Turner na liberdade das suas aguarelas dá-nos a emoção do olhar e do sentir em estado puro.Este espaço propõe-se convocar, pela voz dos que sabem, múltiplos instantes de vida: luz e sombra; esquecimento e memória; vida e morte...
"Seja qual fôr o caminho que eu escolher um poeta já passou por ele antes de mim"
S. Freud
domingo, junho 14, 2009
De Sábado para Domingo um filme- Gato Preto, Gato Branco
Olhar o mundo à minha volta,
gostar dos que me são queridos,
usar, da melhor maneira, aquilo, que julgo saber...
sábado, junho 13, 2009
Nisso somos bons: os campeões da sardinha
O português gosta de enganar pela calada aqueles que mandam nele. Mandar é um verbo antigo, vasto, totalitário e infantil, que em princípio da idade adulta devia ser substituído por verbos de maior eficiência e capacidade democrática, como coordenar e gerir.
Verbos que cheiram a trabalho e responsabilidade- e o português tem o olfacto muito apurado. Assim prefere a clareza do mando, ao qual faz vénias mansas, com os dedos cruzados atrás das costas. Figas, diabo. De modo que é um povo resistente às sondagens, como mais uma vez provaram as últimas eleições europeias. A não ser essa explicação, teríamos de dizer que as empresas de sondagens são governamentalizadas. Podemos atribuir a discrepância entre as sondagens e os resultados a um gosto nacional pela surpresa ou pelo prazer de enganar. Ou ainda, à volubilidade de um povo habituado a viver como se fosse eterno.
Divertiu-me a rapidez com que, logo que se conheceu a vitória do PSD, apareceu uma sondagem da Eurosondagem a demonstrar que, se a eleição fosse para as legislativas, o resultado seria diferente, e o PS ganharia-sondagem essa realizada antes das eleições europeias. Brincamos com os números; talvez seja uma forma de lembrar aos povos mais calhados com as matemáticas que nada é exacto nem definitivo neste mundo. Gostamos mais de especular do que fazer contas- o que, não sendo o melhor método de governação, é um excelente modo de passar o tempo.
Nunca há derrotados, nas eleições portuguesas-pelo menos não no sentido clássico, que é o de reflectir sobre a derrota e tirar dela lições. José Sócrates, que tem um perfil de liderança mais frontal do que todos que tivémos a oportunidade de experimentar- incluindo o recém-ressuscitado Salazar, que adoptava o estilo de cordeiro sacrificial que melhor se coaduna com os complexos de inferioridade nacionais -, teve pelo menos a originalidade de assumir a derrota. Usou mesmo o verbo assumir-mas acrescentou de imediato que não viu nela nenhum sinal de inversão de marcha, pelo que o Governo prosseguirá na mesmíssima linha, e os portugueses compreenderão o seu esforço de combate à crise.
Eu gostava de ter essa mesma fé na generosidade dos portugueses-mas acho difícil que uma população que perdeu dezenas de regalias nos últimos anos, sem ver sequer um fósforo de justiça no fundo do tal túnel, já infinito, possa ter essa boa vontade. Atrevo-me, por isso, a sugerir ao primeiro ministro que considere umas correcções na linha. As reformas são necessárias, mas deveriam contemplar a realidade das pessoas, para lá da abstracção dos números. É difícil implantar uma cultura do mérito enquanto os chefes continuarem a enriquecer e os índios a empobrecer. É difícil entender que falte o dinheiro para o essencial (habitação, educação, justiça) e que os administradores da coisa pública, em particular aqueles cujo mérito é reconhecidamente nulo, ganhem pelo menos o triplo do salário do próprio primeiro ministro. É difícil de aceitar investimentos milionários em comboios ou museus enquanto pessoas não tiverem condições de vida mínimas, e os aposentados forem atirados para os braços financeiros dos filhos que já têm os próprios filhos a sustentar.
