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segunda-feira, março 17, 2008

O seu falar criava reverberações...

(Aguarelas de Turner) Delfos
Foi mais tarde, depois de ter regressado a Corfu e tomado bem o gosto à solidão que apreciei ainda mais o monólogo « katsimbalista».(*) Deitado nu, ao sol, numa saliência rochosa junto ao mar, fechava com frequência os olhos e tentava tecer de novo o padrão das suas conversas. Foi então que fiz a descoberta de que o seu falar criava reverberações, que o eco demorava muito tempo a chegar aos nossos ouvidos. Comecei a compará-lo ao falar francês em que estivera envolvido tanto tempo. Este assemelhava-se mais ao jogo de luz sobre um vaso de alabastro, em algo reflexivo, lépido, dançante, líquido, evanescente, ao passo que o outro, a linguagem katsimbalista, era opaco, nublado, prenhe de ressonâncias que só podiam ser compreendidas muito depois, quando as reverberações anunciavam a colisão com pensamentos, pessoas, objectos localizados em distantes partes da Terra. O francês ergue muros à volta do seu falar, como o faz à volta do seu jardim: põe limites em tudo, a fim de se sentir em casa. No fundo falta-lhe confiança no seu semelhante, é céptico porque não acredita na bondade inata dos seres humanos. Tornou-se realista porque isso é seguro e prático. O grego, por outro lado, é aventureiro: é ousado e adaptável, faz amigos com facilidade. Os muros que vemos na Grécia, quando não são de origem turca ou veneziana, remontam à idade ciclópica. Eu diria, por experiência própria, que não existe homem mais franco, acessível e fácil de lidar do que o grego. Torna-se imediatamente um amigo: vem ao nosso encontro. (...)

(Henry Miller-O Colosso de Maroussi)

(*)-referência a Katsimbalis, amigo grego que fascinou Henry Miller

quinta-feira, março 13, 2008

Em Kalami os dias corriam como uma canção...

(Boudin)
Em Kalami os dias corriam como uma canção. De vez em quando, escrevia uma carta ou tentava pintar uma aguarela. Havia muito que ler lá em casa, mas eu não sentia o mínimo desejo de olhar para um livro. Durrell tentou convencer-me a ler os Sonetos de Shakespeare e, após um cerco de aproximadamente uma semana, acabei por ler um, talvez o soneto mais misterioso que o bardo escreveu. (Creio que era «The Phoenix and the Turtle".) Pouco depois recebi pelo correio A Doutrina Secreta e a isso sim, atirei-me com gana. Reli também o Diário de Nijinski. Sei que voltarei a lê-lo mais vezes. Há apenas alguns livros que sou capaz de ler e reler: um é Mysteries e o
outro O Eterno Marido.Talvez devesse acrescentar também Alice no País das Maravilhas. Seja como for, era muito melhor passar os serões a conversar e a cantar, ou parado nos rochedos à beira da água a estudar as estrelas com um telescópio.
Quando a Condessa reapareceu em cena, convenceu-nos a passar alguns dias na sua propriedade noutra parte da ilha. Passámos juntos três dias maravilhosos e depois, no meio da noite, o exército grego foi mobilizado. A guerra ainda não tinha sido declarada, mas o apressado regresso do rei a Atenas foi interpretado por toda a gente como um sinal nefasto. Todos quantos dispunham dos meios necessários pareciam determinados a seguir o exemplo do monarca. A cidade de Corfu estava mergulhada em verdadeiro pânico. Durrell queria alistar-se no Exército grego para prestar serviço na fronteira albanesa; Spiro, que ultrapassara o limite de idade, também desejava oferecer os seus préstimos. Passaram alguns dias assim, cheios de gestos histéricos, e depois, como se tudo tivesse sido organizado por um empresário, encontrámo-nos todos à espera do barco para nos levar a Atenas. O barco deveria chegar às nove da manhã, mas
nós só embarcámos às quatro da manhã seguinte. Nessa altura, o cais estava cheio de uma indescritível confusão de bagagens sobre os quais os febris donos se sentavam ou estiraçavam, esforçando-se para parecerem despreocupados, quando na realidade tremiam de medo. A cena mais vergonhosa verificou-se quando lanchas entraram finalmente em acção. Como de costume, os ricos insistiam em embarcar primeiro. Em virtude de ter uma passagem de primeira classe, dei comigo entre os ricos. Sentia-me completamente enojado e com uma certa vontade de não embarcar, sequer, e regressar calmamente a casa de Durrell, e deixar as coisas seguirem o seu curso. Foi então que descobri que, mercê de qualquer singularidade miraculosa, afinal não embarcaríamos em primeiro lugar, mas sim em último. Toda a bela bagagem começou a ser retirada das lanchas e atirada de novo para o cais. O meu coração animou-se.(cont.)

(Henry Miller- O Colosso de Maroussi)

segunda-feira, março 10, 2008

E, subitamente, ela caminhava sozinha ao lado de um rio....


(Corot)
Eu nunca teria ido para a Grécia se não fosse uma rapariga chamada Betty Ryan que morava na mesma casa que eu em Paris. Uma noite,enquanto tomávamos um copo de vinho, ela começou a falar das suas experiências de viajar pelo mundo. Escutei-a sempre com grande atenção, não apenas porque as suas experiências eram estranhas, mas também porque quando falava das suas andanças ela parecia pintá-las: tudo quanto descrevia ficava na minha cabeça como telas acabadas de um mestre. Foi uma conversa peculiar a dessa noite: começámos por conversar a respeito da China e da língua chinesa, cujo estudo ela iniciara. Em breve estávamos no Norte África, no deserto, entre povos que nunca ouvira falar antes. E, subitamente, ela caminhava sozinha ao lado de um rio, a luz era intensa e eu seguia-a o melhor que podia sob o sol ofuscante, mas ela perdeu-se e dei comigo a vaguear numa terra estranha, ouvindo uma língua que nunca tinha escutado. Esta rapariga não é exactamente uma narradora de histórias, mas é uma artista de qualquer espécie, porque ninguém jamais me transmitira tão completamente a atmosfera de um lugar como ela me transmitiu a da Grécia. Muito depois, descobri que tinha sido perto de Olímpia que ela se perdera, e eu com ela, mas na altura tratava-se apenas da Grécia para mim, um mundo de luz como nunca sonhara nem esperara ver. (cont.)

(Henry Miller- O Colosso de Maroussi)