domingo, outubro 16, 2016

Uma pequena explicação.



Uma pequena explicação 

Já vão largos meses em interrompi a segunda fase de publicação de " Aguarelas de Turner". Coincidiu com um período em que estive adoentada e sem disponibilidade para publicar. Sempre pensei que, apesar do intervalo, retomaria, pelo que deixei o blog " em aberto".
Os meses foram passando, sem que tivesse vontade de o fazer. A verdade é que no passado este espaço teve um sentido e um valor que hoje já não é válido. 
Chegou o momento de pôr um ponto final definitivo, agradecendo a simpatia de todos aqueles que algum dia passaram por aqui, com um grande abraço.



sábado, fevereiro 27, 2016

Cresce em mim como um distúrbio da paixão...

                                        
Addiragram

A Minha Saudade Tem o Mar Aprisionado

A minha saudade tem o mar aprisionado
na sua teia de datas e lugares.
É uma matéria vibrátil e nostálgica
que não consigo tocar sem receio,
porque queima os dedos,
porque fere os lábios,
porque dilacera os olhos.
E não me venham dizer que é inocente,
passiva e benigna porque não posso acreditar.
A minha saudade tem mulheres
agarradas ao pescoço dos que partem,
crianças a brincarem nos passeios,
amantes ocultando-se nas sebes,
soldados execrando guerras.
Pode ser uma casa ou uma rede
das que não prendem pássaros nem peixes,
das que têm malhas largas
para deixar passar o vento e a pressa
das ondas no corpo da areia.
Seria hipócrita se dissesse
que esta saudade não me vem à boca
com o sabor a fogo das coisas incumpridas.
Imagino-a distante e extinta, e contudo
cresce em mim como um distúrbio da paixão.

José Jorge Letria, in "A Metade Iluminada e Outros Poemas"

domingo, fevereiro 14, 2016

Tira-me o pão, se quiseres...




Addiragram
O Teu Riso

Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas
não me tires o teu riso.

Não me tires a rosa,
a flor de espiga que desfias,
a água que de súbito
jorra na tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.

A minha luta é dura e regresso
por vezes com os olhos
cansados de terem visto
a terra que não muda,
mas quando o teu riso entra
sobe ao céu à minha procura
e abre-me todas
as portas da vida.

Meu amor, na hora
mais obscura desfia
o teu riso, e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso será para as minhas mãos
como uma espada fresca.

Perto do mar no outono,
o teu riso deve erguer
a sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero o teu riso como
a flor que eu esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.

Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
curvas da ilha,
ri-te deste rapaz
desajeitado que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando os meus passos se forem,
quando os meus passos voltarem,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas o teu riso nunca
porque sem ele morreria. 



Pablo Neruda, in "Poemas de Amor de Pablo Neruda

terça-feira, fevereiro 09, 2016

Dar definição é dizer a última palavra sobre o assunto...

