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quarta-feira, fevereiro 17, 2010

Havia tanta coisa a aprender...

                                                      
                                           (Picasso e Lumb)
Era a primeira vez em toda a sua vida que desfrutava da companhia de um animal. Em miúdo, os pais sempre se tinham oposto a que tivesse um animal de estimação. Gatos, tartarugas, periquitos, porquinhos-da-índia, peixinhos dourados-não, nem pensar, na casa dos Gurevitch não entravam bichos. O apartamento era demasiado pequeno, diziam eles; ou: animais em casa só trazem porcaria; ou: os bichos custam dinheiro; ou: Willy não era suficientemente responsável. Por conseguinte, até ao momento em que Mr.Bones entrou na sua vida, Willy nunca tivera a oportunidade de observar de perto o comportamento de um cão, e também nunca se dera ao trabalho de pensar muito no assunto. Para ele, os cães mais não eram do que vagas presenças, figuras imprecisas pairando no limiar da consciência. Evitava aqueles que lhe ladravam, fazia umas festinhas naqueles que o lambiam. Estes eram os limites da ciência canina de Willy. Subitamente, dois meses após o seu trigésimo  oitavo aniversário, tudo isso mudou.
Havia tanta coisa a aprender, tantas informações a assimilar, a decifrar, a entender, que Willy nem sabia por onde começar. A cauda a abanar em oposição à cauda entre as pernas. As orelhas espetadas em oposição às orelhas flácidas. O pôr-se de barriga para o ar, as corridas em círculos, as cheiradelas aos cus dos outros cães, e as rosnadelas,  os saltos género canguru e os rodopios no ar, o rastejar agachado como que à espreita da caça, os dentes arreganhados, a cabeça empinada e mais uma centena de pormenores, cada um deles a expressão de um pensamento, de um sentimento, de um plano, de um anseio. Willy achava que era com aprender a falar uma nova língua, como tropeçar numa tribo de homens primitivos há muito perdida e ter de decifrar os seus usos e costumes.

(Paul Auster- Timbuktu)

domingo, novembro 01, 2009

Alguma coisa ali já se tinha iniciado........



A minha intenção era só dar uma vista de olhos às crias, e depois ir para casa pensar com calma e ponderação se estava preparado para assumir a responsabilidade de ter um lobo, e por aí adiante. Mas quando vi as crias, soube logo que ia levar uma delas para casa-nesse mesmo dia. Na verdade não podia ter sido mais rápido a tirar o livro de cheques. E quando o criador disse que não aceitava cheques, não podia ter conduzido mais depressa para chegar ao Multibanco mais próximo.
Escolher a cria foi mais fácil do que eu pensava. Primeiro de tudo, eu queria um macho. Havia três. O macho maior- a maior de todas as crias, aliás-era um cinzendo, e eu tinha a certeza de que ia ser igualzinho ao pai. Já sabia o suficiente para perceber que aquele ia ser problemático. Completamente destemido, enérgico e a precisar de algumas rédeas. Com imagens do Blue a passarem-me diante dos olhos e, uma vez que  era este o meu primeiro lobo, achei melhor ser prudente. E assim escolhi a segunda maior cria da ninhada. Era castanho e a cor fazia-me lembra um leão recém-nascido. Por isso dei-lhe o nome de Brenin, que significa rei em galês. Sem dúvida teria ficado mortificado se soubesse que o seu nome vinha de um felino.
E de facto não se parecia de todo com um felino. Antes fazia lembrar uma daquelas crias, de cor acinzentada no Discovery Channel, a seguir a mãe pelo Parque nacional Denali, no Alasca. Com seis semanas, era castanho com manchas pretas, mas tinha um ventre creme que ia desde a ponta da cauda até à parte debaixo do focinho.E tal como um urso bebé, era encorpado: patas grandes, umas pernas largas e uma cabeça grande. Os olhos eram de um amarelo muito escuro, quase cor de mel- e isso foi uma coisa que nunca mudou. Não diria que era "meigo"- pelo menos não à maneira dos cachorrinhos. Não se podia dizer, nem com muita imaginação, que fosse um lobo caloroso, efusivo ou desejoso de agradar. Muito pelo contrário, a desconfiança era a sua principal característica - e,mais uma vez, isso foi uma coisa que não mudou, excepto em relação a mim. Estranho. Consigo lembrar-me destas coisas todas sobre Brenin, Yukon e Sitka. Lembro-me de pegar em Brenin e olhá-lo nos seus olhos de lobo amarelos. Lembro-me da sensação que tive ao agarrá-lo, do pelo macio de bebé nas minhas mãos. Consigo lembrar-me com nitidez de Yukon, erguido sobre as patas traseiras, a olhar para mim de cima , as grandes patas penduradas na porta do estábulo. Lembro-me claramente dos irmãos e irmãs de Brenim a correr em volta do redil, a caírem uns por cima dos outros, e voltando a pôr-se de pé num ápice , felizes da vida. Mas da pessoa que me vendeu Brenin não me lembro rigorosamente nada. Alguma coisa ali já se tinha iniciado; um processo que se tornou cada vez mais evidente à medida que os anos foram passando.

(Mark Rowlands- O filósofo e o lobo)