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quarta-feira, agosto 01, 2007

JOAQUIM ou uma estória mal contada (V)


Chegara a hora de reencontrar a casa. A cesta cheia de cavacas, a lenha bastante e seca, constituíam a imediata preocupação de Joaquim. Tinha de atear o fogo, recriando um envelope mágico que ao envolvê-lo lhe trouxesse a ilusão de presença ( era pena, pensava. estar assim por ali, sozinho, sem poder estender o cobertor macio por cima de outros joelhos que não só os seus)…Esta imagem brotara do crepitar das pinhas, quando a conversa à volta de Bachelard se lhe impusera.
Sempre a colocara enclausurada no inacessível, como paisagem de um país longínquo que apenas se conhece dos cartazes das agências de viagens. Era assim que tinha de ser. Ela, sempre ela ao longe. Como libertar-se de vez desta prisão que lhe forrara a alma e um dia lhe suspendera o tempo? Ela era o mar em que temera afundar-se, o azul brilhante e luminoso que o cegara, a pele fresca e densa que aflorara por instantes, mas a imperfeição também sua que não tolerava.
Alguém dissera um dia que o único amor que existe é o amor impossível. Estava tão certo desta verdade que vivia de rebuscar baús, caixas, esquifes, como quem procura conservar o longínquo raio de luz paralisando-o. Próximo da lareira deixava-se escorregar no tempo das tardes lendo folhas já desbotadas que guardavam cheiros, traços de mãos, restos de areia, conchas imaginadas…Saltava, quase sem dar por isso, de plataforma em plataforma, visitando ignotos lugares gravados em memórias só acordadas nesse seu corpo, cofre de desmedidos segredos. Madeiras antigas, miados misturados com choros calados de menino e a escassez tão radicalmente gravada que determinara todos os fundamentos da sua existência.
Vezes sem conta se perguntara que fazer desses achados. Acumulá-los tal coleccionador que se delicia contemplando prateleiras meticulosamente arrumadas e poeirentas ou ouvi-los como búzios que transportam sonhos e acordam esperanças?
Ao seguir a primeira rota sempre tinha mergulhado nessa espiral que penetrando na direcção do centro o aprisionara num trabalho infindável de reanimação de fósseis que o tempo, de caminho, se encarregara de modificar.
A segunda, conduzia-o ao maravilhoso e assustador imponderável cuja precursão telúrica tanto o atraía como aterrava. Empreender esta segunda viagem era também trocar as voltas ao destino, desdizer a impossibilidade, única morada que sempre conhecera.(cont)


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