Addiragram
 
Direito, esquerdo e algumas definições


- mas voltemos às questões importantes.
- O importante ...quer uma definição? Aquilo a que dou atenção, eis o importante. Quer outra definição?
- Sim, Excelência.
- A definição de definição. Definição significa de- finir. Finir, acabar. Dar uma definição é dizer a última palavra sobre o assunto .
- É, pois, terminar a conversa.
- Exacto. Conversa finita com a definição .
- Quem define diz ao outro: nada mais tens a dizer sobre este assunto, pois acabei de dizer a última e definitiva palavra sobre a questão.
- Uma conversa entre surdos é uma conversa em que os dois trocam definições.
- Uma definição é definitiva, eis uma redundância bem redonda, se assim me posso exprimir.
- E etc.e etc.e tal.
- Muito bem, Vossa Excelência está a ver bem o assunto.
- Seria interessante pensar em definições que iniciam a conversa.
- Uma definição inicial, inaugural. Uma de-iniciação.
- Ou uma pré- definição. Uma não- definição. E assim sucessivamente.
- Bem...como eu estava a dizer: gosto de um pé que não se preocupa apenas em avançar. Gosto de um pé que descobre o caminho..que cada vez que toca o chão abre uma nova hipótese. Um pé que afasta a floresta para os lados e que faz uma estrada à medida que avança, uma estrada humana.
-...para mim, os pés são um assunto menor, um assunto, como dizer...
- É essa a grande função do pé, fazer uma estrada humana no meio da floresta desumana...floresta animalesca e até botânica !
- E até!
- Que a floresta, no fundo, se reparar bem, é botânica selvagem.
- Uma floresta botânica, que surpreendente! Mas falava do pé, não continua?
-...um jardim botânico é compreensível, mas uma floresta botânica...Uma floresta mansa, digamos, eis o que surpreende.
- E o pé, é o pé?
- porque à floresta associamos terríveis animais carnívoros capazes de nos arrancar a cabeça com uma dentada involuntária. Com uma dentada mansa...
-Os animais selvagens são capazes de nos engolir com um apetite manso, um apetite tranquilo, muito bem!
- Eles são selvagens e cruéis de uma forma natural. Sem esforço, Excelência.
-Praticam a crueldade como quem pratica  fitness ao domingo. São mais, cruéis para manter a forma, para não ganhar barriga...para não se aburguesarem, no fundo. A crueldade animalesca como actividade de laser.
- Pois bem, sim, mas voltemos aos pés.
- Ok.
-... o que me interessa agora é pensar como é que alguém , só com um pé, abre caminho humano para os dois lados, o esquerdo e o direito...
- ...no fundo, é uma questão de lateralidade.
- Sim, mas estou a pensar em alguémque atravessa a floresta ao pé - cochicho.
- Ao pé -cochicho?
- Sim...é difícil pensarmos no lado esquerdo e direito de um pé, poisestamos habituados a pensar em pé direito e pé esquerdo, os dois juntos..
- Isso.
-... o que está ao lado direitodo pé direito e o que está ao lado esquerdo do pé esquerdo...Se pensarmos num único pé, por exemplo no pé esquerdo..se for assim, o lado esquerdo da floresta está do lado esquerdo do pé esquerdo, tal é normal...agora , já é muito estranho pensarmos que o lado direito da floresta está à direita desse pé esquerdo. Porque o lado direito da floresta costuma estar do lado direitodo pé direito. Percebe o problema de quem anda na floresta só com um pé?
-Percebo, embora um desenho ajudasse...De qualquer maneira, o problema que põe é muito relevante, sem dúvida, mas estou atrasado. Vou comprar sapatos.
- Sapatos?
- Dois.
- Aperto-lhe a mão com extrema reverência e digo adeus a Vossa Excelência. Vou para o lado direito do pé direito.
- Muito bem. É uma boa hipótese, sem dúvida!
Adeus, meu caro.

Gonçalo M. Tavares - O torcicologologista, excelência.

terça-feira, fevereiro 02, 2016

Para recitar antes de adormecer...



Addiragram
Eu queria cantar para dentro de alguém,
sentar-me junto de alguém e estar aí.
Eu queria embalar-te e cantar-te mansamente
e acompanhar-te ao despertares e ao adormeceres.
Queria ser o único na casa
a saber: a noite estava fria.
E queria escutar dentro e fora
de ti, do mundo, da floresta.
Os relógios chamam-se anunciando as horas
e vê-se o fundo o tempo.
E em baixo ainda passa um estranho
e acirra um cão desconhecido.
Depois regressa o silêncio. Os meus olhos,
muito abertos, pousaram em ti;
e prendem-te docemente e libertam-te
quando algo se move na escuridão.
Rainer Maria Rilke

terça-feira, janeiro 26, 2016

Estas coisas são materialmente impossíveis de serem ditas...

Addiragram

As Coisas Secretas da Alma


Em todas as almas há coisas secretas cujo segredo é guardado até à morte delas. E são guardadas, mesmo nos momentos mais sinceros, quando nos abismos nos expomos, todos doloridos, num lance de angústia, em face dos amigos mais queridos - porque as palavras que as poderiam traduzir seriam ridículas, mesquinhas, incompreensíveis ao mais perspicaz. Estas coisas são materialmente impossíveis de serem ditas. A própria Natureza as encerrou - não permitindo que a garganta humana pudesse arranjar sons para as exprimir - apenas sons para as caricaturar. E como essas ideias-entranha são as coisas que mais estimamos, falta-nos sempre a coragem de as caricaturar. Daqui os «isolados» que todos nós, os homens, somos. Duas almas que se compreendam inteiramente, que se conheçam, que saibam mutuamente tudo quanto nelas vive - não existem. Nem poderiam existir. No dia em que se compreendessem totalmente - ó ideal dos amorosos! - eu tenho a certeza que se fundiriam numa só. E os corpos morreriam.
Mário de Sá-Carneiro, in 'Cartas a Fernando Pessoa'

domingo, janeiro 17, 2016

O meu amor tem duas vidas para amar-te...


