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terça-feira, novembro 10, 2009

A Morte é a companheira do Amor. Juntos regem o mundo.


 (...)
É possível- respondeu Freud, que a morte em si não seja uma necessidade biológica. Talvez morramos porque desejamos morrer. Tal como o amor e o ódio por uma pessoa habitam o nosso peito ao mesmo tempo, assim também toda a vida conjuga o desejo de se manter e um desejo ambivalente da sua própria destruição- Tal como um pequeno elástico esticado tende a assumir a sua forma original, assim também toda a matéria viva, consciente ou inconscientemente, anseia por recuperar a completa e absoluta inércia da existência inorgânica. A pulsão de vida e a pulsão de morte habitam lado a lado dentro de nós. A Morte é companheira do Amor. Juntos regem o mundo. É esta a mensagem do meu livro Para Além do Princípio do Prazer. No início a psicanálise supôs que o Amor tinha toda a importância. Hoje sabemos que a Morte é igualmente importante.(...)

(Entrevista dada por Freud a George Sylvester Viereck.)

quinta-feira, junho 25, 2009

A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo

(Valloton)

A maior solidão é a do ser que não ama

A maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a dor do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana.

A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo,
o que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro.

O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e ferir-se,
o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflete. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes de emoção, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto de sua fria e desolada torre.

(Vinicius de Morais)

sábado, setembro 13, 2008

Com filosofia não há árvores...

(Van Gogh)

Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio,
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores; há ideias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora:
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.

(Fernando Pessoa -Ficções do Interlúdio)

sexta-feira, junho 13, 2008

Têm dois ofícios...

(Magritte)

Notável criatura são os olhos! Admirável instrumento da natureza; prodigioso artifício da Providência! Eles são a primeira origem da culpa; eles são a primeira fonte da Graça. São os olhos duas víboras, metidas em duas covas, e que a tentação pôs o veneno, e a contrição e a triaga. São duas setas que o Demónio se arma para nos ferir e perder; e são dois escudos com que Deus depois de feridos nos repara para nos salvar.Todos os sentidos do homem têm um só ofício; só os olhos têm dois. O Ouvido ouve, o Gosto gosta, o Olfacto cheira, o Tacto apalpa, só os olhos têm dois ofícios: Ver e Chorar. Estes serão os dois pólos do nosso discurso.
Ninguém haverá( se tem entendimento) que não deseje saber por que ajuntou a Natureza no mesmo instrumento as lágrimas e a vista;e por que uniu na mesma potência o ofício de chorar, e o de ver? O ver é a acção mais alegre; o chorar a mais triste. Sem ver, como dizia Tobias, não há gosto, porque o sabor de todos os gostos é o ver; pelo contrário, o chorar é o estilado da dor, o sangue da alma, a tinta do coração, o fel da vida, o líquido do sentimento. Por que ajuntou logo a natureza nos mesmos olhos dois efeitos tão contrários, ver e chorar? A razão e a experiência é esta. Ajuntou a natureza a vista e as lágrimas, poque as lágrimas são a consequência da vista; ajuntou a Providência o chorar com o ver, porque o ver é a causa do chorar. Sabeis porque choram os olhos? Porque vêem.

(Padre António Vieira)

sexta-feira, março 07, 2008

Não sei qual dos dois escreve esta página....

