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domingo, agosto 21, 2011

Será esta a situação de todas as artes?

 (Matisse)
Eu digo: « Gosto de Joseph Conrad.»E o meu amigo: « Eu, nem por isso.» Mas estaremos a falar do mesmo autor? Li dois romances de Conrad, o meu amigo leu um que não conheço. E, no entanto, cada um de nós, em toda a inocência (em toda a impertinência inocente), tem a certeza que forma uma ideia correcta sobre Conrad.
Será esta a situação de todas as artes? Não totalmente. Se eu dissesse a alguém que Matisse é um pintor de segunda ordem, bastaria que o meu interlocutor passasse um quarto de hora num museu para compreender que sou tolo. Mas como ler toda a obra de Conrad? Demoraria semanas! As diferentes artes acedem de forma diferente ao nosso cérebro; instalam-se com uma grande facilidade, uma velocidade diferente, um outro grau de inevitável simplificação; e com outra permanência. Todos nós falamos de história da literatura, reclamamo-nos dela, certos que a conhecemos, mas o que é in concreto a história da literatura da memória comum? Uma manta de retalhos feita de imagens fragmentárias que, por puro acaso, cada um dos milhares de leitores criou para si mesmo. Debaixo do céu retalhado desta memória vaporosa e ilusória, estamos à mercê de listas negras, dos seus vereditos arbitrários e inverificáveis, sempre prontos para imitar a sua estúpida elegância.

(Milan Kundera- Um encontro)


4 comentários:

  1. «Isto», disse. «Eu vejo uma árvore verde. E para mim é verde. E tu também dirias que a árvore é verde. Concordaríamos neste ponto. Mas será que a cor que tu vês como verde é a mesma cor que eu vejo como verde? Ou, digamos que ambas chamamos preto a uma cor. Mas como é que sabemos que o que tu vês como preto é a mesma cor que eu vejo como preto?»
    Passado um momento, Berenice disse: «Nós, pura e simplesmente, não podemos provar essas coisas.»

    Frankie e o casamento, de Carson McCullers. Cotovia, Setembro de 1995.


    ;)

    Jinhos.

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