quinta-feira, março 09, 2006

São como sedas pálidas a arder...





Os versos que te fiz

Deixe dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer !
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.

Tem dolencia de veludo caros,
São como sedas pálidas a arder...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer !

Mas, meu Amor, eu não te digo ainda...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz !

Amo-te tanto ! E nunca te beijei...
E nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz.

Florbela Espanca

quarta-feira, março 08, 2006

Ai, doce pensamento meu...




AI, DOCE pensamento meu,
quando me levarás onde te envio eu!

Romancero general ( Anónimo-início sec XVII)

terça-feira, março 07, 2006

Deita sumo de lua e de laranja...





Paraíso

Deixa ficar comigo a madrugada,

para que a luz do Sol me não constranja.

Numa taça de sombra estilhaçada,

deita sumo de lua e de laranja.

Arranja uma pianola, um disco, um posto,

onde eu ouça o estertor de uma gaivota...

Crepite, em derredor, o mar de Agosto...

E o outro cheiro, o teu, à minha volta!

Depois, podes partir. Só te aconselho

que acendas, para tudo ser perfeito,

à cabeceira a luz do teu joelho,

entre os lençóis o lume do teu peito...

Podes partir. De nada mais preciso

para a minha ilusão do Paraíso.


David Mourão-Ferreira

segunda-feira, março 06, 2006

Maneiras de dizer o sempre...




nó cego, indesatável
do sentido do tempo, densidades
lembradas, contraditas
apenas ténues

maneiras de dizer o sempre,
o obscuro rigor do coração,
sua ladeira de lágrimas e lama,
escuramente: a perdição de amor.


não rasgues essa amálgama, não a
deixes intacta, perturba-a
partilhando-a enquanto
sombra, raiz, nó cego.


nem há distância, a pura construção mental:
o tempo transparece, inexplicável.


Vasco Graça Moura (nó cego,o regresso-1982)

domingo, março 05, 2006

Uma pequenina luz



Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumière
just a little light
una picolla...em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
aqui no meio de nós
entre o bafo quente da multidão
a ventania dos cerros e a brisa dos mares
e o sopro azedo dos que a não vêem
só a adivinham e raivosamente assopram.
Uma pequena luz
que vacila exacta
que bruxuleia firme
que não ilumina apenas brilha.
Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.
Muda como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Brilhando indefectível.
Silenciosa não crepita
não consome não custa dinheiro.
Não é ela que custa dinheiro.
Não aquece também os que de frio se juntam.
Não ilumina também os rostos que se curvam.
Apenas brilha bruxuleia ondeia
indefectível próxima dourada.
Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha
Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.
Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva:
[brilha.
Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não:
brilha.
Uma pequenina luz bruxuleante e muda
com a exactidão como a firmeza
como a justiça
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância.Aqui
no meio de nós.
Brilha.

Jorge de Sena ( Fidelidade-1958)

UM DOMINGO COM JORGE DE SENA



« DA VIDA...NÃO FALES NELA,...»


Da vida... não fales dela,
quando o ritmo pressentes,
Não fales dela que a mentes.


Se os teus olhos se demoram
em coisas que nada são,
se os pensamentos se enfloram
em torno delas e não
em torno de não saber
da vida...Não fales dela.


Quando saibas de viver
nesse olhar se te congela.
E só a dança é que dança,
quando o ritmo pressentes.


Se, firme, o ritmo avnça,
é dócil a vida, e mansa...
Não fales nela, que a mentes.


Jorge de Sena ( Trinta Anos de Poesia)

sábado, março 04, 2006

Vem dos montes friíssimos da Noruega...



ACENTO

Vem dos montes friíssimos da Noruega
onde te sonhei para beberes estrelas
e caminhar a custo entre cascatas
onde a ternura é um escadote
e o ar um caracol de planetas nas órbitas.


António Maria Lisboa (Poesia)

sexta-feira, março 03, 2006

O orvalho não a toca...




A ROSA MUTÁVEL


Quando se abre na manhã,
rubra como sangue está.
O orvalho não a toca
com medo de se queimar.
Aberta à luz do meio-dia
é dura como um coral.
O sol assoma nos vidros
só para a ver fulgurar.
Quando nos ramos começam
os pássaros a cantar,
e quando a tarde desmaia
nas violetas do mar,
torna-se branca, tão branca
como uma face de sal.
E logo que a noite toca
brando corno de metal
e as estrelas avançam
enquanto se esconde o ar,
no risco fino da sombra, começa-se a desfolhar.


( Trinta e seis poemas e uma aleluia erótica- Federico Garcia Lorca

quinta-feira, março 02, 2006

O poema ensina a cair




O POEMA ENSINA A CAIR


O poema ensina a cair
sobre vários solos
desde perder o chão repentino sob os pés
como se perde os sentidos numa
queda de amor, ao encontro
do cabo onde a terra abate e
a fecunda ausência excede


até à queda vinda
na lenta volúpia de cair
quando a face atinge o solo
numa curva delgada subtil
uma vénia a ninguém de especial
ou especialmente a nós uma homenagem
póstuma.


Luiza Neto Jorge ( O Seu a Seu Tempo)

quarta-feira, março 01, 2006

Viver é arriscar-se



VIVER É ARRISCAR-SE

Rir é arriscar-se a parecer doido...

Chorar é arriscar-se a parecer sentimental...

Estender a mão é arriscar-se a comprometer-se...

Mostrar os seus sentimentos é arriscar-se a se expor...

Dar a conhecer as suas ideias, os seus sonhos, é arriscar-se a ser rejeitado...

Amar é arriscar-se a não ser retribuído no amor...

Viver é arriscar-se a morrer...

Esperar é arriscar-se a desesperar...

Tentar é arriscar-se a falhar...

Mas devemos nos arriscar!

O maior perigo na vida está em não arriscar.

Aquele que não arrisca nada...

Não faz nada...

Não tem nada...

Não é nada...

Rudyard Kipling