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segunda-feira, setembro 29, 2008

Eu brincava debaixo da mesa...

(canal do Panamá)
Livros
Há livros que falam do canal do Panamá
Não sei o que dizem os catálogos das bibliotecas
E não ouço os diários das finanças
Embora os boletins da Bolsa sejam a nossa oração quotidiana

O Canal do Panamá está intimamente ligado à minha infância...
Eu brincava debaixo da mesa
Dissecava moscas
Minha mãe contava-me as aventuras dos seus sete irmãos
Dos meus tios
E quando recebia cartas
Deslumbramento!
Cartas com belos selos exóticos que trazem versos de Rimbaud no
exergo
Nesse dia já não me contava mais nada
E eu ficava triste debaixo da mesa.
Foi também por essa altura que li a história do tremor de terra de
Lisboa
Mas creio bem
Que a derrocada de Panamá é duma importância mais universal
Porque me perturbou a infância.

(Blaise Cendrars - Poesia em viagem)

terça-feira, setembro 09, 2008

que do passado guarda a ânsia nocturna das esperas...

(Cezanne)

A pequena cidade da infância
é, como um sonho, turva ainda sob
o céu- que do passado guarda a ânsia
nocturna das esperas-onde coube


toda a vida futura Não a soube
ela ver das estrelas na abundância
ardendo, tal aquele a quem alguém roube
o tempo por viver sem que a constância

dos dias o ignore Essas estrelas
como num sonho soltam-se perdidas
da constelação rápida que tinha

do tempo a forma Ó vã cidadezinha
antes de qualquer tempo sobre a vida
mataste o tempo que te come agora

Gastão Cruz (1941)
Crateras