Turner na liberdade das suas aguarelas dá-nos a emoção do olhar e do sentir em estado puro.Este espaço propõe-se convocar, pela voz dos que sabem, múltiplos instantes de vida: luz e sombra; esquecimento e memória; vida e morte...
"Seja qual fôr o caminho que eu escolher um poeta já passou por ele antes de mim"
S. Freud
sábado, novembro 28, 2009
A ruiva rosa sonora...
Com sua agulha sonora
borda o pássaro o cipreste:
rosa ruiva da aurora,
folha celeste.
E com tesoura sonora
termina o bordado aéreo.
Silêncio. E agora
parte para o mistério.
A ruiva rosa sonora
com sua folha celeste
imperecível mora
no cipreste.
(Cecília Meireles)
Olhar o mundo à minha volta,
gostar dos que me são queridos,
usar, da melhor maneira, aquilo, que julgo saber...
quinta-feira, novembro 26, 2009
...apressamo-nos a destruí-las...
(René Magritte)
Quando queremos arrombar com êxito as portas abertas, não nos devemos esquecer de que elas têm sólidas ombreiras; este princípio, que o velho professor sempre seguira, não é mais do que uma exigência do sentido do real. Mas se existe um sentido do real e temos de admitir que ele tem direito à existência, deve também haver qualquer coisa a que se possa chamar sentido do possível.
O homem que o possui, por exemplo, nunca dirá: isto aconteceu, deve acontecer, vai acontecer isto ou aquilo; antes imagina: poderia ou deveria acontecer isto ou aquilo; e quando lhe dizem que uma coisa é como é, ele pensa que também poderia ser de outra maneira. Assim podemos definir o sentido do possível como sendo a faculdade de pensar tudo o que « também» poderia ter acontecido e não conceder mais importância àquilo que é do que àquilo que não é. Vemos que as consequências desta disposição criadora podem ser notáveis; infelizmente, não é raro que façam aparecer como falso o que os homens admiram e como lícito aquilo que els proíbem, ou que tanto faz uma coisa como outra...Esses homens do possível vivem, como aqui se diz, numa trama mais fina, uma trama de fumo, de imaginações, de divagações, de conjuntivos; quando se descobrem numa criança tendências desse tipo apressamo-nos a destruí-las, dizemos-lhe que esses indivíduos tão sonhadores, extravagantes, fracos, eternos descontentes, que sabem tudo melhor que os outros.
(Robert Musil- O homem sem qualidades)
Olhar o mundo à minha volta,
gostar dos que me são queridos,
usar, da melhor maneira, aquilo, que julgo saber...
quarta-feira, novembro 25, 2009
Olhar o rio que é de tempo e água...
Olhar o rio que é de tempo e água
E recordar que o tempo é outro rio,
Saber que nos perdemos como o rio
E que os rostos passam como a água.
Sentir que a vigília é outro sono
Que sonha não sonhar e que a morte
Que teme a nossa carne é essa morte
De cada noite, que se chama sono.
Ver no dia ou até no ano um símbolo
Quer dos dias do homem quer dos anos,
Converter a perseguição dos anos
Numa música, um rumor e um símbolo,
Ver só na morte o sono, no ocaso
Um triste ouro, assim é a poesia
Que é imortal e pobre. A poesia
Volta como a aurora e o ocaso.
Olhar o mundo à minha volta,
gostar dos que me são queridos,
usar, da melhor maneira, aquilo, que julgo saber...
segunda-feira, novembro 23, 2009
A delicada questão do dinheiro...
(Dario Castillejos, «Cagle Cartoons»)
Já no final de um discurso extremamente importante
O grande homem de Estado
numa bela frase oca
escorrega
e desamparado de boca escancarada
sem fôlego
mostrando os dentes
e a cárie dentária dos seus pacíficos raciocínios
deixa exposto o nervo da guerra:
a delicada questão do dinheiro.
(Jacques Prévert- Paroles- trad. de Manuela Torres)
Já no final de um discurso extremamente importante
O grande homem de Estado
numa bela frase oca
escorrega
e desamparado de boca escancarada
sem fôlego
mostrando os dentes
e a cárie dentária dos seus pacíficos raciocínios
deixa exposto o nervo da guerra:
a delicada questão do dinheiro.
(Jacques Prévert- Paroles- trad. de Manuela Torres)
Olhar o mundo à minha volta,
gostar dos que me são queridos,
usar, da melhor maneira, aquilo, que julgo saber...
domingo, novembro 22, 2009
Porquê?
...Descobrir que todos abrigamos nos nossos corações o selvagem, o criminoso e o animal não nos torna mais alegres.
- Qual è a sua objecção aos animais? replicou Freud- Eu prefiro infinitamente a companhia dos animais à companhia humana.
- Porquê?
