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sábado, fevereiro 23, 2008

Como se o próprio dia as inclinasse...

                               (Sisley)
III

Quando em silêncio passas entre as folhas,
Uma ave renasce da sua morte
e agita as asas de repente;
tremem maduras todas as espigas
como se o próprio dia as inclinasse,
e gravemente, comedidas,
param as fontes a beber-te a face

(Eugénio de Andrade-As Mãos e os Frutos)

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

As imagens transbordam...


As imagens transbordam

 As imagens transbordam fugitivas
E estamos nus em frente às coisas vivas.
Que presença jamais pode cumprir
O impulso que há em nós, interminável,
De tudo ser e em cada flor florir
(Sophia de Mello Breyner )

sábado, janeiro 12, 2008

...Con un deber desconocido....

(Vallotton)

AMOR

Mi manera de amarte es sencilla:

te aprieto a mí

como si hubiera un poco de justicia en mi corazón

y yo te la pudiese dar con el cuerpo.


Cuando revuelvo tus cabellos

algo hermoso se forma entre mis manos.


Y casi no sé más. Yo sólo aspiro

a estar contigo en paz y a estar en paz

con un deber desconocido

que a veces pesa también en mi corazón.

(António Gamoneda)


sexta-feira, dezembro 21, 2007

É amor sem ontem nem amanhã..


No tempo que lhe foi dado viver, as pessoas serviam-se do corpo como de uma muralha impenetrável ao sentimento, uma arma frágil, corroída pelo pecado original, amesquinhada pelo pó da terra e pela rudeza dos instintos. Não se sabia nada sobre a química dos afectos nem sequer se suspeitava da existência de uma razão crítica universal que nos define e fortalece como seres humanos. Por isso se projectava o amor num céu futuro - um céu que já conquistámos, Sebastião, e que é feito de matéria estelar que compõe os nossos corpos. Há é pouca gente para dar por isso, ainda, porque o óbvio cega mais do que a cegueira.
O Brasil já conhece este amor; nele reside a sua espantosa energia. Este amor fino, generoso, que se respira em feliz inconsciência, nasce do convívio quotidiano com a morte e com a música, com a dança e o desaparecimento. É amor sem ontem nem amanhã, sem cálculos nem poupanças, instantaneamente eterno. Partilho-o no corpo do meu amante Emanuel e na gargalhada da minha amiga Clara, e nessa partilha o multiplico, de modo a que, se Clara e Emanuel desaparecerem amanhã debaixo de uma chuva de balas, do trovão de uma doença, ou do simples tédio da minha presença, eu possa prosseguir com ele dentro de mim.

(Inês Pedrosa - A Eternidade e o Desejo)

sexta-feira, novembro 30, 2007

Conheço-o pelo aroma...

(Aguarelas de Turner) Pôr do Sol na Baía

A Eternidade e o desejo, são duas coisas parecidas, que ambas retratam com a mesma figura. Os Egípcios nos seus Geroglíficos, e antes deles os Caldeus, para representar a Eternidade pintaram O: porque a figura circular não tem princípio, nem fim; e isto é ser eterno. O desejo ainda teve melhor pintor, que é a natureza. Todos os que desejam, se o afecto rompeu o silêncio e do coração passou à boca, o que pronunciam naturalmente é O.

Cesso de ver. Os espíritos desmoronam-se e eu regresso às minhas trevas. A música dos atabaques conduz-me, porém, para longe da angústia. Alguém pede licença para se sentar ao meu lado. Conheço-o pelo aroma, conheço-o quando lhe sinto a sua coxa encostada à minha, já o reconhecera quando a sua voz me diz boa noite, menina Clara. Emanuel. Sussurra-me que conhece a mãe-de-santo que me abraçou. Mãe Marianinha. Diz-me que ela quer falar comigo.
Que ela é, desde há muito tempo a sua guia espiritual, e está curiosa comigo. Curiosa? E porquê comigo? Emanuel murmura que lhe falou de mim. E que eu não vim à Bahia só atrás da talha dourada e das histórias de outros séculos. Diz-me que há muitas coisas debaixo do céu. Respondo-lhe que sim, que falarei com ela. Não aqui, não agora, cicia Emanuel. Depois. Noutra hora. Vira-me a palma da mão, põe-me qualquer coisa pegajosa e fria. Diz que é ebo, o alimento do orixá, milho branco cozido só com água, sem temperos. Diz-me que coma, que vai fazer-me bem. Como.(...)

