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domingo, outubro 31, 2010

Compreendi toda a grandeza da minha evolução...

                             (R.Doisneau)

Mas com a breca! quem me explicará a razão desta diferença? um dia vimo-nos, tratámos o casamento, desfizemo-lo e separámo-nos, a frio, sem dor, porque não houvera paixão nenhuma; mordeu-me apenas algum despeito e nada mais. Correm anos, torno a vê-la, damos três ou quatro giros de valsa, e eis-nos a amar um ao outro com delírio. A beleza de Virgília chegara, é certo, a um alto grau de apuro, mas nós éramos substancialmente os mesmos, e eu, à minha parte, não me tornara mais bonito nem mais elegante. Quem me explicará a razão dessa diferença?
A razão não podia ser outra senão o momento oportuno. Não era oportuno o primeiro momento, porque se nenhum de nós estava verde para o amor, ambos o estávamos para o nosso amor: distinção fundamental. Não há amor possível sem a oportunidade dos sujeitos. Esta explicação achei-a eu mesmo, dois anos depois do beijo, um dia em que Virgília se me queixava de um pintalegrete que lá ia e tenazmente a galanteava.
- Que importuno! dizia ela fazendo uma careta de raiva. Estremeci, fitei-a, vi que a indignação era sincera; então ocorreu-me que talvez eu tivesse provocado alguma vez aquela mesma careta, e compreendi logo toda a grandeza da minha evolução. Tinha vindo de importuno a oportuno.

(Machado de Assis-Memórias póstumas de Brás Cubas)

sexta-feira, outubro 22, 2010

Um verso valerá por uma letra...

                                        

                                            Não tem nome nenhum esta figura
                                            que ainda agora tracei no quadro escuro
                                            nem há lugar na terra onde fique
                                            bem esse objecto que ninguém conhece.
                                            Na história humana não há sinal disto
                                            nem nos sacros anais da neuropsique;
                                            declaram-se venais os tribunais
                                            e vãos, de não saber em que consiste.
                                            Para irritar o mundo, chamo-lhe amor,
                                            às vezes; mas não quero
                                            confundi-lo com outro, por mais puro.
                                            Pouco importa o que escrevo, o que interdito.
                                            Um verso valerá por uma letra
                                            e seremos duendes para sempre.

               (António  Franco Alexandre- Duende)
                                           

terça-feira, outubro 19, 2010

Há muito tempo que não olhava para a Lua.

(Aguarelas de Turner)
- Algumas vezes penso que os condutores nem sequer sabem o que pode ser a erva ou as flores. Vão sempre tão depressa! Se se aponta a um condutor uma mancha vaga e verde, ele deve dizer: «Oh, claro, é erva! Uma mancha rosada? São rosas num jardim! As manchas brancas são casas. As castanhas, vacas.» Uma vez o meu tio conduziu lentamente numa auto-estrada- apenas a setenta  por hora. Meteram-no na prisão por dez dias. É esquisito, não acha?...E triste, também!
- Pensa de mais- disse Montag, pouco à vontade. -Raramente olho a televisão mural, nunca vou às corridas ou parques de atracções. Por isso tenho muito tempo para pensar ideias esquisitas. Viu os cartazes de cem metros de comprimento no campo, à saída da cidade? Sabe que dantes tinham apenas uma dezena de metros? Mas os carros vão tão depressa agora que tiveram de prolongá-los para que a publicidade conserve ainda o seu efeito.
- Não sabia- disse Montag, com um riso seco.
- aposto que posso ainda ensinar-lhe outra coisa. De manhã há orvalho nas ervas.
Ele sentiu-se subitamente incapaz de se lembrar se o sabia ou não e experimentou uma viva irritação.
- E se olhar bem...- Clarisse ergeu a cabeça para o céu- verá um homem na Lua.
Há muito tempo que não olhava para a Lua.
Acabaram o trajecto num silêncio, para ela pensativo, para ele contrariado, crispado.