Addiragram
                                  

 Para não deixar de amar-te nunca..

Saberás que não te amo e que te amo
pois que de dois modos é a vida,
a palavra é uma asa do silêncio,
o fogo tem a sua metade de frio.

Amo-te para começar a amar-te,
para recomeçar o infinito
e para não deixar de amar-te nunca:
por isso não te amo ainda.

Amo-te e não te amo como se tivesse
nas minhas mãos a chave da felicidade
e um incerto destino infeliz.

O meu amor tem duas vidas para amar-te.
Por isso te amo quando não te amo
e por isso te amo quando te amo.


Pablo Neruda in " Cem Sonetos de Amor"
            

segunda-feira, janeiro 11, 2016

A sabedoria do romance é difícil de aceitar e compreender...

Addiragram

A Sabedoria do Romance


O homem deseja um mundo em que o bem e o mal sejam nitidamente discerníveis, porque nele há o desejo, inato e indomável, de julgar antes de compreender. Sobre esse desejo são fundadas as religiões e as ideologias. Estas não se podem conciliar com o romance a não ser que traduzam a linguagem de relatividade e de ambiguidade dele para o seu discurso apodítico e dogmático. Exigem que alguém tenha razão: ou Anna Karenina é vítima de um déspota limitado, ou Karenine é vítima de uma mulher imoral; ou então K., inocente, é esmagado por um tribunal injusto, ou então, por trás do tribunal, está escondida a justiça divina e K. é culpado.
Neste «ou então-ou então» está contida a incapacidade de suportar a relatividade essencial das coisas humanas, a incapacidade de olhar de frente a ausência do Juiz supremo. Por causa desta incapacidade, a sabedoria do romance (a sabedoria da incerteza) é difícil de aceitar e de compreender.

Milan Kundera, in "A Arte do Romance"

quinta-feira, dezembro 31, 2015

São as formas sem forma que passam sem que a dor as possa conhecer...

Addiragram

O que me dói não é...

O que me dói não é
O que há no coração
Mas essas coisas lindas
Que nunca existirão...

São as formas sem forma
Que passam sem que a dor
As possa conhecer
Ou as sonhar o amor.

São como se a tristeza
Fosse árvore e, uma a uma,
Caíssem suas folhas
Entre o vestígio e a bruma.

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"


domingo, dezembro 27, 2015

Ah! Elas às vezes bolem...

Addiragram

Crónica de Natal


Todos os anos, por esta altura, quando me pedem que escreva alguma coisa sobre o Natal, reajo de mau modo. «Outra vez, uma história de Natal! Que chatice!» — digo. As pessoas ficam muito chocadas quando eu falo assim. Acham que abuso dos direitos que me são conferidos. Os meus direitos são falar bem, assim como para outros não falar mal. Uma vez, em Paris, um chauffeur de táxi, desses que se fazem castiços e dizem palavrões para corresponder à fama que têm, aborreceu-me tanto que lhe respondi com palavrões. Ditos em francês, a mim não me impressionavam, mas ele levou muito a mal e ficou amuado. Como se eu pisasse um terreno que não era o meu e cometesse um abuso. Ele era malcriado mas eu - eu era injusta. Cada situação tem a sua justiça própria, é isto é duma complexidade que o código civil não alcança.
Mas dizia eu: «Outra vez o Natal, e toda essa boa vontade de encomenda!» Ponho-me a percorrer as imagens que são de praxe, anjos trombeteiros, pastores com capotes de burel e meninos pobres do tempo da Revolução Industrial inglesa. Pobres e explorados, mas, entretanto, não excluídos do trato social através dos seus conflitos próprios, como se pode observar nos livros de Dickens. Actualmente as crianças estão mais isoladas dum processo de libertação adequada à sua normalidade. Não há qualquer lógica entre o pensamento que elas sugerem e a acção que lhes é imposta. Mas isto são considerações de Natal? Confessem que preferem uma história, uma coisa leve, talvez um pouco insensata e graciosa. Pois bem, falemos de pastores.

