sexta-feira, outubro 18, 2013

o grito que em tristeza cai lá fora...

                        (Edvard Munch)
           
                                                            O grito que se solta      
                                        espaço a espaço

                                       que se afunda
                                       mole e aderente

                                       que se adivinha
                                       curvo e apertado

                                       que é atmosfera
                                       inconsistente

                                       o grito que se insinua
                                       pela tarde

                                       se insinua mudo
                                       incoerente

                                       no vértice do mar
                                       no espelho em face

                                      na face que recorda
                                      e se pressente

                                     o grito que se sabe antigo
                                      imenso

                                      que ao sol se alastra
                                       levemente


                                       e levemente oscila
                                       e se contorna
                                       assim e devagar 
                                       serenamente

                                       serenamente finge
                                       e ignora

                                      serenamente nu

                                      serenamente

                                     o grito que em tristeza
                                     cai lá fora
                                     no espaço que da chuva se
                                    desprende.

(Maria Teresa Horta-Amor Habitado)  
                                                        
                                     
                                                              


                            

quinta-feira, outubro 17, 2013

Esse é que é o segredo..



Onde estão os meus Presentes?


Os melhores presentes são os inesperados. Têm de ser bons mas, graças à surpresa, podem não ser tão bons como os esperados.
Dizemos: "É só uma lembrança" e pensamos que estamos a ser hipócritas, porque não é possível esquecer a obrigação horrível de dar presentes. Achamos que dizer: É só uma lembrança" é a tradução exacta de "Desculpa lá, não tenho dinheiro para te comprar um presente melhor; contenta-te com isto, que já tens sorte; o que é que compraste para mim?"
No entanto, a lembrança é uma bela palavra. Não é souvenir ou recuerdo. Não significa só: "Não me esqueci de ti". A lembrança é o acto de lembrar, no sentido mais espontâneo, sem obrigação ou vontade.
A minha Mãe sabe dar presentes. Quando dá diz sempre: " Eu estava na loja tal, vi este não-sei-quê e lembrei-me logo de ti. Tive de comprar para te dar, claro".
Em inglês, o sentido é mais nítido: aquela coisa: remind me of you. Foi o próprio objecto que lhe fez um favor: trouxe-lhe à memória uma pessoa amada. A única maneira de retribuir essa amabilidade é comprando-o. E oferecendo-o à pessoa que faz lembrar. Não porque nos lembrámos dela mas porque trazíamos esquecida aquela pessoa e aquela coisa lembrou-nos quanto a amávamos- e o prazer que deu lembrarmo-nos dela.
(...)
Amar alguém é não poder passar sem ela. Como dependemos dessa pessoa e queremos que ela dependa de nós, oferecemos (ou não oferecemos) presentes que reforçam a dependência e desencorajam a autonomia. Quem ama oferece lembranças: objectos que revelam quanto se conhece e quantas coisas nos fazem lembrar a pessoa amada.
As bilionárias oferecem jóias aos toy boys e os bilionários oferecem iates às amantes porque são convertíveis em cash. Oferecem autonomia. Oferecem o poderes viver sem mim. Tão pouco mostra amor estar muito tempo a pensar no presente que se vai dar a uma pessoa, para que se adeque à sua personalidade. Esse trabalho podemos nós encomendar a outra pessoa.
(...)
Mas o amor não é assim que funciona. Amar é não poder abrir uma revista ou ler um livro ou dar um passeio sem se estar sempre a se interrompido por associações de coisas e experiências à pessoa amada: "Tenho de lhe contar, tenho de lhe dar, quero saber o que pensaria, que pena não poder ver..."
A verdade é que não são interrupções. Nós já estávamos a pensar nela. Mesmo que não à superfície. Esse é que é o segredo. Aquelas coisas apenas nos chama a atenção porque nos permitem trazer a pessoa amada à superfície, para a nossa frente.
Este serviço, escusado será dizer, nenhuma empresa consegue oferecer. Quando se trata de comprar presentes para as pessoas que amamos, nós temos essa vantagem gigantesca. É verdade que nos parece sempre pouco e que essa sensação de não ter conseguido  dar muito mais- tudo o que se queria dar- faz sofrer. E não é pouco.
Mas não sofre, senão de comoção, a pessoa que recebe o que lhe damos. Não é "só uma lembrança": É uma verdadeira lembrança. É só um dos muitos incidentes de associação. Uma das coisas que faz quem nos ama é ser capaz de enumerar e descrever ao pormenor todos os outros presentes em que se pensou, onde os viu, no que se pensou em cada altura, tudo.
"Era para te comprar...mas depois não sabia...e só havia aquele tamanho...e depois entrei na loja X e vi um não sei-quantos-lindo-de-morrer mas custava..."
Estas récitas que parecem uma sequência de compras frustradas são muito mais do que isso: são declarações de amor. Mostram como nos sentimos pequenos diante da pessoa amada, incapazes de igualá-la ou representá-la num simples presente.
(...)
Está certo que seja assim: os presentes, entre pessoas que se amam, não dependem do dinheiro que se gaste neles.Dependem do amor. E são sempre bem escolhidos porque foram dificeis de escolher, com a dificuldade que só custa a quem ama.
Já os outros presentes, que não tenham essa ajudinha, é outra questão. Nesses casos, o melhor presente é o dinheiro. Vivo. E quanto mais, melhor. Para nós gastarmos conforme nos apetecer. Sem chatices, vales e com trocas.
Há que ser frio- ou muito quentinho- nestas coisas.

