terça-feira, abril 08, 2014

A ausência, essa ausência assimilada....




Hopper

                               Ausência 
Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus
                                                                            [braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

Carlos Drummond de Andrade, in 'O Corpo'

sábado, abril 05, 2014

Cai a Chuva Abandonada ...

                                           
Cai a chuva abandonada
à minha melancolia,
a melancolia do nada
que é tudo o que em nós se cria.

Memória estranha de outrora
não a sei e está presente.
Em mim por si se demora
e nada em mim a consente

do que me fala à razão.
Mas a razão é limite
do que tem ocasião

de negar o que me fite
de onde é a minha mansão
que é mansão no sem-limite.
Ao longe e ao alto é que estou
e só daí é que sou.

Vergílio Ferreira, in 'Conta-Corrente 1'

domingo, março 30, 2014

A partir daí ficamos dentro de uma luz...

Paris- Brassai
  
Aqui estás.

Aqui estamos, parados um diante do outro, tu de mochila às costas, eu de saco aos pés, com aquele sorriso oblíquo de quem não se olha nos olhos.
Mal nos tocamos, aperto-te a mão e desato a falar.
Do frio, da Ulysses, do Hugo Pratt.
- E se andássemos um bocado para aquecer?
- Antes de ir ao hotel?
- Podíamos beber qualquer coisa. Então andamos lado a lado, com a nossa bagagem, por Saint- Louis à noite. Levo-te à Ulysses e às papelarias da rue du Pont Louis- Philippe onde há anos descobri uns cadernos encadernados a pano que parecem livros, mas com páginas todas brancas. Ficamos de nariz na montra. 
Depois damos a volta ao clarão fantasmagórico de Notre-Dame, e paramos de queixo levantado para a fachada, como se fosse a lua.
As noites de inverno têm a aura das coisas fechadas sobre si. Uma noite assim é para nós.
 Não me lembro quando foi a última vez que comi, talvez ao pequeno-almoço, mas quando nos sentamos só peço vinho e tu comes, numa tasca com mesas de fórmica dos anos 60, daquelas redondas, azul-celeste. Um par de ocasião, dois ou três solitários que vejo de relance. A partir daí ficamos dentro de uma luz e o resto desaparece. (...)

(Alexandra Lucas Coelho)- E a noite roda...


sábado, março 15, 2014

Uma respiração apressada, ou um princípio de lágrimas..



           (Chagall)
Aproximei-me de ti; e tu, pegando-me na mão,
puxaste-me para os teus olhos
transparentes como o fundo do mar para os afogados. Depois, na rua,
ainda apanhámos o crepúsculo.
As luzes acendiam-se nos autocarros; um ar 
diferente inundava a cidade.Sentei-me 
nos degraus do cais, em silêncio.
Lembro-me do som dos teus passos,
uma respiração apressada, ou um princípio de lágrimas,
e a tua figura luminosa atravessando a praça
até desaparecer. Ainda ali fiquei algum tempo, isto é,
o tempo suficiente para me aperceber de que, sem estares,
continuavas ao meu lado. E ainda hoje me acompanha
essa doente sensação que 
me deixaste como amada
recordação. 

(Nuno Júdice- Poemas em voz alta)

quinta-feira, fevereiro 13, 2014

Palavras que em ti já não existem...


UM FADO: Palavras minhas

Palavras que disseste e já não dizes,
palavras como um sol que me queimava,
olhos loucos de um vento que soprava
em olhos que eram meus, e mais felizes.

Palavras que disseste e que diziam
segredos que eram lentas madrugadas,
promessas imperfeitas, murmuradas
enquanto os nossos beijos permitiam.

Palavras que dizias, sem sentido,
sem as quereres, mas só porque eram elas
que traziam a calma das estrelas
à noite que assomava ao meu ouvido...

Palavras que não dizes, nem são tuas,
que morreram, que em ti já não existem
-que são minhas, só minhas, pois persistem
na memória que arrasto pelas ruas.


