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sexta-feira, abril 11, 2008

Notas de viagem- Adeus a Cnossos

(Aguarelas de Turner)
Retrocedendo de volta ao autocarro, parei numa aldeola para beber qualquer coisa. O contraste entre passado e presente era tremendo, como se o segredo da vida se tivesse perdido. (...)Não estou a pensar nos confortos que lhes faltavam, pois no respeitante a conforto não faço grande distinção entre a vida de um camponês grego, um coolie chinês e um trabalhador emigrante americano pau para toda a obra. No que estou a pensar agora é a falta daqueles elementos essenciais da vida que tornam possível uma genuína sociedade de seres humanos. A grande falta fundamental, que é evidente em toda a parte no nosso mundo civilizado, é a ausência total de alguma coisa parecida com uma existência comunal. Tornámo-nos nómadas espirituais; seja o que for que diga respeito à alma é desprezado, atirado de um lado para o outro pelos ventos como destroços e restos. A aldeia de Hagia Triada, vista de qualquer ponto do tempo, sobressai como uma pedra preciosa de coerência, integridade, sentido. Quando uma miserável aldeia grega, como aquela de que estou a a falar e de que temos milhares semelhantes na América, embeleza a sua mísera e imbecilizada vida com a adopção do telefone, rádio, automóvel, tractor, etc., o significado da palavra comunal torna-se fantasticamente deturpado que começamos a perguntarmo-nos o que se pretende dizer com a expressão «sociedade humana». Não há nada de humano nestas aglomerações esporádicas de seres; eles estão abaixo de qualquer nível de vida que este globo tenha conhecido. São menos, em todos os aspectos, do que os pigmeus, os quais são verdadeiramente nómadas e se movimentam em sórdida liberdade com deliciosa segurança.

(Henry Miller- O Colosso de Marroussi)

terça-feira, dezembro 04, 2007

Quero apenas ouvir a alegria das crianças...

(Aguarelas de Turner)
As trevas amadas, veneradas, e aplaudidas, como se foram luz, e a luz aborrecida, desestimada, e perseguida, como se fora trevas. Tal é, e tal costuma ser o juízo dos homens, ou seja por ignorância, ou por malícia. Mas que remédio terá a luz para não ser aborrecida de tal gente? Se é aborrecida porque veio ao mundo: Lux venit in mundum: vá-se do mundo e não será aborrecida. Assim o cuidava eu, e assim creio que bastará para com alguns homens, mas não para todos.

Referes-me que o mercado é muito colorido. Flutua um cheiro quente a especiarias e tabaco. Rolo de fumo, dizes-me tu.Faz-se com sobras de tabaco e melaço. Era o tabaco que os escravos fumavam, e era também uma das moedas usadas para a compra de escravos. Três rolos por um homem em bom estado. Uma voz brasileira de mulher, junto de nós, diz que dava até dez rolos para achar um homem, mesmo já usado. Calor humano, dizes tu. Cor local. Não te assustes, aconselhas-me tu. Não me conheces, Sebastião. O calor humano nunca me assustou. Gosto desta sensação de corpos que se acotovelam familiarmente, do bruá das vozes misturadas. Dás-me a provar um cigarro de rolo de fumo. É forte, saboroso. Compro um rolo para fumarmos mais tarde em honra da Bahia. Um cardume de pequenas mãos agarram-me a blusa:
- Tem caneta? Me dá caneta, minina.
Peço-te que me conduzas a uma lojeca onde possa comprar canetas e rebuçados para as crianças. Discordas, dizes que se dou a uns terei de dar a outros e nunca mais paro. Respondo-te que comprarei cinquenta esferográficas e dois sacos grandes de bombons, explico-te que não ficarei mais pobre por causa disso. Vais dizer-me que a caridade não resolve nada. Sebastião? Não respondes. Também não pretendo resolver nada, Sebastião. Quero apenas ouvir a alegria das crianças. Prazer meu, pequenino, egoísta, entendes? Gosto de dar. Gosto dessa palavra proscrita: caridade. Acresce que só no Brasil me tratam por menina. E por madama, Duas coisas que me ficam bem.(...)

(Inês Pedrosa- A Eternidade e o Desejo)