(Miguel Esteves Cardoso -Como é linda a puta da vida)


quarta-feira, setembro 18, 2013

O poema é o que no homem para lá do homem se atreve...

     (Turner-Aurora)
O poema não é o canto
que do grilo para a rosa cresce.
O poema é o grilo
é a rosa
e é aquilo que cresce.

É o pensamento que exclui
uma determinação
na fonte donde ele flui
e naquilo que descreve.
O poema é o que no homem
para lá do homem se atreve.

Os acontecimentos são pedras
e a poesia transcendê-las
na já longínqua noção
de descrevê-las.

E essa própria noção é só
uma saudade que se desvanece
na poesia. Pura intenção
de cantar o que não conhece.

Natália Correia, in "Poemas (1955)"

quinta-feira, agosto 22, 2013

Murmurei-a a uma cisterna de turvas águas antigas...

A palavra que te disse,
talvez por ser tão pequena,
em tais desprezos perdeu-se
que não deixou nem pena.

Murmurei-a a uma cisterna
de turvas águas antigas
e foi-se de cova em cova
em múltiplas cantigas.

Amadores deste mundo,
nas águas vosso amor ponde;
que elas vos darão resposta,
quando ninguém responde


 Cecília Meireles in ' Retrato Natural'

sábado, julho 20, 2013

E é por elas que subo lentamente cada monte...

                  (Magritte)                   
    
 A segurança destas paralelas
— a beira da varanda e o horizonte;
assim me pacifico, e é por elas
que subo lentamente cada monte.

O tempo arrefecido, e só soprado
por uma brisa tarda que do mar
torna este minuto leve aconchegado,
traz mansas as certezas de se estar.

E vêm novos nomes: são as fadas,
gigantes e anões, que são assim
alegres de o serem — parcos nadas

que enchendo de silêncios este sim
dele fazem brinquedos, madrugadas...
Agora eu estou em ti e tu em mim.

Pedro Tamen, in “Tábua das Matérias” 

terça-feira, junho 25, 2013

O verão que perdemos...



                            O Verão Novo



                 O verão que perdemos
                 não poderá fazer-nos
                 perder o verão novo

                Há-de voltar o corpo
                e o mar será o mundo
                revolto que já foi

              O outono o inverno
              serão se nós quisermos
              o verão que perdemos


          ( Gastão Cruz)

            

sábado, junho 15, 2013

O Poema...

   (Monet)


Reflexo


Como um lago o poema
não repete reflecte

Gastão Cruz- As Pedras Negras

domingo, junho 02, 2013

Não sei o que dizer...


Não sei como dizer-te que minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e vasta.
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. Quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
— eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.
Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a casa ardesse pousada na noite.
— E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
— não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.

(Herberto Helder)

domingo, maio 05, 2013

Aninha-me em teu colo como outrora...

                                William-Adolphe Bouguereau 

 Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
Tenho medo da vida, minha mãe.
Canta a doce cantiga que cantavas
Quando eu corria doido ao teu regaço
Com medo dos fantasmas do telhado.
Nina o meu sono cheio de inquietude
Batendo de levinho no meu braço
Que estou com muito medo, minha mãe.
Repousa a luz amiga dos teus olhos
Nos meus olhos sem luz e sem repouso
Dize à dor que me espera eternamente
Para ir embora.  Expulsa a angústia imensa
Do meu ser que não quer e que não pode
Dá-me um beijo na fonte dolorida
Que ela arde de febre, minha mãe.

Aninha-me em teu colo como outrora
Dize-me bem baixo assim: — Filho, não temas
Dorme em sossego, que tua mãe não dorme.
Dorme. Os que de há muito te esperavam
Cansados já se foram para longe.
Perto de ti está tua mãezinha
Teu irmão. que o estudo adormeceu
Tuas irmãs pisando de levinho
Para não despertar o sono teu.
Dorme, meu filho, dorme no meu peito
Sonha a felicidade. Velo eu

Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
Me apavora a renúncia. Dize que eu fique
Afugenta este espaço que me prende
Afugenta o infinito que me chama
Que eu estou com muito medo, minha mãe. 

Vinicius de Moraes

quinta-feira, maio 02, 2013

Pernoito na precária vida do fogo...

(Addiragram-Faial)
   
Os Barcos são a imagem que resta para fugir
mas só as palavras nos embriagam
são labareda que devora os barcos e a memória
onde nos movíamos
esquecemos o que nos ensinaram
e se por acaso abríssemos os olhos
um para o outro
encontraríamos outra imobilidade outro abismo
outro corpo hirto
latejando na imperceptível ferida nocturna

pernoito na precária vida do fogo
este rumor de mãos ao de leve pelo corpo
adormecido na superfície do espelho
assalta-me o desejo incerto de te acordar
e o medo de querer de novo tudo reinventar

(Al Berto - Vigílias)