(Inês Pedrosa- A Eternidade e o Desejo)


sábado, novembro 10, 2007

Cada coisa tem o seu fulgor...

(Miró)


CADA COISA

Cada coisa tem o seu fulgor,
a sua música.
Na laranja madura canta o sol,
na neve o melro azul.
Não só as coisas,
os próprios animais
brilham de uma luz acariciada;
quando o inverno
se aproxima dos seus olhos
a transparência das estrelas
torna-se fonte da sua respiração.
Só isso faz
com que durem ainda.
Assim o coração.

(Eugénio de Andrade)

quarta-feira, julho 25, 2007

A antítese de férias...


(Boudin) http://fr.wikipedia.org/wiki/Eug%C3%A8ne_Boudin

Já então havia praias assim...Não é disto que eu gosto.

domingo, julho 08, 2007

UM DOMINGO COM BERTOLT BRECHT



O Regar do Jardim


Ó regar do jardim , para animar a verdura!
Rega das árvores sedentas! Dá mais que o bastante
E não te esqueças dos arbustos, mesmo
Dos das bagas, dos cansados,
Dos avaros. E não me deixes passar
Entre as flores as ervas más que também
Têm sede. Nem regues só
A relva fresca ou a crestada:
Refresca também o chão despido.

Bertolt Brecht ( Poemas e Canções)

quarta-feira, julho 04, 2007

Ele é nós...

http://www.anadesousa.com/
O Nascimento do Prazer (trecho)

O prazer nascendo dói tanto no peito que se prefere sentir a habituada dor ao insólito prazer. A alegria verdadeira não tem explicação possível, não tem a possibilidade de ser compreendida - e se parece com o início de uma perdição irrecuperável. Esse fundir-se total é insuportavelmente bom - como se a morte fosse o nosso bem maior e final, só que não é a morte, é a vida incomensurável que chega a se parecer com a grandeza da morte. Deve-se deixar inundar pela alegria aos poucos - pois é a vida nascendo. E quem não tiver força, que antes cubra cada nervo com uma película protectora, com uma película de morte para poder tolerar a vida. Essa película pode consistir em qualquer ato formal protector, em qualquer silêncio ou em várias palavras sem sentido. Pois o prazer não é de se brincar com ele. Ele é nós.

(Clarice Lispector)

sábado, junho 23, 2007

O silêncio por detrás da retórica...



"É o silêncio que deves escutar

o silêncio por detrás das alusões, das elisões
o silêncio por detrás da retórica
o silêncio do que se chama a perfeição formal
Isto é a busca do não-sentido
até no próprio sentido
e reciprocament
e
Ora tudo o que com arte escrevo
justamente é sem arte
e todo o cheio é vão
Tudo o que escrevi
está escrito entre as linhas
"

Gunnar Ekelöf

Tradução de Vasco Graça Moura.

Enviado por Amélia Pais http://barcosflores.blogspot.com/
http://cristalina.multiply.com/

terça-feira, junho 19, 2007

O prazer profundo, inefável que é andar por estes campos desertos...




24 de Julho

O prazer profundo, inefável, que é andar por estes campos desertos e varridos pela ventania, subir uma encosta difícil e olhar lá de cima a paisagem negra, escalvada, despir a camisa para sentir directamente na pele agitação furiosa do ar, e depois compreender que não se pode fazer mais nada, as ervas secas, rente ao chão, estremecem, as nuvens roçam por um instante os cumes dos montes e afastam-se em direcção ao mar, e o espírito entra numa espécie de transe, cresce, dilata-se, não tarda que se instale de felicidade. Que mais resta, então, senão chorar?

José Saramago (Cadernos de Lanzarote)

terça-feira, maio 15, 2007

Uma esperança nova me impulsionará a seguir em frente...