- Porque são mais simples. Não sofrem de uma personalidade dividida, da desintegração do Ego, que resulta da tentativa do homem de se adaptar a padrões de civilização demasiado elevados para o seu mecanismo intelectual e psíquico. O selvagem, tal como o animal, é cruel, mas não tem a maldade do homem civilizado. A maldade é a vingança do homem contra a sociedade pelas restrições que ela impõe. Este desejo de vingança anima o reformador profissional e o intrometido. O selvagem pode cortar-lhe a cabeça, pode comê-lo, pode torturá-lo, mas irá poupar-lhe as contínuas alfinetadas que tornam a vida numa comunidade civilizada por vezes quase intolerável. Os mais desagradáveis hábitos e idiossincrasias do homem, a sua dissimulação, a sua cobardia, a sua falta de reverência, são gerados pelo seu ajustamento incompleto a uma civilização complicada. É o resultado do conflito entre os nossos instintos e a nossa cultura. Como são mais agradáveis as emoções simples, directas e intensas de um cão, quando abana a cauda ou ladra o seu desprazer! As emoções de um cão- acrescentou Freud pensativamente- lembram-nos os heróis da Antiguidade. Talvez seja essa razão pela qual inconscientemente damos aos nossos cães nome de heróis antigos como Aquiles e Heitor.
- O meu próprio cão- disse eu-é um doberman pincher chamado Ajax.
Freud sorriu.
(...)
(Entrevista dada por Freud a George Sylvester Viereck.))
Olhar o mundo à minha volta,
gostar dos que me são queridos,
usar, da melhor maneira, aquilo, que julgo saber...
sexta-feira, novembro 20, 2009
Brel, sempre...
Olhar o mundo à minha volta,
gostar dos que me são queridos,
usar, da melhor maneira, aquilo, que julgo saber...
quarta-feira, novembro 18, 2009
Desfalecem, na sombra, as suas asas...
Fragmentos
I
Quando arrefece o coração das pombas
desfalecem, na sombra, as suas asas...
(Safo-secVII-VI a.C. Fragmento 42 Lobel-Page)
Olhar o mundo à minha volta,
gostar dos que me são queridos,
usar, da melhor maneira, aquilo, que julgo saber...
segunda-feira, novembro 16, 2009
Será dos meninos o tempo e a casa
Cidade Branca
Dorme já, plenamente, a cidade!
O silêncio é de ouro e os homens
todos o procuram de mãos dadas.
Os velhos, de olhos semicerrados,
amparam-se ao bordão da memória;
emudeceram, no solar dos senhores,
o chicote, o ódio sem disfarce.
Dorme já, plenamente, a cidade!
Aproxima-se o dia. As mulheres,
amadas e repousadas, cantam
em seu sono. Abre-se, em concha,
a mão da madrugada. Lábios e rosas.
Amanhã, ao acordar, a cidade renovada
será dos meninos o tempo e a casa.
(Casimiro de Brito)
Olhar o mundo à minha volta,
gostar dos que me são queridos,
usar, da melhor maneira, aquilo, que julgo saber...
sábado, novembro 14, 2009
Com elas nos pensamos...
Das Palavras
As palavras mais simples
foram as que te dei;
o amor não sabe outras,
só estas fazem lei.
As palavras de uso
mais comum e vulgar
são as que amor conhece.
Com elas nos pensamos;
é nelas que tememos
desacertos, enganos;
se nelas triunfamos,
já delas nos perdemos.
Com palavras vulgares
se diz o mal de amor,
seu riso, seu espelho,
o que fica da dor.
E todos os mistérios
que se fazem promessa
e se perdem nos versos
e dos corpos nasceram
são aqui cerimónia
evidente e secreta
nas mais simples palavras
que conhece o poeta.
Luis Filipe Castro Mendes, in "Os Amantes Obscuros"
As palavras mais simples
foram as que te dei;
o amor não sabe outras,
só estas fazem lei.
As palavras de uso
mais comum e vulgar
são as que amor conhece.
Com elas nos pensamos;
é nelas que tememos
desacertos, enganos;
se nelas triunfamos,
já delas nos perdemos.
Com palavras vulgares
se diz o mal de amor,
seu riso, seu espelho,
o que fica da dor.
E todos os mistérios
que se fazem promessa
e se perdem nos versos
e dos corpos nasceram
são aqui cerimónia
evidente e secreta
nas mais simples palavras
que conhece o poeta.
Luis Filipe Castro Mendes, in "Os Amantes Obscuros"
Olhar o mundo à minha volta,
gostar dos que me são queridos,
usar, da melhor maneira, aquilo, que julgo saber...
"Aguarelas de Turner", "sempre"...
Enquanto a solução não chega, só me resta evocar, uma vez mais, este espantoso quadro- Norhan Castle Sunrise .
Olhar o mundo à minha volta,
gostar dos que me são queridos,
usar, da melhor maneira, aquilo, que julgo saber...
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