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sexta-feira, maio 02, 2008

Nós também estamos a criar mitos...

(Aguarelas de Turner)
A tragédia da Grécia não está na destruição de uma grande cultura, mas no malogro de uma grande visão. Dizemos erradamente que os Gregos humanizaram os deuses. Foi exactamente o contrário. Os deuses humanizaram os Gregos. Houve um momento em que pareceu que o verdadeiro significado da vida tinha sido apreendido, um momento anelante em que o destino de toda a espécie humana esteve em perigo. O momento perdeu-se na fogueira do poder que tragou os inebriados Gregos. Eles fizeram mitologia de uma realidade que era demasiado grande para a sua compreensão humana. Nós esquecemos, no nosso encantamento com o mito, que ele nasceu da realidade e fundamentalmente não é diferente de nenhuma outra forma de criação, a não ser no facto de ter que ver com o próprio amâgo da vida. Nós também estamos a criar mitos, embora talvez não tenhamos consciência disso. Mas nos nossos mitos não há lugar para os deuses. Estamos a construir um mundo desumanizado, abstracto, sobre as cinzas de um materialismo ilusório. Estamos a provar a nós mesmos que o Universo é vazio, uma tarefa que é justificada pela nossa própria lógica vazia. Estamos determinados a conquistar, e conquistaremos, mas a conquista é a morte.(cont.)

(Henry Miller- O colosso de Maroussi)


terça-feira, abril 08, 2008

Um Minotauro!


(Aguarelas de Turner)
Os excursionistas, dispostos em semicírculo à volta dos dois interlocutores, ficaram a observá-los, enquanto esperavam. Finalmente, Baird virou-se para o grupo com os olhos a brilhar e um sorriso de incredulidade.
-Uma coisa que eu não sabia-declarou, sem saber se valeria ou não a pena traduzir na íntegra a sua conversa com o guia.-Ele diz que há um animal dentro do labirinto. Nunca ninguém o viu, mas ouvem-no mugir, e é provável que também nós o ouçamos.
- Um minotauro! disse Graecen, excitado.
-Extraordinário-disse Fearmax, aproximando-se para ouvir melhor o que Baird ia dizendo.-E como é que eles lhe chamam?
- O guia chama-lhe to thirzon - respondeu Baird.- O que quer dizer monstro, animal selvagem. É provável que seja um urso.
Não traduziu o resto da conversa. O guia dissera-lhe que uma vez fora encontrado um pastor ferido à entrada do labirinto. Entrara na galeria principal atrás de uma ovelha, e fora atacado, no escuro, por um animal. Sobre este último, nada mais fora capaz de dizer.
Todos os membros do grupo se encontravam munidos de lâmpadas eléctricas e, assim, Baird considerou que a expedição podia começar.
- Um minotauro- disse de novo Graecen, respirando o ar fresco da montanha. - Se o conseguíssemos capturar e levar para o Museu Britânico, seria um acontecimento.
- Bom, depois de todos estes avisos teremos de contar com a possibilidade de serem devorados vivos ou sepultados por um desmoronamento do rochedo. Ninguém sente a sua decisão fraquejar? Quem tiver medo, deverá dizê-lo agora ou calá-lo para sempre. - Com estas palavras e carregando todos os pertences, Campion abriu a porta do táxi mais próximo e entrou. Os outros seguiram-no.


(Lawrence Durrell- O Labirinto das Trevas)