domingo, março 31, 2013

No fundo do mar há brancos pavores...

Addiragram. Creta


No fundo do mar há brancos pavores
Onde as plantas são animais
E os animais são flores

Mundo silencioso que não atinge
A agitação das ondas
Abrem-se rindo conchas redondas.
Baloiça o cavalo-marinho.
Um polvo avança
No desalinho.
Dos seus mil braços,
Uma flor dança,
Sem ruído vibram os espaços.

Sobre a areia o tempo poisa,
leve como um lenço.

Mas por mais bela que seja cada coisa
Tem um monstro em si suspenso.

(Sophia de Mello Breyner Andresen)

sexta-feira, março 29, 2013

À Memória de Torquato da Luz

Addiragram. O bote.


                        O bote

Não passa de um bote na margem do rio,
pachorrento e sereno,
sem ambições de ser navio
mas também sem traumas de ser pequeno.
E, no entanto, preso e abandonado,
decerto à espera de nos ver voltar,
parece ter mais calado
que algum paquete no alto mar.
Ou não estivesse ancorado
à poesia do lugar.

(Torquato da Luz)


 Um dia o seu blog deixou de publicar. Interroguei-me e escrevi-lhe. E veio a notícia. Estava a lutar com a doença que lhe tinha batido à porta, sem avisar. Todos os dias lá voltava perguntando-me se a tempestade já amainara e, um dia, a poesia voltou a cantar. Do lado de cá alegrei-me e disse para os meus botões: desta vez não será...Voltámos a ler-nos e a "visitar mo-nos" até que há pouco tempo senti que alguma coisa se passava. Fui ao blog, fui ao facebook...Nem sempre nos apetece escrever, dizia para me enganar. Hoje, subitamente, descobri o que não queria ver. Torquato tinha mesmo partido...
Por isso deixo aqui o poema com que, generosamente, um dia ilustrou uma fotografia minha.
Obrigada AMIGO por esta  nossa tão curta viagem.
Fica um beijo e um sorriso. 

sexta-feira, março 22, 2013

E por que não galgar sobre os telhados....

(Foto de Addiragram. O Tejo visto do Aqueduto)
Poema da Memória

 Havia no meu tempo um rio chamado Tejo
que se estendia ao Sol na linha do horizonte.
Ia de ponta a ponta, e aos seus olhos parecia
exactamente um espelho
porque, do que sabia,
só um espelho com isso se parecia.

De joelhos no banco, o busto inteiriçado,
só tinha olhos para o rio distante,
os olhos do animal embalsamado
mas vivo
na vítrea fixidez dos olhos penetrantes.
Diria o rio que havia no seu tempo
um recorte quadrado, ao longe, na linha do horizonte,
onde dois grandes olhos,
grandes e ávidos, fixos e pasmados,
o fitavam sem tréguas nem cansaço.
Eram dois olhos grandes,
olhos de bicho atento
que espera apenas por amor de esperar.

E por que não galgar sobre os telhados,
os telhados vermelhos
das casas baixas com varandas verdes
e nas varandas verdes, sardinheiras?
Ai se fosse o da história que voava
com asas grandes, grandes, flutuantes,
e poisava onde bem lhe apetecia,
e espreitava pelos vidros das janelas
das casas baixas com varandas verdes!
Ai que bom seria!
Espreitar não, que é feio,
mas ir até ao longe e tocar nele,
e nele ver os seus olhos repetidos,
grandes e húmidos, vorazes e inocentes.
Como seria bom!

Descaem-se-me as pálpebras e, com isso,
(tão simples isso)
não há olhos, nem rio, nem varandas, nem nada.

António Gedeão, in 'Poemas Póstumos'

quarta-feira, março 20, 2013

Abro mão da primavera...

(Foto de Addiragram. Delfos)
Quero apenas cinco coisas..
Primeiro é o amor sem fim
A segunda é ver o outono
A terceira é o grave inverno
Em quarto lugar o verão
A quinta coisa são teus olhos
Não quero dormir sem teus olhos.
Não quero ser... sem que me olhes.
Abro mão da primavera para que continues me olhando.

Pablo Neruda

segunda-feira, março 11, 2013

Para quê...para que servem os poetas em tempo de indigência?