(Ray Bradbury- Fahrenheit 451)

terça-feira, outubro 12, 2010

pede à noite que se transforme.......

Enleia nas unhas o triste sono das violetas
e nas hastes das cassiopeias demora-te
para surpreenderes o estelar canto do rouxinol


rasga janelas no lume íntimo da lareira
pede à noite que sob as pálpebras se transforme
numa imensa borboleta em chamas


a casa onde vives alimenta-se com o sorriso
da criança que estende as mãos para ti
enquanto o turvo líquido da velhice escurece
a memória desse tempo sem palavras

(Al Berto- Vigílias)

sábado, outubro 09, 2010

Eu quando crescer quero ser jardineiro...

Uma pequena estória

A mãe mostrava ao filho de 3 anos e meio as fotografias do seu casamento.
O menino olhava com toda a atenção para as fotografias e, depois de alguns momentos de reflexão, disse:
-Mamã eu não quero que tu cases com o papá.
A mãe procurando ajudar a criança a suportar a grande decepção respondeu:
- mas se a mamã não tivesse casado com o papá tu não tinhas nascido...
Nova pausa de reflexão por parte do menino, seguida de uma nova pergunta.
- Mamã então como é que os bebés nascem?
A mamã usando a velha metáfora da jardinagem lá disse ao menino: - o papá pôs uma sementinha dentro da barriga da mamã...
Novo silêncio do menino que, analisando aquela explicação à luz de todos os seus conhecimentos, voltava a questionar-se e dizia à sua mamã: -Mas mamã das sementes só nascem flores...
A mãe então resolveu mostrar-lhe o poder da metáfora, dizendo-lhe: - mas filho podemos pensar em vários tipos de flores...
Um novo silêncio da criança a que se seguiu uma poderosa afirmação:
-Mamã eu quando crescer quero ser jardineiro.

O silêncio é como se fosse água...

                   
      ( Addiragram)

De novo o Silêncio


O silêncio é como se fosse água. Daquela água pura da montanha que se bebe directamente pelo coração.

(Jorge Sousa Braga- Os pés luminosos)

domingo, outubro 03, 2010

Como é que o cérebro faz a mente?

                             (Cruzeiro Seixas)

Olhamos para a consciência como coisa garantida porque é tão disponível, por ser tão simples de usar, tão elegante nos seus aparecimentos e desaparecimentos diários. No entanto, todas as pessoas, cientistas incluídos, ficam perplexas ao pensar tal fenómeno. De que é feita a consciência? Parece-me que terá de ser a mente com algumas peculiaridades, visto que não podemos estar conscientes sem uma mente da qual podemos ter consciência. Mas de que é feita a mente? Virá do ar ou do corpo? As pessoas inteligentes dizem que vem do cérebro, que se encontra no cérebro, mas a resposta  não é satisfatória. Como é que o cérebro faz a mente?
Especialmente misterioso é o facto de ninguém ver a mente dos outros, consciente ou não. Podemos observar-lhes o corpo e o que fazem e o que dizem ou escrevem, e podemos opinar com algum conhecimento  quanto àquilo que estarão a pensar. No entanto, não podemos observar-lhes a mente e apenas nós próprios  somos capazes de observar a nossa, a partir do interior, e através de uma janela bem estreita. As propriedades da mente, já para não falar da mente consciente, apresentam-se de forma tão díspar daquelas da matéria viva visível, que as pessoas atentas se interrogam sobre a forma como um processo- a mente consciente- se funde com outros processos- as células vivas que se unem em aglomerados a que chamamos tecidos.
Claro que dizer que a mente consciente é misteriosa, que o é, não é o mesmo que dizer que o mistério é insolúvel. Não é o mesmo que dizer que nunca seremos capazes de entender como um organismo vivo dotado de cérebro desenvolve uma mente consciente ou declarar que a solução do problema se encontra fora do alcance do ser humano.

(António Damásio- O Livro da Consciência. A construção do cérebro consciente)