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segunda-feira, novembro 28, 2011

E o ar que te respira deixa de esperar...

   

                                   (Sorolla)
Ao lado da janela,
                                        desconhecida dormes.
                                        Com o sono
                                        -ponte de vidro-
                                         e o teu pé nu.
                                         E o ar que te respira
                                         deixa de esperar

                                         o azul da luz do dia.

(João Camilo- A Ambição Sublime)

domingo, novembro 27, 2011

sábado, novembro 19, 2011

A harmonia queima...

   (Abelardo Morell)
Não toques nos objectos imediatos.
A harmonia queima.
Por mais leve que seja um bule ou uma chávena,
São loucos todos os objectos.
Uma jarra com um crisântemo transparente
tem um tremor oculto.
E terrível no escuro.
Mesmo o seu nome, só a medo o podes dizer,
A boca fica em chaga.

(Herberto Helder- Última Ciência)

terça-feira, novembro 15, 2011

Desejei-te pinheiro à beira-mar...

                           ( Ladmore)
 Paisagem


Desejei-te pinheiro à beira-mar
para fixar o teu perfil exacto.

Desejei-te encerrada num retrato
para poder-te contemplar.

Desejei que tu fosses sombra e folhas
no limite sereno dessa praia.

E desejei: «Que nada me distraia
dos horizontes que tu olhas!»

Mas frágil e humano grão de areia
não me detive à tua sombra esguia.

(Insatisfeito, um corpo rodopia
na solidão que te rodeia.)


David Mourão-Ferreira, in "A Secreta Viagem"

domingo, novembro 13, 2011

Tornei-me perfeitamente frequentável em amor...


(...)
Chegou, portanto, o momento de fazer o balanço da minha vida. Que fiz de bom, e de menos bom? Em que fui bem sucedido, em que falhei?
O domínio que obtive menos sucesso, devo confessar, foi o amor. Por uma razão misteriosa, não soube amar as mulheres como devia ter amado. Foi como se tivesse permanecido demasiado tempo à superfície- nem sempre é assim. É um dos meus maiores desgostos.
Quando era jovem, tinha a cabeça recheada de ideias imbecis a este respeito. O amor era uma coisa que o homem impunha à mulher pois ela era por essência recalcitrante. A única maneira de proceder, era subjugá-la.
 Uma história de amor era em primeiro lugar uma história de uma conquista, depois a de uma ocupação. Uma pura relação de força na qual o homem tinha interesse em se manter na posição dominante. Estava fora de causa deixar-se arrastar, mesmo depois dela ter cedido. Sendo legítimo o seu domínio, o homem devia "vigiar" constantemente a sua conquista, devia mantê-la sob guarda se quisesse evitar que ela se rebelasse. Impossível imaginar uma relação harmoniosa, uma relação baseada na troca, ou numa qualquer igualdade entre parceiros.
Ainda hoje me pergunto de onde me vinham estas ideias idiotas que deterioraram as minhas histórias de amor até aos trinta anos. Com esta concepção imperialista na cabeça, esforçava-me por me me conduzir como uma potência ocupante. A minha actividade amorosa resumia-se a procurar um domínio a conquistar. Resultado. amava, por vezes como um louco, mas não era amado. Ou antes, mesmo quando era amado- chegou a acontecer- não me permitia sentir-me amado. Porque teria, nesse caso que depor as aramas e aceitar deixar de ser comandante de bordo. 
 As histórias que vivi nessa época de grande imbecilidade deixaram-me um horrível sabor a frustração. Por exemplo, tinha a convicção íntima que as mulheres eram feitas de tal maneira que não se interessavam absolutamente nada pelo amor físico. Mas não era só o sexo que estava em causa. Elas não se interessavam na realidade por nada. Apenas aceitavam  ir dar um passeio, ver um filme, ou jantar num restaurante agradável. Enquanto eu, pelo meu lado, era capaz de sentir um real prazer em sair para namorar, jantar fora...
Acontecia, bem entendido, que uma mulher ficasse encantada por partilhar estas coisas comigo, e mesmo sentisse realmente vontade de fazer amor. mas eu mantinha a linha imperialista sem tergiversar. Nem me deixar perturbar e ainda menos influenciar.Que tristeza ter perdido tanto tempo e tantas oportunidades de felicidade! Vinte anos mais tarde, ainda me resta alguma coisa de tudo isto: a minha mulher queixa-se frequentemente de que não sei deixar-me amar... Felizmente acabei por me libertar destas ideias grotescas. Por volta dos trinta anos, dei um salto quântico que me projectou a anos-luz, num universo encantado em que as mulheres eram dotadas de inteligência e podiam partilhar comigo uma imensidão de interesses comuns. Deixei de avaliar a mulher pela bitola de um modelo ideal e do qual ela só podia sair derrotada. Compreendi que o óptimo, no amor como em tudo, é inimigo do bom e que a procura de perfeição é deletéria.
Tornei-me por fim capaz de viver verdadeiras histórias de amor com mulheres que eram iguais a mim, humana e intelectualmente. Consegui abandonar o papel frustrante de "tutor". Fiquei a saber que havia mais prazer em dar e receber do que em dominar e impor-se pela sedução. Em suma, tornei-me perfeitamente frequentável em amor.