   (foto Addiragram)

Para quê, perguntou ele, para que servem
Os poetas em tempo de indigência?
Dois séculos corridos sobre a hora
Em que foi escrita esta meia linha,
Não a hora do anjo, não: a hora
Em que o luar, no monte emudecido,
Fulgurou tão desesperadamente
Que uma antiga substância, essa beleza
Que podia tocar-se num recesso
Da poeirenta estrada, no terror
Das cadelas nocturnas, na contínua
Perturbação, morada da alegria;»

Hélia Correia (in Terceira Miséria)


sábado, março 09, 2013

Não consegue lembrar de quando começou....

    (Edvard Munch)

A Dor-tem um elemento de vazio-
Não consegue lembrar
De quando começou-ou se houve
Um tempo em que não existiu-

Não tem Futuro-para lá de si própria-
O seu Infinito contém
O seu Passado-iluminado para aperceber
Novas Épocas -de Dor.

Emily Dickinson, in "Poemas e cartas"( tradução de Nuno Júdice)

terça-feira, janeiro 01, 2013

Pode ser uma casa ou uma rede...das que têm malhas largas...


A minha saudade tem o mar aprisionado
na sua teia de datas e lugares.
É uma matéria vibrátil e nostálgica
que não consigo tocar sem receio,
porque queima os dedos,
porque fere os lábios,
porque dilacera os olhos.
E não me venham dizer que é inocente,
passiva e benigna porque não posso acreditar.
A minha saudade tem mulheres
agarradas ao pescoço dos que partem,
crianças a brincarem nos passeios,
amantes ocultando-se nas sebes,
soldados execrando guerras.
Pode ser uma casa ou uma rede
das que não prendem pássaros nem peixes,
das que têm malhas largas
para deixar passar o vento e a pressa
das ondas no corpo da areia.
Seria hipócrita se dissesse
que esta saudade não me vem à boca
com o sabor a fogo das coisas incumpridas.
Imagino-a distante e extinta, e contudo
cresce em mim como um distúrbio da paixão.


José Jorge Letria, in "A Metade Iluminada e Outros Poemas"

sábado, dezembro 22, 2012

Este Mar que levou na ressaca...

http://pam-patrimonioartesemuseus.com/m/photo/large?id=5497686%3APhoto%3A82943

O Mar. O mar novamente à minha porta.
Vi-o pela primeira vez nos olhos
da minha mãe, onda após onda,
perfeito e calmo, depois,

contra as falésias, já sem bridas.
Com ele nos braços, quanta,
quanta noite dormira,
ou ficara acordado ouvindo

seu coração de vidro bater no escuro,
até a estrela do pastor
atravessar a noite talhada a pique
sobre o meu peito.

Este mar, que de tão longe me chama,
que levou na ressaca, além dos meus navios?

(Eugénio de Andrade- Branco no Branco)

quinta-feira, dezembro 20, 2012

Natal de 2012


 Esta árvore foi encontrada acidentalmente numa missão abandonada e semi-destruida pela guerra e pelo abandono dos homens - MISSÃO DE BOROMA- perto de Tete. Achei-a como quem acha um tesouro. Olhei-a e, ainda hoje a olho, como símbolo da vitória da vida sobre a morte. É esta, pois, a Árvore de Natal que trago para todos. Mais do que nunca, a publicação desta fotografia, é para mim completamente oportuna. 
Somos hoje um pouco esta árvore, mas seremos também capazes de não nos deixarmos esmagar pela tirania económica e social que sobre nós se abateu.
 Deixem aqui as vossas mensagens  que tentarei dispor nos seus ramos mais delicados.

 Um Natal caloroso para todos os amigos que por aqui vão passando...


terça-feira, dezembro 04, 2012

Por isso a cada vulto os sentidos reagem...


                                 (Aivazovsky)


INSCRIÇÃO SOBRE AS ONDAS

Mal fora iniciada a secreta viagem
um deus me segredou que eu não iria só.

Por isso a cada vulto os sentidos reagem,
supondo ser a luz que deus me segredou.
 
 
 (David Mourão-Ferreira, in "A Secreta Viagem")