(Magritte)
É ao outro, a Borges, que acontecem as coisas. Eu caminho por Buenos Aires e demoro-me, talvez já mecanicamente, a olhar o arco de um alpendre e o guarda-vento; de Borges tenho notícias pelo correio e vejo o seu nome num grupo de professores ou num dicionário biográfico. Gosto de relógios de areia, dos mapas, da tipografia do sec. XVIII, do sabor do café e da prosa de Stevenson; o outro compartilha dessas preferências, mas de um modo vaidoso, que as converte em atributos de um actor. Seria exagerado afirmar que as nossas relações são hostis; eu vivo, eu deixo-me viver, para que Borges possa tecer a sua literatura, e essa literatura justifica-me. Nada me custa confessar que conseguiu certas páginas válidas, mas essas páginas não me podem salvar, talvez porque o que é bom já não é de ninguém, nem sequer do outro, mas sim da linguagem ou da tradição. Além do mais, estou destinado a perder-me, definitivamente, e apenas algum instante meu poderá sobreviver ao outro. A pouco e pouco vou cedendo-lhe tudo, embora não desconheça o seu perverso costume de falsear e de magnificar. Spinoza entendeu que todas as coisas querem ser preservadas no seu ser; a pedra quer eternamente ser pedra e o tigre tigre. Eu hei-de ficar em Borges, não em mim (se é que sou alguém), mas reconheço-me menos nos seus livros que em muitos outros ou que no laborioso zangarreio de uma viola. Há anos procurei libertar-me dele e passei das mitologias do arrabalde ao jogos com o tempo e com o infinito, mas esses jogos são agora de Borges e terei de idealizar outras coisas, Assim a minha vida é uma fuga e perco tudo e tudo é do esquecimento ou do outro.
Não sei qual dos dois escreve esta página.

(Jorge Luis Borges- Poemas escolhidos)

terça-feira, fevereiro 26, 2008

Há já demasiados Narcisos....

                                          (Dali)

Há já demasiados Narcisos no mundo, demasiados desses seres tomados de amor por si mesmos. Estão perdidos se encontram complacência nos seus amigos. Persuadidos do seu mérito, repletos de uma ideia que lhes é cara, passam a vida a admirar-se. Que seria necessário para os curar de uma loucura que parece incurável? Bastaria fazer com que se apercebessem do pequeno número dos seus rivais; fazê-los sentir as suas fraquezas; pôr os seus vícios no ponto de vista que é necessário para que sejam vistos; ligarmo-nos a eles contra eles mesmos, falar-lhes com a simplicidade da verdade.(...)

(Montesquieu-Elogio da Sinceridade)

sábado, janeiro 19, 2008

Leve os sonhos a sério....


Hotel Terminus, Lobito, Angola.
16 de Março de 2007

(Ardência marítima)

Cheguei ontem a Benguela para visitar um amigo. Hospedei-me no Hotel Terminus, com o cândido propósito de recuperar memórias de infância. Não tive grande sucesso. Lembro-me apenas que naquela época o hotel era maior. O mundo, já se sabe, encolhe à medida que crescemos.
Fui à praia depois do jantar. Não havia ninguém. Estrelas brilhavam na límpida imensidão do firmamento. Consegui distinguir o Cruzeiro do Sul, e Vénus, a quem os antigos chamavam Lúcifer, a que carrega luz. Despi-me e entrei no mar- a água era lisa e tépida- com a sensação de que mergulhava na própria noite. No século XIII escrevia-se noyte. Digamos então que eu me senti mergulhar na noyte, sugado pelo vórtice escuro, e que fechei os olhos e que quando os reabri vi as estrelas a girar ao meu redor. Movia os braços e cada movimento parecia gerar um tumulto de estrelas. Conheço pessoas que passaram por esta experiência e entraram em pânico. Outras, em êxtase. Muitas falam em embriaguez, a maioria em sonho. O fenómeno é provocado por um pequeno organismo unicelular, a nocticula, capaz de emitir luminescência, e chama-se ardência marítima ou, no Sul de Portugal, agualusa. Fiquei muito tempo no mar, divertindo-me como um pequeno Deus inclemente, a criar e a desfazer constelações. Dei-me conta, ao sair, que havia uma esguia sombra de mulher estendida na cadeira ao lado da qual deixara a roupa. Reconheci-a assim que me aproximei: a Bailarina. Vestia um biquini preto, reduzido, com aplicações de missangas, ou outro material semelhante, que pareciam cintilar, vagamente, como pirilampos sob a pele escura. Sentei-me ao seu lado, em silêncio e dessa vez foi ela que falou primeiro.
- Leve os sonhos a sério- sussurrou. -Nada é tão verdadeiro que não mereça ser inventado.

(José Eduardo Agualusa- As Mulheres do meu pai )

sexta-feira, janeiro 11, 2008

A vida não é cinzenta nem cor-de-rosa...