(David Servan-Schreiber- antes de dizer adeus)


Há alguns anos atrás fiz um poster neste blog com uma passagem do livro Anti-Cancro de David Servan-Schreiber. Sempre que alguém próximo se via mergulhado nessa luta desigual contra esta doença, fiz sempre questão de lhe oferecer um exemplar daquele livro. Era e é para mim a expressão inteligente da esperança, esperança fundamentada em numerosas investigações em áreas complementares à medicina, que permaneciam inacessíveis ao grande público. 
 Quando há pouco tempo tive conhecimento da morte de David, vi-me a questionar a validade do conteúdo da obra. Acreditara que ele conseguira vencer o seu cancro. Desejamos sempre encontrar soluções mágicas e quando tal não acontece, de repente, duvidamos de tudo o que críamos. 
Foi-me pois indispensável ler o seu último livro, um livro-testamento, que é escrito com uma coragem e verdade invulgares, respondendo, nos mais diferentes ângulos, às dúvidas que me  assaltaram e deixando a todos os que o lêem o sentimento  do amor pela vida.

terça-feira, novembro 08, 2011

Sobem dois perfumes...

                                           (Monet)

Chovem duas chuvas:
de água e de jasmins
por estes jardins de flores e nuvens.


Sobem dois perfumes
por estes jardins:
de terra e jasmins,
de flores e chuvas.


E os jasmins são chuvas
e as chuvas, jasmins,
por estes jardins
de perfume e nuvens.


(Cecília Meireles)

domingo, novembro 06, 2011

sábado, novembro 05, 2011

Na foz é que há a aventura....

A morte da água  

Um dos passeios que mais gosto de dar é ir a esposende ver desaguar o cávado. Existe lá um bar apropriado para isso. Um rio é a infância da água. As margens, o leito, tudo a protege. Na foz é que há a aventura do mar largo. Acabou-se qualquer possível árvore geneológica, visível no anel do dedo. Acabou-se mesmo qualquer passado. É o convívio com a distância, com o incomensurável. É o anonimato. E a todo o momento há água que se lança nessa aventura. Adeus margens verdejantes, adeus pontes, adeus peixes conhecidos. Agora é o mar salgado, a aventura sem retorno, nem mesmo na maré cheia. E é em esposende que eu gosto de assistir, durante horas, a troco de uma imperial, à morte de um rio que envelheceu a romper pedras e plantas, que lutou, que torneou obstáculos. Impossível voltar atrás. Agora é a morte. Ou a vida. 

(Rui Belo)