quinta-feira, março 08, 2007

todos teníamos envidia de las mariposas...


(Dave Bruce Johnson)

La lengua de las mariposas (fragmento)

" El maestro aguardaba desde hacía tiempo que le enviaran un microscopio a los de la instrucción pública. Tanto nos hablaba de como se agrandaban las cosas menudas e invisibles por aquel aparato que los niños llegábamos a verlas de verdad, como si sus palabras entusiastas tuvieran un efecto de poderosas lentes.
-La lengua de la mariposa es una trompa enroscada como un resorte de reloj. Si hay una flor que la atrae, la desenrolla y la mete en el cáliz para chupar. Cuando lleváis el dedo humedecido a un tarro de azúcar ¿a que sienten ya el dulce en la boca como si la yema fuera la punta de la lengua? Pues así es la lengua de la mariposa.
Y entonces todos teníamos envidia de las mariposas. Que maravilla. Ir por el mundo volando, con esos trajes de fiesta, y parar en flores como tabernas con barriles llenos de jarabe.
(...)
Desde la cima del Sinaí no se veía el mar sino otro monte más grande todavía, con peñascos recortados como torres de una fortaleza inaccesible. Ahora recuerdo con una mezcla de asombro y nostalgia lo que tuve que hacer aquel día. Yo sólo, en la cima, sentado en silla de piedra, bajo las estrellas, mientras en el valle se movían como luciérnagas los que con candil andaban en mi búsqueda. Mi nombre cruzaba la noche cabalgando sobre los aullidos de los perros. No estaba sorprendido. Era como si atravesara la línea del miedo. "

Manuel Rivas

El Poder de la Palabra
www.epdlp.com
Barcelona - Nueva York

Novo modo de morte e nova dor...




Sempre a Razão vencida foi de Amor

Sempre a Razão vencida foi de Amor
Mas, porque assim o pedia o coração,
Quis Amor ser vencido da Razão.
Ora que caso pode haver maior!

Novo modo de morte e nova dor!
Estranheza de grande admiração,
Que perde suas forças a afeição,
Por que não perca a pena o seu rigor.

Pois nunca houve fraqueza no querer,
Mas antes muito mais se esforça assim
Um contrário com outro por vencer.

Mas a Razão, que a luta vence, enfim,
Não creio que é Razão; mas há-de ser
Inclinação que eu tenho contra mim.

(Luís Vaz de Camões)

quarta-feira, março 07, 2007

REFLEXOS DO OLHAR LXXII

(Aguarelas de Turner) Luz e cor

terça-feira, março 06, 2007

Ninguém me peça definições...

(Caillebotte)


Cântico Negro


"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces

Estendendo-me os braços, e seguros

De que seria bom que eu os ouvisse

Quando me dizem: "vem por aqui!"

Eu olho-os com olhos lassos,

(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)

E cruzo os braços,

E nunca vou por ali...



A minha glória é esta:

Criar desumanidade!

Não acompanhar ninguém.

- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade

Com que rasguei o ventre à minha mãe



Não, não vou por aí! Só vou por onde

Me levam meus próprios passos...



Se ao que busco saber nenhum de vós responde

Por que me repetis: "vem por aqui!"?



Prefiro escorregar nos becos lamacentos,

Redemoinhar aos ventos,

Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,

A ir por aí...



Se vim ao mundo, foi

Só para desflorar florestas virgens,

E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!

O mais que faço não vale nada.



Como, pois sereis vós

Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem

Para eu derrubar os meus obstáculos?...

Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,

E vós amais o que é fácil!

Eu amo o Longe e a Miragem,

Amo os abismos, as torrentes, os desertos...



Ide! Tendes estradas,

Tendes jardins, tendes canteiros,

Tendes pátria, tendes tectos,

E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...

Eu tenho a minha Loucura !

Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,

E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...



Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.

Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;

Mas eu, que nunca principio nem acabo,

Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.



Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!

Ninguém me peça definições!

Ninguém me diga: "vem por aqui"!

A minha vida é um vendaval que se soltou.

É uma onda que se alevantou.

É um átomo a mais que se animou...

Não sei por onde vou,

Não sei para onde vou

- Sei que não vou por aí!


