Retrocedendo de volta ao autocarro, parei numa aldeola para beber qualquer coisa. O contraste entre passado e presente era tremendo, como se o segredo da vida se tivesse perdido. (...)Não estou a pensar nos confortos que lhes faltavam, pois no respeitante a conforto não faço grande distinção entre a vida de um camponês grego, um coolie chinês e um trabalhador emigrante americano pau para toda a obra. No que estou a pensar agora é a falta daqueles elementos essenciais da vida que tornam possível uma genuína sociedade de seres humanos. A grande falta fundamental, que é evidente em toda a parte no nosso mundo civilizado, é a ausência total de alguma coisa parecida com uma existência comunal. Tornámo-nos nómadas espirituais; seja o que for que diga respeito à alma é desprezado, atirado de um lado para o outro pelos ventos como destroços e restos. A aldeia de Hagia Triada, vista de qualquer ponto do tempo, sobressai como uma pedra preciosa de coerência, integridade, sentido. Quando uma miserável aldeia grega, como aquela de que estou a a falar e de que temos milhares semelhantes na América, embeleza a sua mísera e imbecilizada vida com a adopção do telefone, rádio, automóvel, tractor, etc., o significado da palavra comunal torna-se fantasticamente deturpado que começamos a perguntarmo-nos o que se pretende dizer com a expressão «sociedade humana». Não há nada de humano nestas aglomerações esporádicas de seres; eles estão abaixo de qualquer nível de vida que este globo tenha conhecido. São menos, em todos os aspectos, do que os pigmeus, os quais são verdadeiramente nómadas e se movimentam em sórdida liberdade com deliciosa segurança.
(Henry Miller- O Colosso de Marroussi)
(Henry Miller- O Colosso de Marroussi)
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