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quarta-feira, abril 25, 2012

COLORIR ABRIL



Naquela estremunhada manhã acordou-se cedo. Um telefonema de uma conhecida distante atravessou o sono e do lado de lá perguntou o que acontecera do lado de cá do rio. Uma sua amiga viera do Barreiro no primeiro barco da manhã e ao chegar ao Terreiro de Paço só vislumbrara chaimites. 
Foi assim que o 25 de Abril bateu à minha porta. Ligar de seguida o rádio, descobrir os comunicados emitidos  do Estado Maior das Forças Armadas, intercalados com Grândola e demais canções, deixou-nos mergulhados por momentos num sentimento de irrealidade. Os sinais que vinham até nós eram de facto A mudança que tanto sonháramos ? Não haveria o perigo de os olharmos como quem olha uma miragem na areia do deserto que se desfaz no preciso momento em que nos aproximamos ?
Aos poucos fomo-nos dando conta que a música permanecia a par dos avisos à população para evitar sair de casa. O desejo de sair, de ir "cheirar o ar" impôs-se mais e mais.
Nesses tempos a minha primeira morada ficava a poucas centenas de metros do quartel da Legião Portuguesa. Saí, máquina em punho, e fui ao encontro desses poderosos chaimites que fechavam o acesso ao quartel. Guardo ainda essas fotografias coloridas, que o tempo desbotou, sentindo-as como momentos vivos de memória que nada fará apagar.  
 No alcatrão da Morais Soares as lagartas dos tanques tinham deixado a sua marca.
A "conquista" da cidade ia-se fazendo cautelosamente procurando ler sinais da revolução. A alegria era grande mas contida, sempre temendo que algum retrocesso pudesse acontecer. Os anos de ditadura com a sua polícia política e civil, desmanchando sempre todas as veleidades de mudança fazia-nos  temer o pior.
Mas o dia ia caminhando, as notícias do cerco ao quartel do Carmo eram vividas minuto a minuto através da televisão e, já mais para o fim do dia, sentíamos que podíamos finalmente festejar.
Estávamos todos em festa. Esse grupo de oficiais das Forças Armadas-os Capitães de Abril- traziam-nos, generosamente, a Liberdade.
Restava-nos, tão só, construir novas formas de viver que fizessem jus aos princípios de Abril. Tudo o mais tinha sido feito.
Assim os nossos Capitães não são (ao contrário do que diz a arrogante ignorância) pessoas que querem sobressair. São sim Homens que se deram por causa e que, podem e devem dizer, como Abril está já completamente desbotado.
Vamos colori-lo de novo!

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