(José Régio)

segunda-feira, março 05, 2007

ESCRITOR EXCELENTÍSSIMO



Quando Alface morreu, na súbita noite de quinta-feira, o Campo Pequeno continuava económico lá fóra e o tempo era favorável, caloroso, na comunidade de leitores que, devagar, o descobriam.
Os gregos chamavam "Kairos" ao momento oportuno, ao tempo distenso, aquele em que a vontade dos deuses e dos homens se encontra e o sujeito assume a absoluta figura do seu destino.(Assim era.)
Alface é um grande escritor, autor de uma prosa de uma liberdade extrema, e senhor de um virtuosismo idiomático ímpar.
Co-autor com Manuel da Silva Ramos, num singular jogo a quatro mãos, do infausto monumento à língua e ao carácter de um povo a que deram o título da trilogia TUGA ( Os Lusíadas, 1977, "As Noites Brancas do Papa Negro", 1982 e "Beijinhos", 1996). Homenagem e meditação ficcional ao "Portugal à solta" e atletismo subversivo sobre a pátria que ri, sobre a pátria que chora, como diriam os autores. Hip! Up!Heia!
A solo Alface publicou, em 1995,"Cuidado com os rapazes", que se seguirá, em 1999,"O Fim das Bichas",contos reunidos posteriormente em "A mais velha profissão do Mundo"(2006), em boa hora dedicado a Maria Antonieta; conta-se que ela, sob a guilhotina, foi acometida por um infindável ataque de riso, e a tal episódio deve a arte do conto a sua sobrevivência tenaz e felicidade. Escrever foi para Alface pôr a cabeça no cepo.
Alface é autor, ainda, de cinco histórias "juvenis" agrupadas sob o título de "Uma Família sem Mestre"(1997/2001).Em 2004 publica o romance "Cá vai Lisboa", comédia electrificada pelo humor, exemplo de literatura no seu melhor, longínqua do esquema académico e do reconhecimento pequeno-burguês.
Por detrás das suas sete dioptrias Alface topava-nos na nossa lusa alma de barata, com pessimismo, ironia e superior inteligência. Em resumo: "palavra festa brava".Alface escreveu, ainda, para jornais, publicidade, rádio, televisão e cinema sem nunca desvirtuar, no gosto da escrita, a liberdade que considerava ser a sua essência e justificação.
O João Carlos foi um homem livre e generoso. Era mordaz e, havia dias, um céptico quase pirrónico. Possuía um humor swiftiano, desconcertante lúcido e aristocrático.
Dançava.
Gostava muito do Alentejo, do Benfica, de ler. De ler por exemplo o Gombrowicz, o Maurice Pons, mas gostava também da Associação Pedrista de Montemor-o-Novo e da boa cozinha destas terras. Era ouvinte delicado.
Habitava-o uma humanidade que a inteligência não destruía. Talvez por isso não tenha acabado os cursos dedireito e psicologia, preferindo uma lateral "ars" de viver.
Aprendi muito com ele( Só não gostava apaixonadamente de gatos, algo que nos separava). Foi dos meus autores o mais leal, o mais justo. E nunca usou grandes sapatos no escritório. Tinha um narcisismo de vida e gostava de jantar em família, a sós, ou com o Carlos Campos, o Victor, o Bicker e muitos outos. O Alface tinha uma disponibilidade imensa e muitos amigos,e muitas amigas.
Ele faz-me muita falta. O Alface faz-nos muita falta.
E só não faz falta à literatura portuguesa porque escreveu depressa e partiu cedo, sem prosa algaliada a atranvancar a loja, pelo que os seus livros vão andar muito tempo por aí, numa luminosidade inconveniente.
O João Carlos, filho de médico que desprezava a medicina para uso próprio, foi um pai porreiro e as filhas dançam, pintam e são muito bonitas.
Por vezes desconcertava-nos em Veneza, no Carnaval, por um aparente desinteresse, um apartente fastio do sonho. Porém ficava bonito a caminhar no Lido, a caminhar em Veneza.
Na quinta-feira, na súbita noite em que Maria João(Seixas) e mais trinta pessoas liam amorosamente o seu romance "Cá Vai Lisboa", ficou durável em um raio trágico o verso de Salvadore Quasimodo: "A vida é apenas um jogo de sangue/ onde a morte está em flor". Na casa de Benfica vou pedir à Gina Frazão para pormos bem alto o velho vinil de Vírginia Astley e talvez o Alface possa voltar a ser o rapaz do trapézio voador na certeza de que a recordação é o mais seguro terreno do amor.
Editor & Cúmplice

