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quinta-feira, agosto 02, 2007

JOAQUIM ou uma estória mal contada (VII)

(Salvador Dali)

Mas naquele fim de tarde, mais do que nunca, deixara-se envolver no calor dos sonhos e do crepitar das pinhas, tombando num espaço que se dilatara das recordações remotas a este presente que parecia só conseguir pulsar mecânicamente ao som do tic-tac do relógio antigo.
O brusco telefone trespassou o silêncio da casa. Vezes sem conta o olhara como uma espécie de cadáver que ainda não se atrevera a inumar mas que perdia diariamente as últimas potenciais possibilidades.
Dos longes, pelos natais apareciam somente os filhos que de visitas sempre mais súbitas e rápidas lhe diziam:
- pai, passo por aí amanhã;
- pai, queria que olhasse os cachopos;
- pai, a Mariana tem mesmo o castanho avelã dos teus olhos...Vais gostar de a ver...
As vozes que anunciavam a chegada traziam a Joaquim uma excitação quase insuportável.
Se a ideia do imenso e infinito abraço lhe trazia ao rosto o calor que se unia ao brilho dos olhos e à alegria da criança; a raiva, o pavor do encontro gorado, levavam-no a imaginar trancar-se todo por dentro, escondendo-se nos campos seus amigos ou cavando um imenso abrigo mesmo junto ao do seu deus.
E agora, quem seria? Levantara-se quase em desiquilíbrio, olhando do alto aquele som estridente que assimilara à dor cortante de um tiro. Contemplando a linha do tempo, recordou os telefonemas que fizera, instantes em que transpusera aquela membrana fina e difusa, atrevendo-se a tocar-lhe ao de leve.
A última vez fora há quase uma vida, mas voz e palavras tinham deixado incisões na pele da alma. Gostava de pensar que ela não o esquecera, de se imaginar envolvido por aquele corpo denso e macio que ainda lhe fazia sonhar o desejo. Gostava de sentir o desabar da “loucura”.
A dor intolerável levava-o a olhar o telefone sem conseguir dar o passo decisivo. Quase o odiava pela angústia que tomara de assalto todo aquele seu corpo. O não-acontecido confundia-se e misturava-se com a necessidade urgente de saber dela ( que raio de cabeça a dele que não se cansava de imaginar falar-lhe mais uma vez…Podiam vir dar-lhe a notícia, aquela cujo nome sempre evitara pronunciar..)
No recanto dos segredos o tempo parara. Podiam caminhar lado a lado, ambos sentindo o intervalo que nenhum se atrevia a percorrer, como um potente iman revertido. Cheiros de eucalipto e pinheiro misturavam-se à inviável frescura da pele. Se a imaginava caminhando na sua direcção via-se procurando o rápido abrigo. Ela era também a sereia que o conduziria ao naufrágio. Quanto mais lhe sentia a força mais se atemorizava com a possibilidade de poder acreditar. Ninguém o apanharia, menos ainda uma mulher. A ferida por sarar abrira um rasgão na sua existência ardendo a cada possibilidade de encontro. Se abrandasse a guarda das muralhas temia ficar como um errante sem porta. O lugar que o recebera oferecia-lhe a regularidade da certeza onde rotinas se diluíam na alteridade cíclica das estações, mas a estridente campainha não deixara de perfurar o silêncio da tarde ( quantas vezes a ouvira como parte integrante da história antiga, deixando-a tocar na casa desabitada). Desta vez era diferente, sem saber donde lhe vinha a certeza. Um murmúrio. Um breve murmúrio, como se ouvisse o pronunciar do seu nome. Foi então que, em câmara lenta, agarrou o auscultador no preciso momento em que o medo, que sempre ocupara o espaço da vida, lhe suspendeu, uma vez mais o movimento.
No ar giraram imperceptíveis e escassas palavras que logo se perderam da raíz, seguidas de um desligar seco do telefone.
Vestiu-se de imediato o corpo de Joaquim de uma raiva surda, como se o sangue o tivesse por completo abandonado. O tempo parara uma outra vez e a noite que desceu sobre ele e a casa, cobriu-os de um negro fundo e compacto, criando-se assim o puro lugar da ausência.
Não sabia como aquilo acontecera, que lei obscura o governara, agora que os filhos estavam criados, que se sentia mais e mais só, que esperava ser capaz de soltar palavras e gestos sempre amordaçados.
Deixara-se caír vestido sobre a cama sem permitir sequer que a luz o visse e, aconchegando-se no canto obscuro daquele coração desconhecido de si mesmo, deu-se, uma segunda vez, a lágrimas que julgara já por completo impossíveis. Sentia o pulsar das horas nos ouvidos num ritmo síncrono e sempre idêntico. Finalmente soluçava sem disciplina nem ordem, vertendo de uma só vez a dor toda da sua existência. O abalo da emoção que tão raramente lhe for a dado viver, restituía-lhe pouco a pouco o sentido, trazendo-lhe numa sequência contínua de sonhos a unidade perdida.

(este é um dos fins possíveis...Outros poderão ser escritos por quem a isso se dispuser)

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