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quinta-feira, agosto 02, 2007

JOAQUIM ou uma estória mal contada (VI)

(Noronha da Costa)
Quantas vezes partira em direcção à cidade sem saber o que buscava. Nessas alturas os sonhos à custa de tão amordaçados pressionavam os baús da alma corroendo ferragens e cadeados. Quase de olhos fechados vogava por avenidas, lugares, jardins envelhecidos…Tentava adivinhar nas manchas indistintas dos rostos, qual dentre eles se iluminaria, qual lhe diria a presença, aquela que um dia recusara, mas nunca, nunca esquecia. Assim nascia do papel o poema quando no cansaço da solidão se agarrava à cor de uns cabelos ou ao ângulo de um rosto. Estava ali, à distância de algumas passadas, o passado vivo e quente que lhe dizia que nada do que é verdadeiro morre.
De súbito o “presente” encaixava-se na tela antiga salpicada a estrelas e a reflexos de azul, reacendendo naquele seu corpo um maravilhoso ardor. E agora? Que rumo era aquele que a sua existência buscava? O sonho de um tempo nunca acontecido? A fugaz alegria que o tocara quando, quase menino, sentira a naturalidade com que rios de palavras circulavam de uma para a outra margem?
Quando a olhava o passo acelarava-se-lhe ao ritmo do bater desordenado do coração e no rubor de tempos idos sonhava tocar-lhe o ombro, removendo nesse preciso instante todas as muralhas que tempo e medo tinham construído. Seria ela? Sentia-se tomado por uma tão violenta imprudência que quase esquecia como o tempo, “esse escultor” fizera entretanto das suas. Aquela mais não era que o reflexo em espelho baço do sonho que só ganhara existência com a chegada do silêncio.
Era então que palavras saltavam inevitáveis para a folha verde-seca, cor desbotada do tempo, cor irmã desses tantos papeis amarelecidos e acarinhados. Ela habitava a cidade cinzenta que tivera de tomar como sua, os espaços desconhecidos povoados de aridez e de vazio, os longínquos lugares intactos e vigilantes.
Quando as palavras se uniam o poema nascia para lhe dizer a demanda que não conseguira apagar. Ela estava ali viva e distante, palpável e inacessível, jogando às escondidas com o tempo. Desaparecia quase por completo quando as rotinas preenchiam e destruíam os dias, quando o cheiro a morte e a dor empapou os espaços, quando se dizia de si para si que nunca lhe seria dado tocar-lhe, temendo nesse preciso instante pulverizar a miragem. Ela reacendia-se espontâneamente no inusitado instante desse seu presente que nunca desistira de esperar o encontro que se lhe partira tão cedo.(cont)

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