Pedro Támen

domingo, janeiro 05, 2014

Que desejo vale o ensejo?




O tempo que eu hei sonhado
Quantos anos foi de vida!
Ah, quanto do meu passado
Foi só a vida mentida
De um futuro imaginado! 

Aqui à beira do rio
Sossego sem ter razão.
Este seu correr vazio
Figura, anónimo e frio,
A vida vivida em vão. 

A sprança que pouco alcança!
Que desejo vale o ensejo?
E uma bola de criança
Sobre mais que minha sprança,
Rola mais que o meu desejo. 

Ondas do rio, tão leves
Que não sois ondas sequer,
Horas, dias, anos, breves
Passam - verduras ou neves
Que o mesmo sol faz morrer. 

Gastei tudo que não tinha.
Sou mais velho do que sou.
A ilusão, que me mantinha,
Só no palco era rainha:
Despiu-se, e o reino acabou. 

Leve som das águas lentas,
Gulosas da margem ida,
Que lembranças sonolentas
De esperanças nevoentas!
Que sonhos o sonho e a vida! 

Que fiz de mim? Encontrei-me
Quando estava já perdido.
Impaciente deixei-me
Como a um louco que teime
No que lhe foi desmentido. 

Som morto das águas mansas
Que correm por ter que ser,
Leva não só lembranças,
Mas as mortas esperanças -
Mortas, porque hão-de morrer. 

Sou já o morto futuro.
Só um sonho me liga a mim -
O sonho atrasado e obscuro
Do que eu devera ser - muro
Do meu deserto jardim. 
Ondas passadas, levai-me
Para o alvido do mar!
Ao que não serei legai-me,
Que cerquei com um andaime
A casa por fabricar. 

(Fernando Pessoa)

quarta-feira, janeiro 01, 2014

A noite, o dia, cartas de um baralho...


(Hopper)

Sonetos de Shakespeare reescritos em português
 
Como voltar feliz ao meu trabalho
se a noite não deu nenhum sossego?
A noite, o dia, cartas de um baralho
sempre trocadas neste jogo cego
Eles dois, inimigos de mãos dadas,
me torturam, envolvem no seu cêrco
de fadiga, de dúbias madrugadas:
e tu, quanto mais sofro mais te perco.
Digo ao dia que brilhas para ele,
que desfazes as nuvens do seu rosto;
digo à noite sem estrelas que és o mel
na sua pele escura: o oiro, o gosto.
Mas dia a dia alonga-se a jornada
e cada noite é noite mais fechada.

(Carlos de Oliveira)
 

terça-feira, dezembro 31, 2013

Poema para o Novo Ano














DESINFERNO II

Caísse a montanha e de oiro o brilho
O meigo jardim abolisse a flor
A mãe desmoesse as carnes do filho
Por botão de vídeo se fizesse amor

O livro morresse, a obra parasse
Soasse a granizo o que era alegria
A porta do ar se calafetasse
Que eu de amor apenas ressuscitaria

(Luiza Neto Jorge)

domingo, novembro 10, 2013

A natureza revolucionária da felicidade...

(Turner)
    
A Natureza revolucionária da felicidade

                  Quem deixou sobre o coração
                            Um feixe de luz
                            Não cega nunca

(valter hugo mãe)


                             
 

domingo, novembro 03, 2013

Os loucos, os fantasmas somos nós...

     (Magritte)
                                            Perfilados de medo, agradecemos
                              o medo que nos salva da loucura.
                              Decisão e coragem valem menos
                              e a vida sem viver é mais segura.

                              Aventureiros já sem aventura,
                              perfilados de medo combatemos
                              irónicos fantasmas à procura
                              do que não fomos, do que não seremos.

                             Perfilados de medo, sem mais voz,
                             o coração nos dentes oprimido,
                             os loucos, os fantasmas somos nós.

                             Rebanho pelo medo perseguido,
                             já vivemos tão juntos e tão sós
                             que da vida perdemos o sentido...

                   (Alexandre O' Neill)