Ao longo da noite eleitoral, ouvimos comentadores de todos os quadrantes puxarem a brasa à sua sardinha. Nisso somos bons: os campeões da sardinha. Mas entre uma brasa e outra, conviria perceber que o voto, num país que é líder mundial da cortiça e que habituou a navegar à bolina, traz recados. Um dos recados, que o PSD ganharia em entender, é que Paulo Rangel não é a Manuela Ferreira Leite. O segundo recado, que os outros partidos precisam de entender, é que votar contra o Governo não significa ter visto a verdade e a luz na oposição. O terceiro recado, que Sócrates precisa mesmo de entender, é que não basta, por falta de melhor alternativa ( o que já não é pouco) continuar a ser primeiro-ministro: é preciso ter condições para governar. Mandar com jeito, usando a gratidão e o respeito que amolece a manha dos povos velhos. Foi devagar que construímos os barcos, criámos receitas e escrevemos as páginas que nos tornaram admirados no mundo. Anunciamos:"estou a fazer tempo", como se fôssemos deuses, e pudéssemos fabricar o tempo á medida dos nossos desejos. Dizemos: "há tempo...". E acabamos por nos desenrascar, quando é preciso. Mas tem de valer a pena. Somos sonsos, mas não somos parvos.
(Inês Pedrosa- O país onde se faz tempo. Os recados eleitorais de um povo que não compra o tempo já feito) in Revista Única- 13/06/09)
Verbos que cheiram a trabalho e responsabilidade- e o português tem o olfacto muito apurado. Assim prefere a clareza do mando, ao qual faz vénias mansas, com os dedos cruzados atrás das costas. Figas, diabo. De modo que é um povo resistente às sondagens, como mais uma vez provaram as últimas eleições europeias. A não ser essa explicação, teríamos de dizer que as empresas de sondagens são governamentalizadas. Podemos atribuir a discrepância entre as sondagens e os resultados a um gosto nacional pela surpresa ou pelo prazer de enganar. Ou ainda, à volubilidade de um povo habituado a viver como se fosse eterno.
Divertiu-me a rapidez com que, logo que se conheceu a vitória do PSD, apareceu uma sondagem da Eurosondagem a demonstrar que, se a eleição fosse para as legislativas, o resultado seria diferente, e o PS ganharia-sondagem essa realizada antes das eleições europeias. Brincamos com os números; talvez seja uma forma de lembrar aos povos mais calhados com as matemáticas que nada é exacto nem definitivo neste mundo. Gostamos mais de especular do que fazer contas- o que, não sendo o melhor método de governação, é um excelente modo de passar o tempo.
Nunca há derrotados, nas eleições portuguesas-pelo menos não no sentido clássico, que é o de reflectir sobre a derrota e tirar dela lições. José Sócrates, que tem um perfil de liderança mais frontal do que todos que tivémos a oportunidade de experimentar- incluindo o recém-ressuscitado Salazar, que adoptava o estilo de cordeiro sacrificial que melhor se coaduna com os complexos de inferioridade nacionais -, teve pelo menos a originalidade de assumir a derrota. Usou mesmo o verbo assumir-mas acrescentou de imediato que não viu nela nenhum sinal de inversão de marcha, pelo que o Governo prosseguirá na mesmíssima linha, e os portugueses compreenderão o seu esforço de combate à crise.
Eu gostava de ter essa mesma fé na generosidade dos portugueses-mas acho difícil que uma população que perdeu dezenas de regalias nos últimos anos, sem ver sequer um fósforo de justiça no fundo do tal túnel, já infinito, possa ter essa boa vontade. Atrevo-me, por isso, a sugerir ao primeiro ministro que considere umas correcções na linha. As reformas são necessárias, mas deveriam contemplar a realidade das pessoas, para lá da abstracção dos números. É difícil implantar uma cultura do mérito enquanto os chefes continuarem a enriquecer e os índios a empobrecer. É difícil entender que falte o dinheiro para o essencial (habitação, educação, justiça) e que os administradores da coisa pública, em particular aqueles cujo mérito é reconhecidamente nulo, ganhem pelo menos o triplo do salário do próprio primeiro ministro. É difícil de aceitar investimentos milionários em comboios ou museus enquanto pessoas não tiverem condições de vida mínimas, e os aposentados forem atirados para os braços financeiros dos filhos que já têm os próprios filhos a sustentar.
