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terça-feira, agosto 30, 2011

As paixões são vibrações da alma...



David Hume, na sua Dissertação sobre as Paixões comparava a alma humana a um instrumento de cordas e não de sopro. Se ao cessar o sopro findava a música, tal não acontecia com o outro instrumento, cujas cordas continuavam a ressoar e a vibrar depois do toque inicial. Ora as paixões são vibrações na alma ocasionadas pelos movimentos do corpo. De tal modo  que podemos defini-las como uma intersecção entre o corpo e a alma, incapazes que somos de pensá-las sem indagar a forma como agitam o corpo e como são representadas ou figuradas pela razão. Mas a intersecção gera um espaço de ambiguidade que é consubstancial às paixões, daí a sua riqueza, rebeldia e distanciamento em relação à lógica pura.

(Blaise Pascal- Discurso sobre as paixões do amor)

domingo, setembro 05, 2010

Uma culpabilidade profunda incrusta-se em todo o seu ser..

“ O paranoico projecta para os exterior as suas pulsões, atribuindo-as a um objecto, tornando-se ele a vítima dos afectos hostis que emanam agora do objecto e recaem sobre ele: o seu ego tende a diminuir ou encolher. Se extrapolarmos para o caso português, o sujeito «vive-se»
como um zero social e pessoal, um falhado, e queixa-se de tudo e todos-
queixa-se do «país» nunca de si próprio. Abre-se aqui uma esquize, uma fenda no eu, porque ele pertence e não pertence ao «país». Uma culpabilidade profunda incrusta-se em todo o seu ser: culpabilidade por ser o que é, e o que não é, por tudo e por nada, pesada e difusa ao mesmo tempo.
O resultado da acção destas duas forças contraditórias forma um extraordinário sistema de impasses que aprisiona e molda a subjectividade. O eu dilatado tende a embater contra os outros eus que
também introjectaram o mundo – o que levaria a conflitos abertos entre os indivíduos e à erosão da coesão social. Mas como a tendência contrária prevalece, o laço social tece-se em práticas de projecção do «mal», da ameaça que incide nas relações humanas,« no país». Isso mesmo reactiva perversamente o laço social : queixamo-nos do «país», queixamo-nos do «outro» a cada um dos outros reais, que fazem o mesmo. A relação real neurótica que levaria ao conflito é projectada no imaginário, a realidade( dos outros)é desrealizada ( no outro). Assim se cria um plano sonhado a que corresponde um plano prático: o queixume delirante constitui também um modo de justificar todo o pragmatismo  da sobrevivência, o não-cumprimento da lei, a irresponsabilidade, o «desenrasque» a esperteza na acção.”

(José Gil- Em busca da identidade. O desnorte)

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

é a linguagem que traz ....ao aberto o ente....

(Dedoyard)
A linguagem, na sua representação mais corrente, é tida como um tipo de mediação. Serve para a conversação e para se chegar a acordo- para o entendimento em geral. Mas a linguagem não é apenas, nem primariamente, uma expressão sonora e escrita daquilo que há a comunicar. Não acontece que apenas veicule em palavras ou frases aquilo que é manifesto ou o que está oculto, (que seriam )o que assim se quer dizer; acontece, pelo contrário, que é a linguagem que traz, em primeiro lugar, ao aberto, o ente enquanto ente. Aí onde não está a ser nenhuma língua, como no ser da pedra, da planta ou do animal, não há também nenhuma abertura do ente e, por consequência, também não o há daquilo que não é e do vazio.
Como é a linguagem que nomeia pela primeira vez o ente, só esse nomear faz que o ente venha à palavra e apareça. Esse nomear designa o ente para o seu ser a partir deste. (...)

(Martin Heidegger- Caminhos de Floresta)

domingo, junho 03, 2007

UM DOMINGO COM MARTIN HEIDEGGER

(Borisov)
O que é a verdade? O desleixo com que nos abandonamos ao uso desta palavra fundamental mostra quão medíocre e desajustado o nosso saber acerca da essência da verdade. Por "verdade" entende-se, a maior parte das vezes, esta ou aquela verdade.Isso significa :algo de verdadeiro. Algo deste género pode ser um conhecimento que se exprime numa preposição. Porém, não é apenas uma preposição aquilo que dizemos ser verdadeiro, mas também dizemos de uma coisa-ouro verdadeiro, por oposição a ouro falso. Aqui , "verdadeiro" significa o mesmo que ouro autêntico, ouro que é efectivamente real. O que é que significa aqui o referir-se ao que é efectivamente real? Vale, para nós, como tal o ente que é verdadeiramente. O verdadeiro é o que corresponde ao efectivamente real, e o efectivamente real é o que é verdadeiramente. O círculo fechou-se de novo.

