), que se manifesta entre os indivíduos das sociedades contemporâneas, pode explicar, paradoxalmente, os fenómenos que são por vezes interpretados como os sinais como uma crise de sentido, e entre outras coisas as decepções de todos os desiludidos da terra: desiludidso do socialismo, desiludidos do liberalismo, desiludidos do pos-comunismo, dentro em breve.

Marc Augé - Não-lugares. Introdução a uma Antropologia da Sobremodernidade)

segunda-feira, novembro 30, 2009