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terça-feira, outubro 19, 2010

Há muito tempo que não olhava para a Lua.

(Aguarelas de Turner)
- Algumas vezes penso que os condutores nem sequer sabem o que pode ser a erva ou as flores. Vão sempre tão depressa! Se se aponta a um condutor uma mancha vaga e verde, ele deve dizer: «Oh, claro, é erva! Uma mancha rosada? São rosas num jardim! As manchas brancas são casas. As castanhas, vacas.» Uma vez o meu tio conduziu lentamente numa auto-estrada- apenas a setenta  por hora. Meteram-no na prisão por dez dias. É esquisito, não acha?...E triste, também!
- Pensa de mais- disse Montag, pouco à vontade. -Raramente olho a televisão mural, nunca vou às corridas ou parques de atracções. Por isso tenho muito tempo para pensar ideias esquisitas. Viu os cartazes de cem metros de comprimento no campo, à saída da cidade? Sabe que dantes tinham apenas uma dezena de metros? Mas os carros vão tão depressa agora que tiveram de prolongá-los para que a publicidade conserve ainda o seu efeito.
- Não sabia- disse Montag, com um riso seco.
- aposto que posso ainda ensinar-lhe outra coisa. De manhã há orvalho nas ervas.
Ele sentiu-se subitamente incapaz de se lembrar se o sabia ou não e experimentou uma viva irritação.
- E se olhar bem...- Clarisse ergeu a cabeça para o céu- verá um homem na Lua.
Há muito tempo que não olhava para a Lua.
Acabaram o trajecto num silêncio, para ela pensativo, para ele contrariado, crispado.

(Ray Bradbury- Fahrenheit 451)

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