(Martin Heidegger-Caminhos da Floresta)

sexta-feira, março 02, 2007

A tirania exerce-se no âmago do indivíduo...


(Bacon)

(...)
Em vez da piedade, o que o autor do Elogio da Sinceridade reforça é a ideia que os homens vivem em comum para conseguirem a confiança mútua, devendo, afirma, dar a verdade uns aos outros.Mas, em vez disso, que fazem eles? Vivem escravos da necessidade de disfarçarem os sentimentos. Por conseguinte, a tirania exerce-se no âmago do indivíduo, quer dizer, transforma cada um em émulo de Naarciso, iludindo a sinceridade enquanto virtude básica da vida em comunidade. É deste modo que nos tornamos complacentes e fazemos disso um sistema de vida. Neste engano generalizado, onde se assume a baixeza e o fingimento como virtudes, enganamo-nos e felicitamo-nos, sob o pretexto de que isso é que todos fazem. Ao dizer que o exercício da sinceridade exige uma reinvenção da amizade, Montesquieu propõe uma reinvenção da ética, como se a liberdade ve a verdade residissem inteiras na força da sinceridade. A existir um eco qualquer na nossa vida, que seja um abrir do coração, e não uma aborrecida e monótona repetição do nosso narcisismo.

(José Manuel Heleno- "Abrir o coração"-posfácio do "Elogio da Sinceridade"-Montesquieu-ed.Fenda)

terça-feira, fevereiro 27, 2007

Como sabemos nós o que pensamos?


(Caravaggio)

(continuação)
No entanto, podem alguns pensar que não há coincidência consigo mesmo, nem tão pouco certeza sobre se estamos ou não a ser sinceros, pois a convicção de que sabemos algo acerca de nós é uma certeza vã, mais uma estratégia de defesa do que uma confição de pura inocência. Não é sem temor que se pode dizer:"Eu vou dizer o que penso". Todavia, como sabemos nós o que pensamos? De onde nos vem essa certeza? Da satisfação de si, critério supremo e único, embora frágil e susceptível de enganos e fingimentos. Afinal, há também crápulas que são sinceros, e não é difícil o mal se ter banalizado pela sinceridade de que faz alarde. Por outro lado, se ser sincero é acreditar na verdade do que se diz, é imprescindível averiguar a intencionalidade desse dizer. Somos sinceros em relação a quê? Ecomo podemos ser sinceros? Qual , enfim, o contexto que nos permite, ou nos exige ser sinceros?
Mas é a "loucura incurável" do narcisismo que nos impede de chegar à verdade. A confiar em Ovídio, o mito relaciona um cego que era vidente, Tirésias, com uma deusa,Eco, que foi castigada por ser tagarela e se apaixonou por Narciso.Tirésias previra que Narciso viveria longos anos se não se conhecesse a si mesmo,mas obcecado pela sua beleza o jovem deus acabou por sucumbir. É, assim perigoso conhecer-se a si mesmo - e podemos morrer por causa disso, deixando que o nosso "adeus" seja repetido por Eco, essa deusa triste, incapaz de dizer a primeira palavra. Ainda hoje, aqueles que são incapazes de dizer a primeira palavra são os que se apaixonam facilmente por Narciso.
A verdade é que o narcisismo tem um efeito indelével na forma como vivemos, pois não há vida em comum que não se degrade se não percebermos os sintomas dessa" loucura
incurável". (cont)

(José Manuel Heleno- "Abrir o coracão"- posfácio de "O Elogio da sinceridade"de Montesquieu)

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

O indivíduo sincero tem direito a sentir-se satisfeito consigo mesmo...




Ao lançar-nos in media res,sem discutir a noção filosófica de sinceridade, Montesquieu, no seu Elogio da Sinceridade, aceita a noção comum e interessa-se pelo valor dessa virtude na vida privada e na vida pública. O propósito é mostrar até que ponto se degradam as relações humanas e como mergulhamos compulsivamente no auto-engano se não tivermos a coragem de ser sinceros. Sabemos, no entanto,que ao interrogarmos o que é a sinceridade nos podemos enredar em questões filosóficas que o senso comum é hábil em evitar. Um critério possível, fundamento da nossa convicção, é a coincidência entre o que se intenta e o que se diz ou faz. O indivíduo sincero tem direito de sentir-se satisfeito consigo mesmo; tem direito a rejubilar pelo facto de haver uma coincidência qualquer no seu íntimo. Trata-se, portanto, de uma noção superlativa de verdade.(cont)

in "Abrir o coração"- José Manuel Heleno(posfácio do Elogio da Sinceridade- Montesquieu)