(Vasco Santos.Editor da Fenda)Publicado no Jornal "O Público" de 5/03/07

domingo, março 04, 2007

REFLEXOS DO OLHAR LXXI

(Aguarelas de Turner)

UM DOMINGO COM ANTONIO NAMONEDA


(Leighton)
AMOR

Mi manera de amarte es sencilla:

te aprieto a mí

como si hubiera un poco de justicia en mi corazón

y yo te la pudiese dar con el cuerpo.



Cuando revuelvo tus cabellos

algo hermoso se forma entre mis manos.



Y casi no sé más. Yo sólo aspiro

a estar contigo en paz y a estar en paz

con un deber desconocido

que a veces pesa también en mi corazón.


(Antonio Namoneda)

sábado, março 03, 2007

as coisas...cegas e estranhamente sigilosas...


(E.Manet)

AS COISAS

A bengala, as moedas, o chaveiro,
A dócil fechadura, as tardias
Notas que não lerão os poucos dias
Que me restam, os naipes e o tabuleiro,
Um livro e em suas páginas a ofendida
Violeta, monumento de uma tarde,
De certo inesquecível e já esquecida,
O rubro espelho ocidental em que arde
Uma ilusória aurora. Quantas coisas,
Limas, umbrais, atlas e taças, cravos,
Nos servem como tácitos escravos,
Cegas e estranhamente sigilosas!
Durarão muito além de nosso olvido:
E nunca saberão que havemos ido.

(Jorge Luís Borges)Tradução de Ferreira Gullar

sexta-feira, março 02, 2007

A tirania exerce-se no âmago do indivíduo...


(Bacon)

(...)
Em vez da piedade, o que o autor do Elogio da Sinceridade reforça é a ideia que os homens vivem em comum para conseguirem a confiança mútua, devendo, afirma, dar a verdade uns aos outros.Mas, em vez disso, que fazem eles? Vivem escravos da necessidade de disfarçarem os sentimentos. Por conseguinte, a tirania exerce-se no âmago do indivíduo, quer dizer, transforma cada um em émulo de Naarciso, iludindo a sinceridade enquanto virtude básica da vida em comunidade. É deste modo que nos tornamos complacentes e fazemos disso um sistema de vida. Neste engano generalizado, onde se assume a baixeza e o fingimento como virtudes, enganamo-nos e felicitamo-nos, sob o pretexto de que isso é que todos fazem. Ao dizer que o exercício da sinceridade exige uma reinvenção da amizade, Montesquieu propõe uma reinvenção da ética, como se a liberdade ve a verdade residissem inteiras na força da sinceridade. A existir um eco qualquer na nossa vida, que seja um abrir do coração, e não uma aborrecida e monótona repetição do nosso narcisismo.

(José Manuel Heleno- "Abrir o coração"-posfácio do "Elogio da Sinceridade"-Montesquieu-ed.Fenda)

quinta-feira, março 01, 2007

C'est un rayon mouillé ... (post nº 400)








(Ingres)


Chacun en sa beauté...
Chacun en sa beauté vante ce qui le touche,
L'amant voit des attraits où n'en voit point l'époux ;
Mais que d'autres, narguant les sarcasmes jaloux,
Vantent un poil follet au-dessus d'une bouche ;

D'autres, sur des seins blancs un point comme une mouche ;
D'autres, des cils bien noirs à des yeux bleus bien doux,
Ou sur un cou de lait des cheveux d'un blond roux ;
Moi, j'aime en deux beaux yeux un sourire un peu louche :

C'est un rayon mouillé ; c'est un soleil dans l'eau,
Qui nage au gré du vent dont frémit le bouleau ;
C'est un reflet de lune aux rebords d'un nuage ;


C'est un pilote en mer, par un ciel obscurci,
Qui s'égare, se trouble, et demande merci,
Et voudrait quelque dieu, protecteur du voyage.

(Charles Sainte-Beuve)