quinta-feira, fevereiro 13, 2014

Palavras que em ti já não existem...


UM FADO: Palavras minhas

Palavras que disseste e já não dizes,
palavras como um sol que me queimava,
olhos loucos de um vento que soprava
em olhos que eram meus, e mais felizes.

Palavras que disseste e que diziam
segredos que eram lentas madrugadas,
promessas imperfeitas, murmuradas
enquanto os nossos beijos permitiam.

Palavras que dizias, sem sentido,
sem as quereres, mas só porque eram elas
que traziam a calma das estrelas
à noite que assomava ao meu ouvido...

Palavras que não dizes, nem são tuas,
que morreram, que em ti já não existem
-que são minhas, só minhas, pois persistem
na memória que arrasto pelas ruas.


Pedro Támen

domingo, janeiro 05, 2014

Que desejo vale o ensejo?




O tempo que eu hei sonhado
Quantos anos foi de vida!
Ah, quanto do meu passado
Foi só a vida mentida
De um futuro imaginado! 

Aqui à beira do rio
Sossego sem ter razão.
Este seu correr vazio
Figura, anónimo e frio,
A vida vivida em vão. 

A sprança que pouco alcança!
Que desejo vale o ensejo?
E uma bola de criança
Sobre mais que minha sprança,
Rola mais que o meu desejo. 

Ondas do rio, tão leves
Que não sois ondas sequer,
Horas, dias, anos, breves
Passam - verduras ou neves
Que o mesmo sol faz morrer. 

Gastei tudo que não tinha.
Sou mais velho do que sou.
A ilusão, que me mantinha,
Só no palco era rainha:
Despiu-se, e o reino acabou. 

Leve som das águas lentas,
Gulosas da margem ida,
Que lembranças sonolentas
De esperanças nevoentas!
Que sonhos o sonho e a vida! 

Que fiz de mim? Encontrei-me
Quando estava já perdido.
Impaciente deixei-me
Como a um louco que teime
No que lhe foi desmentido. 

Som morto das águas mansas
Que correm por ter que ser,
Leva não só lembranças,
Mas as mortas esperanças -
Mortas, porque hão-de morrer. 

Sou já o morto futuro.
Só um sonho me liga a mim -
O sonho atrasado e obscuro
Do que eu devera ser - muro
Do meu deserto jardim. 
Ondas passadas, levai-me
Para o alvido do mar!
Ao que não serei legai-me,
Que cerquei com um andaime
A casa por fabricar. 

(Fernando Pessoa)

quarta-feira, janeiro 01, 2014

A noite, o dia, cartas de um baralho...


(Hopper)

Sonetos de Shakespeare reescritos em português
 
Como voltar feliz ao meu trabalho
se a noite não deu nenhum sossego?
A noite, o dia, cartas de um baralho
sempre trocadas neste jogo cego
Eles dois, inimigos de mãos dadas,
me torturam, envolvem no seu cêrco
de fadiga, de dúbias madrugadas:
e tu, quanto mais sofro mais te perco.
Digo ao dia que brilhas para ele,
que desfazes as nuvens do seu rosto;
digo à noite sem estrelas que és o mel
na sua pele escura: o oiro, o gosto.
Mas dia a dia alonga-se a jornada
e cada noite é noite mais fechada.

(Carlos de Oliveira)
 

terça-feira, dezembro 31, 2013

Poema para o Novo Ano














DESINFERNO II

Caísse a montanha e de oiro o brilho
O meigo jardim abolisse a flor
A mãe desmoesse as carnes do filho
Por botão de vídeo se fizesse amor

O livro morresse, a obra parasse
Soasse a granizo o que era alegria
A porta do ar se calafetasse
Que eu de amor apenas ressuscitaria

(Luiza Neto Jorge)

domingo, novembro 10, 2013

A natureza revolucionária da felicidade...

(Turner)
    
A Natureza revolucionária da felicidade

                  Quem deixou sobre o coração
                            Um feixe de luz
                            Não cega nunca

(valter hugo mãe)


                             
 

domingo, novembro 03, 2013

Os loucos, os fantasmas somos nós...

     (Magritte)
                                            Perfilados de medo, agradecemos
                              o medo que nos salva da loucura.
                              Decisão e coragem valem menos
                              e a vida sem viver é mais segura.

                              Aventureiros já sem aventura,
                              perfilados de medo combatemos
                              irónicos fantasmas à procura
                              do que não fomos, do que não seremos.

                             Perfilados de medo, sem mais voz,
                             o coração nos dentes oprimido,
                             os loucos, os fantasmas somos nós.

                             Rebanho pelo medo perseguido,
                             já vivemos tão juntos e tão sós
                             que da vida perdemos o sentido...

                   (Alexandre O' Neill)


                    

terça-feira, outubro 29, 2013

É dentro de ti que toda a música é ave..




               (Redon)
      
Encostas a face à melancolia e nem sequer
ouves o rouxinol. Ou é a cotovia? Suportas mal o ar, dividido
entre a fidelidade que deves

à terra da tua mãe e ao quase branco
azul onde a ave se perde.
A música, chamemos-lhe assim,
foi sempre a tua ferida, mas também

foi sobre as dunas a exaltação.
Não ouças o rouxinol. Ou a cotovia.
É dentro de ti 
que toda a música é ave.


(Eugénio de Andrade)


sexta-feira, outubro 25, 2013

Que importam pontes..



                                              
                                Que importam pontes 
                                imponderáveis
                                unindo sombras
                                galgando escarpas
                                compondo um todo
                                articulado
                                de ombros com ombros
                                braços com braços


                               se vem a noite
                               enregelar-nos
                               pôr-nos defronte
                               desta verdade
                               de nem as pontes
                               recuperarem
                               braços sem ombros
                               ombros sem braços

(David Mourão-Ferreira)


                         

quinta-feira, outubro 24, 2013

O Aguarelas era assim...há oito anos..

          (Cassat)



O Aguarelas de Turner era assim há oito anos. 


A recordação traz consigo sentimentos antagónicos que nos confrontam inevitavelmente com a perda. Há uma dor associada a um tempo que jamais voltará a ser percorrido. 
Resta o mel do encanto inicial com que começámos. "Malgrè tout" apeteceu-me percorrer os traços desse passado, através dos quais, fui fazendo conhecidos e amigos, com os quais fui partilhando ideias, afectos e diferentes saberes. 
Evoco aqui, com muita saudade, dois deles que entretanto, partiram: Amélia Pais e Torquato da Luz, que trouxeram a este canto tantos momentos de plena de generosidade.
Um dia destes virá em que o Aguarelas chegará ao seu termo. Não poderei  nunca deixar de estar grata a todos aqueles com quem me cruzei neste espaço virtual. 


segunda-feira, outubro 21, 2013

Presos ao apagar do mesmo pavio...



 Eléctrico
XLII

E se eu de súbito gritasse
nesta voz de lágrimas sem face!:

Eh! companheiros da plataforma
presos ao apagar do mesmo pavio!
Porque não nos amamos uns aos outros
e damos as mãos
- sim as nossas mãos
onde apodrecem aranhas de bafio?

Eh! companheiros da plataforma
(Não empurrem Irmãos.)

(José Gomes Ferreira)