(...) O que te disse o doutor Amândio?
- Ouça, nem sei se posso acreditar no que ele me contou. Disse-me...
-Eu sei o que ele te disse...
-Bem, também me disse que não tem com a verdade compromisso nenhum.
- Faz ele muito bem. A verdade é uma velha senhora chata, estúpida e inconveniente. Além de surda, surda como as portas, que as há bastante atentas, e olha que não são poucas, mas como Deus, a quem todos suplicam e que não houve ninguém.
Procuras a verdade tu?
- Acho que sim.
-E de que te serve conhecer a verdade?
- Não é uma questão de serventia. De que me serve a beleza das estrelas, por exemplo? Alegra-me a alma. Acho que a verdade tem alguma coisa a ver com a beleza.
- Não concordo contigo, filha. Há verdades muito feias. Algumas só trazem dor.
- Sim, há verdades que magoam. Mas talvez a dor seja necessária...
- Tu acreditas nisso?
-Tem razão, a dor é inútil. Podemos passar muito bem sem ela.
-Pois podemos!- Riu-se.- As flores não têm dentes.
-A senhora leu Breytenbach?
- Não fazes ideia das coisas que eu li. Supões que pelo facto de não haver uma única boa livraria aqui em Luanda, desde a independência, supões que por isso ficámos todos burros?
- Não, claro que não...
- Não? Pois devias supor, filha, ficámos mesmo. Eu tenho a sorte de ter bons amigos, em Lisboa, no Rio de Janeiro, em Paris, que me enviam livros. Mas voltemos à verdade, e ás suas armadilhas. A verdade é um recurso de quem não tem imaginação. A mentira, pode ser, além disso, de proveito geral. Com o engodo de uma mentira pesca-se uma carpa muito autêntica...
- Shakespeare?
- Certo, o velho Guilherme. Diz-me, gostas de histórias de amor?
- Gosto sim. Gosto muito. Gosto das boas estórias.
-Estou disposta a contar-te uma estória de amor, quero contar-te essa estória, embora não hoje. Hoje sinto-me cansada e a minha estória talvez seja um pouco longa. Fica para outro dia.
- E o que que tem essa história a ver com a verdade?
-Tudo, minha querida. É a vida verdadeira de Faustino Manso.
A demonstração de como há verdades pérfidas e mentiras benévolas. A vida não é cinzenta nem cor-de-rosa. Depende das lentes com que olhamos para ela.

(José Eduardo Agualusa-As Mulheres do meu pai)

segunda-feira, dezembro 24, 2007

Foi o medo...que os deuses inventou...


(Epigrama)

Foi o medo, no mundo, que os deuses inventou,
no momento em que os raios do céu se despenhavam,
que as chamas destruíam os montes e as cidades.
Cedo se fez de Febo, de oriente a ocidente,
o deus que ordena a terra; a Lua a mensageira
da renovada esp´rança; dos signos, sobre o orbe,
a sucessão dos meses no decurso do ano.
Crédulos lavradores, com infundada crença,
trataram de honrar Ceres levando-lhe primícias,
e de com vastas palmas engrinaldaram Baco.
Só falta para aqueles que o mundo vão vendendo
finalmente inventarem o deus da avareza.

Séneca (Fragmento 27,w I-9, 12-13.)

quinta-feira, novembro 29, 2007

Música Séria

(Aguarelas de Turner)
(Aguarelas de Turner)
(Aguarelas de Turner)



(Encontrar estes meninos grandes e sérios é VER, no lugar do lúdico, a luta pela vida...)

segunda-feira, novembro 26, 2007

Bahia - (quase) 360 graus...

(Aguarelas de Turner) Baía (do meu lado direito)
(Aguarelas de Turner) Baia IV
(Aguarelas de Turner) Baía III
(Aguarelas de Turner) Baía II
(Aguarelas de Turner) Baía (do meu lado esquerdo)

Olhar à distância a Baía( e todas as demais cidades...) é captar-lhe apenas a dimensão, a inserção geográfica na belíssima costa recortada, o maravilhoso Atlântico, a floresta de arranha-céus...Este é, contudo, um olhar bem incompleto, um olhar que não se dá conta dos violentos contrastes que povoam esta cidade e que são impossíveis de não nos acompanharem ao longo desta curta e breve estadia...
Assim, neste salto à Baía nunca deixei de ter presente as precárias condições de vida em que vive a maioria das gentes desta terra. É impossível não ver, é impossível esquecer!