Tenho reparado - e até agora não contei a ninguém- tenho reparado que de dia para dia, à medida que avanço para a improvável meta, do céu irradia uma luz insólita que nunca antes me aparecera, nem sequer em sonhos; e que as plantas, os montes, os rios que atravessamos parecem feitos de uma essência diferente dos da nossa terra e que o ar transporta presságios que não sei dizer.
Uma esperança nova me impulsionará a seguir em frente amanhã de manhã, na direcção daquelas montanhas inexploradas que as sombras da noite vão ocultando. Uma vez mais levantarei o acampamento, enquanto Domenico desaparecerá no horizonte do lado oposto, para levar à cidade tão longínqua a minha inútil mensagem.


Dino Buzzati (Os sete mensageiros)

quinta-feira, maio 10, 2007

Conhecer os instantes gomo a gomo....



(Rembrandt)

Sabedoria


gostava de saber dizer-te como se vem de longe
num pincel de rembrandt desde os lugares do junco
ou da selva ou da água ou só do norte e da neve

e nos sentamos aqui sob o azul dos plátanos: um
murmúrio incessante do mover das aves

suave é esta a sabedoria
conhecer os instantes gomo a gomo como um fruto
ainda verde a querer despontar iluminar-se e colhê-lo
breve nos nossos dedos inteiro

e sob a nossa voz a nossa boca o nosso olhar
não estar nenhum rumor nenhum silêncio nenhum gesto


de fascínio da monotonia, FAZER, publicações livres, 1982

(Francisco Manuel Viegas)

terça-feira, maio 08, 2007

As palavras amendoam o sorriso..


(Fernand Léger)

As palavras amendoam o sorriso, amado, amada

conversam e conversam, deitados lado a lado

depois, e devagar, maciamente
passam à pele absoluta do silêncio


(Isabel Cristina Martins)

in «À Porta de Nárvia», Caminho, Lisboa, 1995

quarta-feira, maio 02, 2007

Vinha diurna de dentro de si mesma...

(Ingres)

Feliz era a nudez. Vinha diurna
de dentro de si mesma. Porque o dia
ressumbrava recente desde a sua
novidade de pasmo. E de pupila
apta à evidência. E, por isso, arguta,
sem deduzir-se duma argúcia activa.
Onde fossem seus passos a espessura
entregava o seu fervor de enigma
para depois, se recolher. Ter junta
e pronta a ordem de nova epifania.
Era a nudez da inteligência. Abrupta
e, ao mesmo tempo, de precisão tão íntima
que até os recantos justos da penumbra
recrutavam a luz da perspectiva.

(Fernando Echavarria)

terça-feira, maio 01, 2007

Sabíamos do mar dos mapas, da cor azul do mar...


(G.Castello Lopes)

Sabíamos do mar sem o sabermos

Sabíamos do mar sem o sabermos,
do mar dos mapas, da cor azul do mar,
dos naufrágios no mar,
do sol solto no mar.

Sabíamos do mar sem o sentirmos
nos poros dilatados pelo mar,
o verdejante mar escalando as montanhas
tão bruscas como o sal.

Sabíamos do mar em sinuosos sinos
assinalando a noite
com corações arrepiados,
abertos como mãos
sulcadas de cabelos e molhadas
de rugas e escamas.

Sabíamos do mar em signos, símbolos,
tropos e metáforas.
Sabíamos do mar?
Sabíamos o mar.
Sabíamos a mar



António Rebordão Navarro
O Inverno
Poemas (1952 - 1982)
Imprensa Nacional Casa da Moeda

terça-feira, abril 24, 2007

Amoureux et savants dites qu´est-ce que l´homme?