Ao longo da noite eleitoral, ouvimos comentadores de todos os quadrantes puxarem a brasa à sua sardinha. Nisso somos bons: os campeões da sardinha. Mas entre uma brasa e outra, conviria perceber que o voto, num país que é líder mundial da cortiça e que habituou a navegar à bolina, traz recados. Um dos recados, que o PSD ganharia em entender, é que Paulo Rangel não é a Manuela Ferreira Leite. O segundo recado, que os outros partidos precisam de entender, é que votar contra o Governo não significa ter visto a verdade e a luz na oposição. O terceiro recado, que Sócrates precisa mesmo de entender, é que não basta, por falta de melhor alternativa ( o que já não é pouco) continuar a ser primeiro-ministro: é preciso ter condições para governar. Mandar com jeito, usando a gratidão e o respeito que amolece a manha dos povos velhos. Foi devagar que construímos os barcos, criámos receitas e escrevemos as páginas que nos tornaram admirados no mundo. Anunciamos:"estou a fazer tempo", como se fôssemos deuses, e pudéssemos fabricar o tempo á medida dos nossos desejos. Dizemos: "há tempo...". E acabamos por nos desenrascar, quando é preciso. Mas tem de valer a pena. Somos sonsos, mas não somos parvos.
(Inês Pedrosa- O país onde se faz tempo. Os recados eleitorais de um povo que não compra o tempo já feito) in Revista Única- 13/06/09)
Olhar o mundo à minha volta,
gostar dos que me são queridos,
usar, da melhor maneira, aquilo, que julgo saber...
sexta-feira, junho 12, 2009
O que é esta dor sem mágoa?
Aguarela
Quando o barco passa na água
Faz as vezes de ilusão...
O que é esta dor sem mágoa
Que há um pouco em meu coração?
Quando o barco vai no rio
A gente põe-se a pensar...
Mas nem se pensa a frio,
Porque pensar é sonhar.
Quando o barco vai da vista
Há uma tristeza que vem.
Quem quer que a vida exista?
Meus sonhos não são ninguém...
(Fernando Pessoa-6/11/1928)
Quando o barco passa na água
Faz as vezes de ilusão...
O que é esta dor sem mágoa
Que há um pouco em meu coração?
Quando o barco vai no rio
A gente põe-se a pensar...
Mas nem se pensa a frio,
Porque pensar é sonhar.
Quando o barco vai da vista
Há uma tristeza que vem.
Quem quer que a vida exista?
Meus sonhos não são ninguém...
(Fernando Pessoa-6/11/1928)
Olhar o mundo à minha volta,
gostar dos que me são queridos,
usar, da melhor maneira, aquilo, que julgo saber...
quinta-feira, junho 11, 2009
Trafic- Jacques Tati
Revejam e deliciem-se. Um "monumento"!
Olhar o mundo à minha volta,
gostar dos que me são queridos,
usar, da melhor maneira, aquilo, que julgo saber...
quarta-feira, junho 10, 2009
livros que não se lêem, cartas que não se escrevem...

Humildade
Tanto que fazer!
livros que não se lêem, cartas que não se escrevem,
línguas que não se aprendem,
amor que não se dá,
tudo quanto se esquece.
Amigos entre adeuses,
crianças chorando na tempestade,
cidadãos assinando papéis, papéis, papéis...
até o fim do mundo assinando papéis.
E os pássaros detrás de grades de chuva,
e os mortos em redoma de cânfora.
(E uma canção tão bela!)
Tanto que fazer!
E fizemos apenas isto.
E nunca soubemos quem éramos
nem para quê.
(Cecília Meireles- Inéditos)
Olhar o mundo à minha volta,
gostar dos que me são queridos,
usar, da melhor maneira, aquilo, que julgo saber...
segunda-feira, junho 08, 2009
Será alguém um dia...

