Enleia nas unhas o triste sono das violetas
e nas hastes das cassiopeias demora-te
para surpreenderes o estelar canto do rouxinol
rasga janelas no lume íntimo da lareira
pede à noite que sob as pálpebras se transforme
numa imensa borboleta em chamas
a casa onde vives alimenta-se com o sorriso
da criança que estende as mãos para ti
enquanto o turvo líquido da velhice escurece
a memória desse tempo sem palavras
(Al Berto- Vigílias)
Turner na liberdade das suas aguarelas dá-nos a emoção do olhar e do sentir em estado puro.Este espaço propõe-se convocar, pela voz dos que sabem, múltiplos instantes de vida: luz e sombra; esquecimento e memória; vida e morte...
"Seja qual fôr o caminho que eu escolher um poeta já passou por ele antes de mim"
S. Freud
terça-feira, outubro 12, 2010
pede à noite que se transforme.......
Olhar o mundo à minha volta,
gostar dos que me são queridos,
usar, da melhor maneira, aquilo, que julgo saber...
sábado, outubro 09, 2010
Eu quando crescer quero ser jardineiro...
A mãe mostrava ao filho de 3 anos e meio as fotografias do seu casamento.
O menino olhava com toda a atenção para as fotografias e, depois de alguns momentos de reflexão, disse:
-Mamã eu não quero que tu cases com o papá.
A mãe procurando ajudar a criança a suportar a grande decepção respondeu:
- mas se a mamã não tivesse casado com o papá tu não tinhas nascido...
Nova pausa de reflexão por parte do menino, seguida de uma nova pergunta.
- Mamã então como é que os bebés nascem?
A mamã usando a velha metáfora da jardinagem lá disse ao menino: - o papá pôs uma sementinha dentro da barriga da mamã...
Novo silêncio do menino que, analisando aquela explicação à luz de todos os seus conhecimentos, voltava a questionar-se e dizia à sua mamã: -Mas mamã das sementes só nascem flores...
A mãe então resolveu mostrar-lhe o poder da metáfora, dizendo-lhe: - mas filho podemos pensar em vários tipos de flores...
Um novo silêncio da criança a que se seguiu uma poderosa afirmação:
-Mamã eu quando crescer quero ser jardineiro.
Olhar o mundo à minha volta,
gostar dos que me são queridos,
usar, da melhor maneira, aquilo, que julgo saber...
O silêncio é como se fosse água...
De novo o Silêncio
O silêncio é como se fosse água. Daquela água pura da montanha que se bebe directamente pelo coração.
(Jorge Sousa Braga- Os pés luminosos)
Olhar o mundo à minha volta,
gostar dos que me são queridos,
usar, da melhor maneira, aquilo, que julgo saber...
domingo, outubro 03, 2010
Como é que o cérebro faz a mente?
(Cruzeiro Seixas)
Olhamos para a consciência como coisa garantida porque é tão disponível, por ser tão simples de usar, tão elegante nos seus aparecimentos e desaparecimentos diários. No entanto, todas as pessoas, cientistas incluídos, ficam perplexas ao pensar tal fenómeno. De que é feita a consciência? Parece-me que terá de ser a mente com algumas peculiaridades, visto que não podemos estar conscientes sem uma mente da qual podemos ter consciência. Mas de que é feita a mente? Virá do ar ou do corpo? As pessoas inteligentes dizem que vem do cérebro, que se encontra no cérebro, mas a resposta não é satisfatória. Como é que o cérebro faz a mente?
Especialmente misterioso é o facto de ninguém ver a mente dos outros, consciente ou não. Podemos observar-lhes o corpo e o que fazem e o que dizem ou escrevem, e podemos opinar com algum conhecimento quanto àquilo que estarão a pensar. No entanto, não podemos observar-lhes a mente e apenas nós próprios somos capazes de observar a nossa, a partir do interior, e através de uma janela bem estreita. As propriedades da mente, já para não falar da mente consciente, apresentam-se de forma tão díspar daquelas da matéria viva visível, que as pessoas atentas se interrogam sobre a forma como um processo- a mente consciente- se funde com outros processos- as células vivas que se unem em aglomerados a que chamamos tecidos.
Claro que dizer que a mente consciente é misteriosa, que o é, não é o mesmo que dizer que o mistério é insolúvel. Não é o mesmo que dizer que nunca seremos capazes de entender como um organismo vivo dotado de cérebro desenvolve uma mente consciente ou declarar que a solução do problema se encontra fora do alcance do ser humano.