Amoureux et savants

Amoureux et savants qui avez le génie
la patience et le goût d'approfondir la vie,
tout ce que nous pouvons et tout ce que nous sommes.
Amoureux et savants dites qu'est-ce que l'homme ?
Ce corps fait pour la faim et la soif et l'effort,
et le vieillissement, les frissons et la mort,
ou bien cet univers cette harmonie parfaite
dès que l'esprit l'éclaire et que l'âme s'y reflète.
Amoureux et savants dites qu'est-ce que l'homme ?
Nos pieds baignent dans l'eau mais la source est cachée,
il faut la chercher seul très haut sur les montagnes
comme le vrai amour au bout du sacrifice.
On a soif, on renonce, on boit là où l'on est,
on s'aime comme on peut, on échange ses vices,
ses jours de plénitude et ses années de vide,
on s'exerce au plaisir, jamais à la maîtrise,
on se couvre de vase et on s'idéalise,
les hommes d'un côté, les femmes de l'autre,
jamais vraiment uni, jamais vraiment sincère,
orgueilleux et bavards on meurt, on s'accompagne,
résonnant sur ce monde et résonnant sur l'autre,
on quitte cette vie ne l'ayant pas comprise
tout nu et à grand peine on entre et sort du temps,
et le plus amoureux comme le plus savant,
celui qui s'extasie, celui qui persévère,
après bien des années, après bien des souffrances,
sait reconnaître en tout le goût de la poussière,
mais parfois parmi nous un chant d'amour s'élève
qui guérit le malade et nous rend l'espérance,
le chant des incompris, la voix pourtant si claire
de ceux qui ont vécu, de ceux qui ont souffert
avec humilité, avec intelligence,
et un monde s'éveille où règne la lumière.
Monde où l'amour et l'eau sont d'une autre nature,
L'amour a la clarté des sources les plus pures
et l'eau comme l'amour donne donne la vie. (bis)


(Giani Esposito)

terça-feira, março 20, 2007

A grade da noite degelou...

(Briullov)


Agora é tempo
de novamente libertar os pássaros
A grade da noite degelou.
Brilha luz em todas as varetas
flui
desfaz-se.
Para o outro lado resvalam
claras vozes de crianças.
Algo cintilante e solto
flameja
foge.

Atravessa o vidro
deixa vestígios de luz no azul
já longe como se em retorno
o espaço alvo e claro.

(Alois Hergouht)

segunda-feira, março 12, 2007

Olha o céu e a sua verde tatuagem de estrelas...




ESCRITO COM TINTA VERDE

A tinta verde cria jardins, selvas, prados,
folhagens onde gorjeiam letras,
palavras que são árvores,
frases de verdes constelações.

Deixa que minhas palavras, ó branca, desçam e te cubram
como uma chuva de folhas a um campo de neve,
como a hera à estátua,
como a tinta a esta página.

Braços, cintura, colo, seios,
fronte pura como o mar,
nuca de bosque no outono,
dentes que mordem um talo de grama.

Teu corpo se constela de signos verdes,
renovos num corpo de árvore.
Não te importe tanta miúda cicatriz luminosa:
olha o céu e sua verde tatuagem de estrelas.

(Trad. Haroldo de Campos)

(Octavio Paz)

sábado, março 10, 2007

Era o mistério dos seios...

(Boticelli)


Quando foi que demorei os olhos
sobre os seios nascendo debaixo das blusas,
das raparigas que vinham, à tarde, brincar comigo?...
... Como nasci poeta,
devia ter sido muito antes que as mães se apercebecem disso
e fizessem mais largas as blusas para as suas meninas.
Quando, não sei ao certo.


Mas a história dos peitos, debaixo das blusas,
foi um grande mistério.
Tão grande
que eu corria até ao cansaço.
E jogava pedradas a coisas impossíveis de tocar,
como sejam os pássaros quando passam voando.
E desafiava,
sem razão aparente,
rapazes muito mais velhos e fortes!
E uma vez,
de cima de um telhado,
joguei uma pedrada tão certeira,
que levou o chapéu do senhor administrador!
Em toda a vila,
se falou, logo, num caso de política;
o senhor administrador
mandou vir, da cidade, uma pistola,
que mostrava, nos cafés, a quem a queria ver;
e os do partido contrário,
deixaram crescer o musgo nos telhados
com medo daquela raiva de tiros para o céu...


Tal era o mistério dos seios nascendo debaixo das blusas!

(Manuel da Fonseca)