Um amigo meu passou uns dias na serra da Estrela para se curar duma depressão, uma dessas doenças que são produzidas pela sociedade burocrática onde todos se destroem em boa paz. Cuidou ele que a solidão e a vida rude o haviam de transformar. Mas o sofrimento, que não é disciplina nem necessidade, torna-se em crítica mesquinha. Ele andava pelos montes, com ar de censura e escândalo, perguntando às pessoas como podiam viver sem ir ao teatro e sem comer costelas panadas. Alumiando-se com azeite e deitando-se ao sol-pôr para não o gastar. Sobressaltava-o muito aquela imobilidade da serra com os rebanhos que pareciam pedras e os pastores com o cão de pêlo assanhado. Sentava-se ao lado deles e travava conversa.
— Olhe lá: você nunca sai daqui? — perguntava. E o pastor respondia:
— Eu, não senhor.
— E então, não se aborrece?
— Eu, não senhor — tornava o homem.
— Mas não se aborrece mesmo, sempre sozinho, a ver só ovelhas, aqui no cimo da serra? — insistia o meu amigo.
Então o pastor, apertado naquele inquérito, fez um esforço para compreender a desordem que provocava no espírito do homem da cidade, e disse, apontando, com um ligeiro movimento do queixo, as ovelhas:
— Ah! Elas às vezes bolem...
Queria desculpar-se, se o conseguiu ou não, não sei. O meu amigo não andou muito tempo por lá. Deu um jeito a um tornozelo e tiveram que o levar de padiola até à localidade, onde arranjou melhor transporte para o hospital. Disse daquilo cobras e lagartos. Também é preciso ver que não era homem para grandes descobertas. Até acha que as descobertas foram um erro histórico. Mas que tem o Natal a ver com isto? – direis. Descubram.

Agustina Bessa-Luís, in 'Crónica da Manhã, 06 Dez 1978'


sábado, dezembro 05, 2015

O que não daria eu...

Addiragram

Elegia da Lembrança Impossível

O que não daria eu pela memória 
De uma rua de terra com baixos taipais 
E de um alto ginete enchendo a alba 
(Com o poncho grande e coçado) 
Num dos dias da planície, 
Num dia sem data. 
O que não daria eu pela memória 
Da minha mãe a olhar a manhã 
Na fazenda de Santa Irene, 
Sem saber que o seu nome ia ser Borges. 
O que não daria eu pela memória 
De ter lutado em Cepeda 
E de ter visto Estanislao del Campo 
Saudando a primeira bala 
Com a alegria da coragem. 
O que não daria eu pela memória 
Dos barcos de Hengisto, 
Zarpando do areal da Dinamarca 
Para devastar uma ilha 
Que ainda não era a Inglaterra. 
O que não daria eu pela memória 
(Tive-a e já a perdi) 
De uma tela de ouro de Turner, 
Tão vasta como a música. 
O que não daria eu pela memória 
De ter sido um ouvinte daquele Sócrates 
Que, na tarde da cicuta, 
Examinou serenamente o problema 
Da imortalidade, 
Alternando os mitos e as razões 
Enquanto a morte azul ia subindo 
Dos seus pés já tão frios. 
O que não daria eu pela memória 
De que tu me dissesses que me amavas 
E de não ter dormido até à aurora, 
Dissoluto e feliz. 

Jorge Luis Borges, in "A Moeda de Ferro" 

segunda-feira, novembro 30, 2015

Tudo é orgulho e inconsciência..



Addiragram
      


A Guerra

A guerra que aflige com os seus esquadrões o Mundo,
É o tipo perfeito do erro da filosofia.

A guerra, como todo humano, quer alterar.
Mas a guerra, mais do que tudo, quer alterar e alterar muito
E alterar depressa.

Mas a guerra inflige a morte.
E a morte é o desprezo do Universo por nós.
Tendo por conseqüência a morte, a guerra prova que é falsa.
Sendo falsa, prova que é falso todo o querer alterar.

Deixemos o universo exterior e os outros homens onde a Natureza os pôs.

Tudo é orgulho e inconsciência.
Tudo é querer mexer-se, fazer cousas, deixar rasto.
Para o coração e o comandante dos esquadrões
Regressa aos bocados o universo exterior.

A química direta da Natureza
Não deixa lugar vago para o pensamento.

A humanidade é uma revolta de escravos.
A humanidade é um governo usurpado pelo povo. 

Existe porque usurpou, mas erra porque usurpar é não ter direito.

Deixai existir o mundo exterior e a humanidade natural!
Paz a todas as cousas pré-humanas, mesmo no homem!
Paz à essência inteiramente exterior do Universo!