A cidade em progresso

A cidade mudou. Partiu para o futuro
Entre semoventes abstratos
Transpondo na manhã o imarcescível muro
Da manhã na asa dos DC-4s

Comeu colinas, comeu templos, comeu mar
Fez-se empreiteira de pombais
De onde se vêem partir e para onde se vêem voltar
Pombas paraestatais.

Alargou os quadris na gravidez urbana
Teve desejos de cúmulos
Viu se povoarem seus latifúndios em Copacabana
De casa, e logo além, de túmulos.

E sorriu, apesar da arquitetura teuta
Do bélico Ministério
Como quem diz: Eu só sou a hermeneuta
Dos códices do mistério...

E com uma indignação quem sabe prematura
Fez erigir do chão
Os ritmos da superestrutura
De Lúcio, Niemeyer e Leão.

E estendeu ao sol as longas panturrilhas
De entontecente cor
Vendo o vento eriçar a epiderme das ilhas
Filhas do Governador.

Não cresceu? Cresceu muito! Em grandeza e miséria
Em graça e disenteria
Deu franquia especial à doença venérea
E à alta quinquilharia.

Tornou-se grande, sórdida, ó cidade
Do meu amor maior!
Deixa-me amar-te assim, na claridade
Vibrante de calor!


(Vinicius de Moraes- in "Poesia completa e prosa: "Poesias coligidas")

domingo, novembro 25, 2007

No fim de tarde, quando as luzes se acendiam....

Posted by Picasa
(Aguarelas de Turner)Baía


"Os jogadores de porrinha, de ronda, de sete-e-meio suspendiam as emocionantes partidas, desinteressados dos lucros, apatetados. Não era Berro d'Água o seu indiscutido chefe? Caía sobre eles a sombra da tarde como luto fechado. Nos bares, nos botequins, no balcão das vendas e armazéns, onde quer que se bebesse cachaça, imperou a tristeza e a consumação era por conta da perda irremediável. Quem sabia melhor beber do que ele, jamais completamente alterado, tanto mais lúcido e brilhante quanto mais aguardente emborcava? Capaz como ninguém de adivinhar a marca, a procedência das pingas mais diversas, conhecendo-lhes todas as nuanças de cor, de gosto e de perfume. Há quantos anos não tocava em água? Desde aquele dia em que passou a ser chamado Berro d'Água.

Não que seja fato memorável ou excitante história, mas vale a pena contar o caso, pois foi a partir desse distante dia que a alcunha de "berro d'água" incorporou-se definitivamente ao nome de Quincas. Entrara ele na venda de Lopez, simpático espanhol, na parte externa do mercado. Freguês habitual, conquistara o direito de servir-se sem auxílio do empregado. Sobre o balcão viu uma garrafa transbordando de límpida cachaça, transparente, perfeita. Encheu um copo, cuspiu para limpar a boca, virou-o de uma vez. E o berro inumano cortou a placidez da manhã no mercado, abalando o próprio Elevador Lacerda em seus profundos alicerces. O grito de um animal ferido de morte, de um homem traído e desgraçado:

- Águuuuua!

Imundo, asqueroso espanhol de má fama! Corria gente de todos os lados, alguém estava sendo com certeza assassinado, os fregueses da venda riam às gargalhadas. O "berro dágua" de Quincas logo se espalhou como anedota, do Mercado ao Pelourinho, do largo das Sete Portas ao Dique, da Calçada a Itapoã. Quincas Berro d'Água ficou ele sendo desde então, e Quitéria do Olho Arregalado, nos momentos de maior ternura, dizia-lhe "Berrito" por entre os dentes mordedores."

"Quando um homem morre, ele se reintegra em sua respeitabilidade mais autêntica, mesmo tendo cometido loucuras em sua vida. A morte apaga, com sua mão de ausência, as manchas do passado e a memória do morto fulge como diamante. Essa a tese da família, aplaudida por vizinhos e amigos. Segundo eles, Quincas Berro d'agua, ao morrer, voltara a ser aquele antigo e respeitável Joaquim Soares da Cunha, de boa família, exemplar funcionário da Mesa de Rendas Estadual, de passo medido, barba escanhoada, paletó negro de alpaca, pasta sob o braço, ouvido com respeito pelos vizinhos, opinando sobre o tempo e a política, jamais visto num botequim, de cachaça caseira e comedida."