(António Damásio- O Livro da Consciência. A construção do cérebro consciente)
Olhar o mundo à minha volta,
gostar dos que me são queridos,
usar, da melhor maneira, aquilo, que julgo saber...
segunda-feira, setembro 27, 2010
Quero campinas sem termo...
(Bastien-Lapage)
Deixemos estas cidades…
Oh! a livre natureza,
Que eu não vejo entre os montes
De pedras e de tristeza!
Oh! os largos horizontes!
Oh as campinas floridas!
Vamos lá banhar em luz
Nosso amor e nossas vidas!
Se os horizontes são largos,
Vasto é o meu coração…
Para os meus grandes desejos
Quero infinta prisão!
Todo o ar é pouco ainda
Para a andorinha voar…
Eu quero imenso horizonte
Para poder delirar!
Quero campinas sem termo,
Todo o brilho e toda a cor…
O maior monte é pequeno
Para andar o meu amor!
(Antero de Quental -Idílio sonhado)
Deixemos estas cidades…
Oh! a livre natureza,
Que eu não vejo entre os montes
De pedras e de tristeza!
Oh! os largos horizontes!
Oh as campinas floridas!
Vamos lá banhar em luz
Nosso amor e nossas vidas!
Se os horizontes são largos,
Vasto é o meu coração…
Para os meus grandes desejos
Quero infinta prisão!
Todo o ar é pouco ainda
Para a andorinha voar…
Eu quero imenso horizonte
Para poder delirar!
Quero campinas sem termo,
Todo o brilho e toda a cor…
O maior monte é pequeno
Para andar o meu amor!
(Antero de Quental -Idílio sonhado)
Olhar o mundo à minha volta,
gostar dos que me são queridos,
usar, da melhor maneira, aquilo, que julgo saber...
quarta-feira, setembro 22, 2010
cantam. De que infinito guardaram
a nostalgia? Enquanto a desconhecida dorme ainda
ao lado da janela. E eu contemplo o cimo das árvores.
(João Camilo- A Ambição sublime)
Olhar o mundo à minha volta,
gostar dos que me são queridos,
usar, da melhor maneira, aquilo, que julgo saber...
sexta-feira, setembro 17, 2010
Estamos ainda longe de praticar a democracia
Quando um ditador delirante tem condições para realizar socialmente o seu delírio, não vai para o manicómio, mas é a sociedade que se torna uma manicómio, às vezes quase imperceptivelmente. No caso português, o delírio do não-delírio, a aspiração violenta ao silêncio e à pequenez criaram uma sociedade aparentemente não-delirante- pelo contrário, a mais normal e moral que se podia imaginar. Quando este mecanismo se põe a funcionar é talvez possível justificar epistemologicamente a passagem do inconsciente individual para o plano colectivo ( não necessariamente para um «inconsciente colectivo» copiado do inconsciente individual).
Nestas condições, que aconteceu quando, no fim dos anos 70 e princípios dos anos 80, o português se esforçou por readquirir a subjectividade perdida? Lembremos que o equilíbrio do sistema salazarista das subjectividades e das condições de subjectivação formava uma sólida cobertura claustrofóbica que nem a guerra colonial conseguiu abalar)- ao mesmo tempo elemento de protecção do sistema. Foi, pois, muito natural que nesses anos de procura de subjectividade se tenha voltado a antigos moldes que forneciam segurança e paz interior. Mas a força desses padrões interiorizados era tal que contaminou as novas condições de subjectivação: a democracia, a cidadania, a acção e expressão livres. Daí a nossa dificuldade actual em nos desviarmos de uma via única, a nossa tendência a não ver senão norma, a criar constantemente zonas sociais claustrofóbicas, a viver a democracia como, parodoxalmente, uma imensa cobertura-véu colectiva, com os seus agentes e mecanismos autoritários, desde os média ao tipo de governação, passando pelo medo da crítica e da liberdade. Estamos ainda longe de praticar a democracia.
( José Gil- Em busca da Identidade- o desnorte)
Olhar o mundo à minha volta,
gostar dos que me são queridos,
usar, da melhor maneira, aquilo, que julgo saber...
segunda-feira, setembro 13, 2010
Não vás tantas vezes à estrada...
Carta a minha mãe
Estás viva ainda, velhota minha?
Eu vivo também. Saudações, saudações!
Que passe sobre a tua cabana
aquela luz da tarde indescritível!
Escrevem-me que tu, embora o escondas,
te preocupas demasiado comigo,
que vais muita vez até à estrada
com o teu casacão fora de moda.
E a coberto do azul da noite
muitas vezes imaginas a mesma coisa-
que alguém numa rixa de taberna
me enterrou no coração uma navalha...
Nada acontece, mãe! Descansa.