Alberto Caeiro

domingo, novembro 22, 2015

...a verdade é a coisa mais poética do mundo...

Addiragram

A Verdade Está à Frente do Nosso Nariz

Nós já esquecemos completamente o axioma de que que a verdade é a coisa mais poética no mundo, especialmente no seu estado puro. Mais do que isso: é ainda mais fantástica que aquilo que a mente humana é capaz de fabricar ou conceber... de facto, os homens conseguiram finalmente ser bem sucedidos em converter tudo o que a mente humana é capaz de mentir e acreditar em algo mais compreensível que a verdade, e é isso que prevalece por todo o mundo. Durante séculos a verdade irá continuar à frente do nariz das pessoas mas estas não a tomarão: irão persegui-la através da fabricação, precisamente porque procuram algo fantástico e utópico.

Fiodor Dostoievski, in 'Diário de um Escitor'

sábado, novembro 14, 2015

Com todos os franceses que sofrem..


domingo, novembro 08, 2015

Sabe o significado desta palavra branca?

Addiragram

Saudade
Saudade - O que será... não sei... procurei sabê-lo 
em dicionários antigos e poeirentos 
e noutros livros onde não achei o sentido 
desta doce palavra de perfis ambíguos. 

Dizem que azuis são as montanhas como ela, 
que nela se obscurecem os amores longínquos, 
e um bom e nobre amigo meu (e das estrelas) 
a nomeia num tremor de cabelos e mãos. 

Hoje em Eça de Queiroz sem cuidar a descubro, 
seu segredo se evade, sua doçura me obceca 
como uma mariposa de estranho e fino corpo 
sempre longe - tão longe! - de minhas redes tranquilas. 

Saudade... Oiça, vizinho, sabe o significado 
desta palavra branca que se evade como um peixe? 
Não... e me treme na boca seu tremor delicado... 
Saudade... 

Pablo Neruda

quinta-feira, outubro 29, 2015

Elas não conhecem ainda os dois inimigos da alma...


 

 ( Foto Addiragram)

Em Louvor das Crianças

Se há na terra um reino que nos seja familiar e ao mesmo tempo estranho, fechado nos seus limites e simultaneamente sem fronteiras, esse reino é o da infância. A esse país inocente, donde se é expulso sempre demasiado cedo, apenas se regressa em momentos privilegiados — a tais regressos se chama, às vezes, poesia. Essa espécie de terra mítica é habitada por seres de uma tão grande formosura que os anjos tiveram neles o seu modelo, e foi às crianças, como todos sabem pelos evangelhos, que foi prometido o Paraíso. 
A sedução das crianças provém, antes de mais, da sua proximidade com os animais — a sua relação com o mundo não é a da utilidade, mas a do prazer. Elas não conhecem ainda os dois grandes inimigos da alma, que são, como disse Saint-Exupéry, o dinheiro e a vaidade. Estas frágeis criaturas, as únicas desde a origem destinadas à imortalidade, são também as mais vulneráveis — elas têm o peito aberto às maravilhas do mundo, mas estão sem defesa para a bestialidade humana que, apesar de tanta tecnologia de ponta, não diminui nem se extingue. 
O sofrimento de uma criança é de uma ordem tão monstruosa que, frequentemente, é usado como argumento para a negação da bondade divina. Não, não há salvação para quem faça sofrer uma criança, que isto se grave indelevelmente nos vossos espíritos. O simples facto de consentirmos que milhões e milhões de crianças padeçam fome, e reguem com as suas lágrimas a terra onde terão ainda de lutar um dia pela justiça e pela liberdade, prova bem que não somos filhos de Deus. 

Eugénio de Andrade, in 'Rosto Precário' 

sexta-feira, outubro 23, 2015

O solitário gesto de viver...

Addiragram

A Coragem no Gesto de Viver

solitário gesto de viver 
não demanda a coragem que há na faca, 
na ponta do punhal e até no grito 
de quem fala mais alto e está coberto 
de razões, de certezas, de verdades. 
O gesto de viver se oculta em dobras 
tão íntimas do ser, que o desfazê-las 
é mais que indelicado, é violência 
que nem sequer se pode conceber. 
O gesto de viver é só coragem, 
mas, de tal forma próprio e incomparável, 
que não se exprime em verbo, imagem, mímica 
ou qualquer outra forma conhecida 
de contar, definir ou explicar. 
A coragem no gesto de viver 
está em coisas simples, por exemplo, 
na diária decisão de levantar. 
E mais, em se vestir e trabalhar 
por entre espadas, punhos e navalhas, 
peito aberto, sem armas, passo firme, 
e à noite, ainda intacto, regressar. 