"No fim da tarde, quando as luzes se acendiam na cidade e os homens abandonavam o trabalho, os quatro amigos mais intimos de Quincas Berro d'agua; Curió, Negro Pastinha, Cabo Martim e Pé-de-Vento, desciam a ladeira do Tabuão em caminho do quarto do morto. Deve-se dizer, a bem da verdade, que não estavam eles ainda bêbedos. Haviam tomado seus tragos, sem dúvida, na comoção da notícia, mas o vermelho dos olhos era devido às lágrimas derramadas, à dor sem medidas, e o mesmo pode-se afirmar da voz embargada e do passo vacilante. Como conservar-se completamente lúcido quando morre um amigo de tantos anos, o melhor dos companheiros, o mais completo vagabundo da Bahia?"

( A morte e a morte de Quincas Berro D'Agua- Amado, Jorge- Editora Record )


sexta-feira, novembro 09, 2007

Nada de especial...

(Aguarelas de Turner)

Que silêncio tão grande. No interior do silêncio mais silêncio e no interior do mais silêncio um relógio minúsculo a anunciar
- Já é tarde, já é tarde
de forma que nem reparamos nos ponteiros. Para quê se o relógio insiste
-Já é tarde, já é tarde
e nós a olharmos uns para os outros, inquietos
- O que diz o relógio?
apesar de termos ouvido perfeitamente a sua vozinha apressada, nós de súbito com medo
- Tarde?
e o que significa tarde meu Deus? o que pretende o relógio? Mesmo tapando as orelhas com as mãos a teimosia permanece
- Já é tarde
mesmo não escutando mais nada escutamos o
- Já é tarde
não sabemos se no relógio se no interior da gente, olhamos em volta, olhamos para dentro à procura, achamos episódios antigos, um triciclo, um avô a espantar-se
- O que tu cresceste
um colar de pérolas
(de quem?)
numa tacinha, achamos a nossa vida de hoje, o que fazemos com ela, dias atrás de dias, o supermercado, o jantar no restaurante aos domingos, a maçada das crianças às vezes e não era bem isto que nos apetecia, não era bem isto o que tínhamos desejado, falta qualquer coisa, onde é que errámos, o que falhámos, não somos infelizes mas também não temos o que secretamente ansiávamos, os anos vão passando
( - o que tu cresceste)
e não temos o que secretamente ansiávamos, de vez em quando momentos tão vazios, de vez em quando, mesmo no meio dos outros, uma solidão tão grande, um desamparo, uma sensação de queda, esta dificuldade em respirar, porque a mobília sufoca, que vem e desaparece e volta, de vez em quando, sem motivo, vontade de chorar, não lágrimas grandes, não soluços, uma coisa vaga, uma pergunta
E agora?
sem resposta, caras familiares que se tornam estranhas, se te abraçar continuo sozinho, o que se passa comigo, o que se passa connosco, o relógio prossegue
- Já é tarde
monótono, acusador, implacável, os objectos quietinhos sem nos ajudarem
- Porque não nos ajudam?
Nada nos ajuda, é tarde, tentamos conversar e é tarde, fazemos amor e é tarde apesar de termos feito amor na esperança que não seja tarde e depois, em lugar do prazer, ou misturado com o prazer, ou mais forte que o prazer, uma espécie de amargura que persiste, se não dilui, persiste, o
- E agora?
sem resposta aumenta, um
- E agora?
imenso, que horror, um
- E agora?
que nos preenche inteiros, se nos pegassem ao colo, fugissem connosco, nos garantissem
- Não é tarde ainda
e pudéssemos acreditar que não é tarde ainda, tranquilizar-nos afirmando
- Não é tarde ainda
embora cientes que mentimos
-Não é tarde ainda
e tornar a mentira verdade,que outra coisa fizemos para além de tentarmos transformar as mentiras em verdades, não há ninguém mais crédulo que um desesperado
- O que tu cresceste
e em que direcção cresci não dou por ter crescido, lá está o triciclo, lá está o avô, lá está o colar, os frascos de perfume que cheirávamos às escondidas, os cigarros que fumávamos secretamente no quintal, cresci para onde, cresci como, se nos metermos no carro, se almoçarmos fora, se te pegar na mão melhoramos e contudo
ficamos parados
a teimar no silêncio
(que silêncio tão grande)
- Já é tarde
e não é o relógio, somos nós
- Já é tarde
não noite ainda e contudo tão tarde, aproximamo-nos da janela, os prédios de costume na rua
(esperavas outros prédios, outro bairro?)
e tão tarde, ganas de apanhar aquele cinzeiro e quebrá-lo no chão, de que serve apanhar aquele cinzeiro e quebrá-lo no chão, no espelho a nossa cara
- O que tu cresceste
diferente, a nossa cara diferente, porquê diferente, porquê diferente, porquê diferente, porquê diferente, o que é isto nos olhos, o que é isto na boca a ecoar
-Tarde
todo o corpo a afirmar
-Tarde
e quando o
-Tarde
diminui o
E agora?
a dilatar-se nele, o
-E agora
imenso, sentamo-nos no sofá com uma revista, o jornal, um livro e as mãos vazias, apertamo-las uma na outra, espreitamos o triciclo, a certeza que se pedalássemos muito depressa não seria tarde, pedalar mais depressa que o relógio, os episódios antigos, aquela parente que nos oferecia rebuçados cujo papel não descolava e se prendia aos dentes, tentávamos retirar o papel com a unha e não saía, ainda nos lembramos do gosto do papel na língua, largamos a revista, o jornal, o livro, e ficamos no sofá, tanto tempo passado, com papel na língua, a mastigá-lo, a mastigá-lo, a mastigá-lo, no fundo da gente nós mesmos a acusarmo-nos
- Porque me tornaste nisto?
o silêncio aumentou tanto que o relógio se calou, uma palma no nosso ombro
- O que foi?
e construímos peça a peça um sorriso difícil
(custa tanto um sorriso)
que responde por nós
- Não foi nada.