Isso é só a tua imaginação.
Eu não sou um bêbado inveterado
para morrer sem te ver primeiro
Como dantes tão afeiçoado
Sonho apenas em escapar
à minha angústia intranquila
e voltar à nossa pobre casa.
Eu voltarei, quando estender os ramos
na Primavera o nosso jardim branco.
Só te peço que, de madrugada,
não me acordes como oito anos atrás.
Não acordes aquele que esgotou todos os sonhos,
não perturbes aquele que não se realizou-
demasiado cedo o sofrimento e o cansaço
encheram totalmente a minha vida.
E não me ensines orações. Não é preciso!
Não se pode já voltar atrás.
Tu sozinha me és ajuda e conforto,
Tu sozinha me és inefável luz.
Assim, esquece, pois as tuas angústias,
não fiques tão triste por minha causa.
Não vás tantas vezes à estrada
com o teu casacão fora de moda.
(Serguéi Iessénine)
Olhar o mundo à minha volta,
gostar dos que me são queridos,
usar, da melhor maneira, aquilo, que julgo saber...
domingo, setembro 05, 2010
Uma culpabilidade profunda incrusta-se em todo o seu ser..
“ O paranoico projecta para os exterior as suas pulsões, atribuindo-as a um objecto, tornando-se ele a vítima dos afectos hostis que emanam agora do objecto e recaem sobre ele: o seu ego tende a diminuir ou encolher. Se extrapolarmos para o caso português, o sujeito «vive-se»
como um zero social e pessoal, um falhado, e queixa-se de tudo e todos-
queixa-se do «país» nunca de si próprio. Abre-se aqui uma esquize, uma fenda no eu, porque ele pertence e não pertence ao «país». Uma culpabilidade profunda incrusta-se em todo o seu ser: culpabilidade por ser o que é, e o que não é, por tudo e por nada, pesada e difusa ao mesmo tempo.
O resultado da acção destas duas forças contraditórias forma um extraordinário sistema de impasses que aprisiona e molda a subjectividade. O eu dilatado tende a embater contra os outros eus que
também introjectaram o mundo – o que levaria a conflitos abertos entre os indivíduos e à erosão da coesão social. Mas como a tendência contrária prevalece, o laço social tece-se em práticas de projecção do «mal», da ameaça que incide nas relações humanas,« no país». Isso mesmo reactiva perversamente o laço social : queixamo-nos do «país», queixamo-nos do «outro» a cada um dos outros reais, que fazem o mesmo. A relação real neurótica que levaria ao conflito é projectada no imaginário, a realidade( dos outros)é desrealizada ( no outro). Assim se cria um plano sonhado a que corresponde um plano prático: o queixume delirante constitui também um modo de justificar todo o pragmatismo da sobrevivência, o não-cumprimento da lei, a irresponsabilidade, o «desenrasque» a esperteza na acção.”
(José Gil- Em busca da identidade. O desnorte)
Olhar o mundo à minha volta,
gostar dos que me são queridos,
usar, da melhor maneira, aquilo, que julgo saber...
quarta-feira, setembro 01, 2010
É a mão que percorre as linhas da frase...
(José Malhoa)
A Poesia
É uma luz que desce a escada do poema e
se senta à porta, esperando que o dia entre
para dentro da estrofe.
É uma voz que se encosta ao corrimão
da palavra, e sobe sílaba a sílaba até chegar
ao patamar do verso.
É o eco que nasce de um canto perdido
nos quintais do poema, e atrai pássaros
para dentro desta imagem.
É a mão que percorre as linhas da frase,
como se fossem linhas da vida, e decide
em cada cesura um ponto final.
Como se a poesia nascesse do silêncio, ou
um grito a empurrasse para a vibração
de um último eco.
(Nuno Júdice- Guia de Conceitos Básicos)
A Poesia
É uma luz que desce a escada do poema e
se senta à porta, esperando que o dia entre
para dentro da estrofe.
É uma voz que se encosta ao corrimão
da palavra, e sobe sílaba a sílaba até chegar
ao patamar do verso.
É o eco que nasce de um canto perdido
nos quintais do poema, e atrai pássaros
para dentro desta imagem.
É a mão que percorre as linhas da frase,
como se fossem linhas da vida, e decide
em cada cesura um ponto final.
Como se a poesia nascesse do silêncio, ou
um grito a empurrasse para a vibração
de um último eco.
(Nuno Júdice- Guia de Conceitos Básicos)
Olhar o mundo à minha volta,
gostar dos que me são queridos,
usar, da melhor maneira, aquilo, que julgo saber...
Subscrever:
Mensagens (Atom)