Reynaldo Valinho Alvarez, in 'O Solitário Gesto de Viver' 



domingo, outubro 18, 2015

Parece-vos que se pode dizer mais ?

Addiragram

Não se Diz ao Triste que se Alegre


Pouco sabe da tristeza quem, sem remédio para ela, diz ao triste que se alegre; pois não vê que alheios contentamentos a um coração descontente, não lhe remediando o que sente, lhe dobram o que padece. Vós, se vem à mão, esperáreis de mim palavrinhas joeiradas, enforcadas de bons propósitos. Pois desenganai-vos, que, desde que professei tristeza, nunca mais soube jogar a outro fito. E, porque não digais que sou gente fora do meu bairro, vedes, vai uma volta feita a este mote, que escolhi na manada dos enjeitados; e cuido que não é tão dedo queimado que não seja dos que el-rei mandou chamar; o qual fala assim:

Não quero e não quero jubão amarelo.

Se de negro for
também me parece
quanto me aborrece
toda a alegre cor:
cor que mostra dor,
quero e não quero jubão amarelo.

Parece-vos que se pode dizer mais ? Não me respondais: «Quem gabará a noiva?» Porque assentai que foi comendo e fazendo, ou assoprando, que não é tão pequena habilidade. E, porque vos não pareça que foi mais acertar que querê-lo fazer, vedes, vai outra do mesmo jaez, contanto que se não vá a pasmar:


Perdigão perdeu a pena,
não há mal que lhe não venha.

Em um mal outro começa,
que nunca vem só nenhum;
e o triste que tem um
a sofrer outro se ofereça;
e só pelo ver, conheça
que basta um só que tenha
para que outro lhe venha.


Luís Vaz de Camões, in "Cartas"

terça-feira, outubro 13, 2015

Como um adolescente tropeço de ternura...


 
 
Addiragram
 
Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti.
 
Alexandre O´Neill

segunda-feira, outubro 12, 2015

Educação para a Independência do Pensamento...

Addiragram

O rumo que a Educação e o ensino têm seguido não é seguramente estranho à forma actual de discernir e de ser capaz de avaliar o que nos rodeia, de conseguir identificar o que é fruto da manipulação dos media, das mentiras mil vezes repetidas que "verdades" se tornam... 

 Educação para a Independência do Pensamento

Não basta preparar o homem para o domínio de uma especialidade qualquer. Passará a ser então uma espécie de máquina utilizável, mas não uma personalidade perfeita. O que importa é que venha a ter um sentido atento para o que for digno de esforço, e que for belo e moralmente bom. De contrário, virá a parecer-se mais com um cão amestrado do que com um ser harmonicamente desenvolvido, pois só tem os conhecimentos da sua especialização. Deve aprender a compreender os motivos dos homens, as suas ilusões e as suas paixões, para tomar uma atitude perante cada um dos seus semelhantes e perante a comunidade.
Estes valores são transmitidos à jovem geração pelo contacto pessoal com os professores, e não — ou pelos menos não primordialmente — pelos livros de ensino. São os professores, antes de mais nada, que desenvolvem e conservam a cultura. São ainda esses valores que tenho em mente, quando recomendo, como algo de importante, as «humanidades» e não o mero tecnicismo árido, no campo histórico e filosófico.
A importância dada ao sistema de competição e a especialização precoce, sob pretexto da utilidade imediata, é o que mata o espírito de que depende toda a actividade cultural e até mesmo o próprio florescimento das ciências de especialização.
Faz também parte da essência de uma boa educação desenvolver nos jovens o pensamento crítico independente, desenvolvimento esse que é prejudicado, em grande parte, pela sobrecarga de disciplinas em que o indivíduo, segundo o sistema adoptado, tem de obter nota de passagem. A sobrecarga conduz necessariamente à superficialidade e à falta de verdadeira cultura. O ensino deve ser de modo a fazer sentir aos alunos que aquilo que se lhes ensina é uma dádiva preciosa e não uma amarga obrigação. 


Albert Einstein, in 'Como Vejo o Mundo'