(António Lobo Antunes) Crónica publicada no nº766(8 de Novembro 2007)revista Visão

terça-feira, novembro 06, 2007

A noite abria a frescura dos campos todos molhados...

(Vallotton)

NOITE

Húmido gosto de terra,
cheiro de pedra lavrada,
-tempo inseguro do tempo!-
sombra do flanco da serra,
nua e fria, sem mais nada.

Brilho de areias pisadas,
sabor de folhas mordidas,
-lábio da voz sem ventura!-
suspiro das madrugadas
sem coisas acontecidas.

A noite, abria a frescura
dos campos todos molhados,
- sozinha, com o seu perfume!-
preparando a flor mais pura
com ares de todos os lados

Bem que a vida estava quieta
Mas passava o pensamento...
- de onde vinha aquela música?
E era uma nuvem repleta,
entre as estrelas e o vento.

(Cecília Meireles) Viagem

quarta-feira, julho 18, 2007

E os olhos....não estão sem ver...

(Bazzile)



Silenciosa Música do Cosmos

As bocas que estão fechadas
não estão caladas

Os braços que estão caídos
não estão imóveis

E os olhos que estão voltados
não estão sem ver

Homem só homem só
tu bem me compreendes quando digo
que não estás só
e bem entendes bem entendes
este longo discurso enchendo o ar
que vem de toda a parte e vai a toda a parte
eternamente
em surdina

(Mário Dionísio)

quinta-feira, julho 12, 2007

A palavra nasceu...

(Ana de Sousa)

Metamorfoses da Palavra


A palavra nasceu:
nos lábios cintila.

Carícia ou aroma,
mal poisa nos dedos.

De ramo em ramo voa,
na luz se derrama.

A morte não existe:
tudo é canto ou chama.


(Eugénio de Andrade)

terça-feira, julho 10, 2007

Para ser grande, sê inteiro...


Ser Grande

Para ser grande, sê inteiro:

Nada teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa.

Põe quanto és

No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda brilha,

Porque alta vive.