Variação sobre o mesmo tema
Será alguém um dia
levado a pensar em mim
pelo cheiro de laranjeiras
quando eu também já for
«alguém há muito tempo»?
Shunzei (1114-1204) in Rosa do Mundo- 2001 Poemas para o Futuro
Olhar o mundo à minha volta,
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usar, da melhor maneira, aquilo, que julgo saber...
domingo, junho 07, 2009
Escrevi teu nome no vento- Carminho
Uma amiga que vai partir trouxe-me ontem este presente. Oiçam-no comigo.
Olhar o mundo à minha volta,
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usar, da melhor maneira, aquilo, que julgo saber...
Eu era eureka para aqueles olhos...
Aconteceu-me
Eu vinha de comprar fósforos
e uns olhos de mulher feita
olhos de menos idade que a sua
não deixavam acender-me o cigarro.
Eu era eureka para aqueles olhos.
Entre mim e ela passava gente como se não passasse
e ela não podia ficar parada
nem eu vê-la sumir-se.
Retive a sua silhueta
para não perder-me daqueles olhos que me levavam espetado.
E eu tenho visto olhos!
Mas nenhuns que me vissem
nenhuns para quem eu fosse um achado existir
para quem eu lhes acertasse lá na sua ideia
olhos como agulhas de despertar
como íman de atrair-me vivo
olhos para mim!
Quando havia mais luz
a luz tornava-me quase real o seu corpo
e apagavam-se-me os seus olhos
o mistério suspenso por um cabelo
pelo hábito deste real injusto
tinha de pôr mais distância entre ela e mim
para acender outra vez aqueles olhos
que talvez fossem como eu os vi
e ainda que não o fossem, que importa?
Vi o mistério!
Obrigado a ti mulher que não conheço.
(Almada Negreiros -Poemas)
Olhar o mundo à minha volta,
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quinta-feira, junho 04, 2009
Feito à imagem das aves o aparo

Canto do Aparo
Quando a minha mão, como as crianças,
era de uma estrela rósea as cinco pontas
eu louvava o estreito aparo de pena
que traçava os traços sinuosos da música
própria das esferas e das coisas.
Feito à imagem das aves o aparo
tinha o bico bífido, e os cantos
que a mão com ele soltava inscreviam-se
ao longo das linhas caligráficas.
Do tinteiro bebia o bico a cor
que escrevia o som de cada letra.
Filhos meus não sentiram depois
na sua mão também de astros
o afago deste gesto de pássaros,
mas uma noção nova obsessiva
do gasto e do poupar do Tempo
por um artefacto hábil
que em si entesourou a tinta.
Porém, ao lembrar o lento tempo,
não só relembro o meu aparo sereno,
como aquele que foi de Vânia, o Tio,
no silêncio raspando a sua angústia,
porque todos os contrários são unidos.
(Fiama Hasse Pais Brandão- Cantos do Canto)
Olhar o mundo à minha volta,
gostar dos que me são queridos,
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segunda-feira, junho 01, 2009
Por exemplo, o que é a saudade?
Não é fácil a arte de recordar, porque a recordação, no momento em que é preparada, pode modificar-se, enquanto a memória se limita a flutuar entre lembrança certa e lembrança errada. Por exemplo, o que é a saudade? É vir à recordação algo que está na memória. A saudade gera-se simplesmente pelo facto de se estar ausente. Arte seria conseguir sentir-se saudade sem se estar ausente. Para tanto é preciso estar-se treinado em matéria de ilusão. Viver numa ilusão, em que o crepúsculo é contínuo e nunca se faz dia, ou alguém ver-se reflectido numa ilusão, não é tão difícil como alguém reflectir-se para dentro de uma ilusão e ser capaz de deixá-la agir sobre si, com todo o poder que é o da ilusão, apesar de se ter pleno conhecimento disso. A magia de trazer até si o passado não é tão difícil como a de fazer desaparecer o que está presente em benefício da recordação. É aqui que reside no fundo a arte da recordação e a reflexão elevada à segunda potência.
(Kierkegaard- In vino veritas. Antígona)
(Kierkegaard- In vino veritas. Antígona)
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