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sábado, setembro 26, 2009

Fazia lembrar, talvez, o de Proserpina

(Rossetti)
Desci para confortar Emília.
Encontrei-a com o belo e agradável rosto. Fazia lembrar, talvez ,o de Proserpina de Dante Gabriel Rossetti- apoiado numa mão que segurava um lenço lilás; a mesma posição em que a tinha deixado horas antes. A nossa conversa não foi substancial. Declarou-me , isso sim, que o Doutor Cornejo tinha insistido em passar um bocado a sós com a morta.Emilia não tinha consentido.
Voltei ao hall. Cornejo, rigidamente sentado numa cadeira moderna, estudava, com óculos, lápis e papel, um copioso volume. Quando encontro alguém a ler, o meu primeiro impulso é tirar-lhe o livro das mãos. Proponho ao curioso o exame deste sentimento de atracção pelos livros ou impaciência por me ver deslocado do centro das atenções?Resignei-me a perguntar-lhe o que estava a ler.
- Um livro a sério- respondeu.-Um guia dos caminhos de ferro. Tenho estruturado na mente um plano do país ( limitado à rede ferroviária, naturalmente) que aspira a englobar as localidades mais insignificantes, com as suas respectivas distâncias e as horas de viagem...
- O senhor interessa-se pela quarta dimensão. O espaço-tempo- declarei.
Manning observou enigmaticamente:
- A literatura de evasão, diria eu.
Atuel olhava a janela. Chamou-nos. Por entre um lívido ciclone de areia vimos chegar o Rickenbacker. Pela primeira vez no dia, ri-me. Confesso-o: a comicidade da cena que se desenrolou com cinematográfica diligência era aflitiva. Do automóvel desceram uma, duas, três, quatro ...seis pessoas. Acotevelaram-se contra uma das portas traseiras do carro. Laboriosamente retiraram um objecto comprido e escuro. A lutar e esfalfados pelo vento, disformes, devido ao efeito do vidro nos nossos olhares oblíquos, a tactear, como se fosse de noite, tropeçando na areia, vi-os - com os olhos embaciados pelo choro e riso- aproximarem-se do hotel. Traziam o caixão.

(Silvina Ocampo & Adolfo Bioy Casares- Quem ama, odeia)

terça-feira, setembro 22, 2009

O edifício...pareceu-me...encravado na areia...

(Seurat)
Acordei na penumbra. Não sabia onde estava nem que horas eram. Fiz um esforço, como quem procura orientar-se. Lembrei-me: estava no meu quarto, no Hotel Central. Nessa altura, ouvi o mar.
Acendi a luz. Vi no meu cronógrafo - junto dos volumes de Chiron, de Kent, de Jahr, de Allen e de Hering, sobre a mesinha-de-cabeceira de pinho- que eram cinco da tarde. Pesadamente, comecei a vestir-me. Que descanso ver-me livre da rigorosa indumentária que os convencionalismos da vida urbana nos impõem! Como evadido da roupa, enfarpelei a minha camisa escocesa, umas calças de flanela, o meu casaco de linho cru, o amarrotado panamá, as velhas galochas amarelas e a bengala com punho de cabeça de cão. Baixei os olhos, com disfarçada satisfação examinei no espelho a minha alta testa de pensador, e concordei uma vez mais com tanto observador imparcial: a semelhança entre as minhas feições e as de Goethe é autêntica. Por outro lado, não sou um homem alto; para o dizer com um vocábulo sugestivo, sou baixote- os meus humores, as minhas reacções e os meus pensamentos não se extenuam nem se esgotam ao longo de uma dilatada geografia. Prezo-me de ter uma cabeleira agradável à vista e ao tacto, de possuir umas mãos pequenas e bonitas, de ser breve nos punhos, nos tornozelos, na cintura. Os meus pés, «frívolos viajantes», nem quando durmo descansam. A pele é branca e rosada; o apetite, perfeito.
Apressei-me. Queria aproveitar o primeiro dia de praia.
Como essas recordações de viagens que se apagam da memória e que depois encontramos no álbum de fotografias, no momento de aliviar as correias da minha mala vi-pela primeira vez?-as cenas da minha chegada ao hotel. O edifício branco e moderno, pareceu-me pitorescamente encravado na areia: como um navio no mar, ou um oásis no deserto. A falta de árvores estava compensada por umas manchas verdes caprichosamente distribuídas- dentes-de-leão, que pareciam avançar como um réptil múltiplo, e rumorosas estacas de tamargueira. Ao fundo da paisagem havia duas ou três casas e uma outra cabana.
Já não estava cansado. Senti como que um êxtase de júbilo. Eu, o doutor Humberto Huberman, tinha descoberto o paraíso do homem das letras. Nesta solidão, em dois meses de trabalho, concluiria a minha adaptação de Petrónio. E então..., um coração novo, um homem novo. Teria, finalmente, chegado a hora de procurar outros autores, de renovar o espírito.
Furtivamente avancei por escuros passadiços. (...)

(Silvina OCampo & Adolfo Bioy Casares- Quem ama, odeia)