(Fernando Pessoa)




segunda-feira, julho 02, 2007

Os pêssegos e as maçãs de Cézanne...


(Cézanne)


Enquanto for tempo


Os pêssegos e as maçãs de Cézanne
repousam no cesto do pão. Eu não
os olhei ainda o bastante. Distraído
por nada e por coisa nenhuma,
passo por eles de manhã e à
noite. Mas é como se eles não
existissem. Não aprendi ainda
a lição, a terrível lição: enquanto
for tempo de durar, dura; olha
enquanto for tempo de ver. Se
for tempo de estar, está. Sofre,
se for tempo de sofrer. E odeia
também, se te apetecer e for
preciso. Não descures os
minutos e os segundos, não
desprezes o infinitamente
pequeno, pois se te for concedido
o tempo hás-de arrepender-te.

João Camilo ( O som atinge o cimo das montanhas)

sexta-feira, junho 22, 2007

Coisas de terra são palavra...


A Árvore do Silêncio


Se a nossa voz crescesse, onde era a árvore?
Em que pontas, a corola do silêncio?
Coração já cansado, és raíz:
Uma ave te passe a outro país.

Coisas de terra são palavra:
Semeia o que calou.
Não faz sentido quem lavra
Se não colhe do que amou.

Assim, sílaba e folha, porque não
Num só ramo levá-las
Com a graça e o redondo de uma mão?

( Tu não te calas? Tu não te calas?!)

Vitorino Nemésio (5/08/1962)

sexta-feira, junho 08, 2007

Renascer é preciso...

(Botticelli)

Quando a Humanidade se rende homenagem a Rembrandt, se comove face ao etéreo da luz de Caravaggio, se confunde no escrutínio entre o dogma e a ficção e, do mesmo passo, se exalta nos mistérios do Código Da Vinci, caberia perguntar o porquê deste súbito fascínio pelo Renascimento. Uma pergunta que dispensa o regresso às raízes, ao humanismo racionalista de Erasmo, ao fanatismo panfletário de Lutero, aos escritos de Stendahl e Michelet, regeneradores de uma visão culturalmente identitária do Renascimento.
Porque a resposta só reside em nós e nesse prosaico mundo que nos rodeia: renascer é o anseio em emergir da obscuridade, de superar uma incerteza envolvente, de ganhar asas no vislumbrar de uma outra faceta da realidade, como se o globo fosse, afinal, um imenso cubo espelhado cujas multiplicidades reflectem um número variável-talvez infinito- de possibilidades.
Não se trata de um apelo à fantasia: ao contrário, a apologia da verdade, intemporal enquanto valor ético, converte-se hoje, em imperativo urgente.
Pois é essa mesma verdade, no desdobrar das suas facetas, que em si própria inculca o desafio à ideia de renascer, de reinventar, de reorganizar, de estimular, enfim, na volúpia do exercício de criar, a prodigalidade dessa matriz cromossomática com que a natureza dotou o Homem.
Vivemos um tempo de sombras, de abismos assustadores, de clivagens civilizacionais, de cismas mitificados.
E surpreendentemente, o que nessa amálgama nos parece atrair é a mórbida apetência para nos confundirmos com as trevas, ébrios de pessimismo, reféns de invejas, prisioneiros de derrotas antecipadas.
Até que, saciados de estéril miserabilismo, compreendemos, enfim, que em cada um de nós há ainda uma parcela de dádiva que nunca exercitámos, um subsídio escondido para uma ideia regeneradora, uma vontade esquecida para uma afirmação solidária.
Quem sabe se esse hodierno fascínio pelo Renascimento é, afinal, o sintoma dessa emergência, o despontar de uma nova tomada de consciência...
E que, tal como no Renascimento, esteja iminente o tempo em que floresça uma nova vontade de acreditar, uma renascida aspiração de criar um legado merecedor das gerações futuras.
Será sonho?
Talvez...
Mas outro dia, ao barbear-me ao espelho- creio que em 19 de Abril- confidenciou-me um senhor, já de certa idade: quando se sonha, há que sonhar grande!

Mário Assis Ferreira (in Egoista, Junho 2006-nº 27)