quinta-feira, julho 30, 2009

Pode-se influenciar com o odor, atrair, rejeitar ou evocar...

 (Imogen Cunnigham)
A única substância que se transmite entre dois organismos e que poderia corresponder à materialidade do fluído animal, é o olfacto. Ora, os animais servem-se dele dentro de um esquema muito simples: atrair ou rejeitar. Essa transmissão de matéria entre dois organismos põe o outro em movimento, o que é o contrário do efeito hipnótico,que, no mundo vivo, visa imobilizar.
Também no homem o odor é uma transmissão de matéria. Aquele que cheira, palpa com o nariz uma amostra de matéria do outro, um indício que o penetra tal como entre animais. O facto do nosso sistema olfactivo ser trezentas vezes menos desenvolvido do que o de um cão não o impede de funcionar intensamente. A palpação olfactiva que nos penetra provoca uma apetência ou aversão, uma intenção de movimento, tal com qualquer penetração. Porém sobretudo, assim que o cérebro do nariz palpou uma amostra de odor do outro, a informação estimulante não é enviada para o córtex, mas de imediato para os circuitos da emoção e da memória. À informação que nos põe em movimento, acrescenta-se a evocação de emoções e recordações. Pode-se influenciar com o odor, atrair, rejeitar ou evocar, mas não se pode hipnotizar, imobilizar. O olfacto dá uma impulsão : palpa-se, evita-se, mentaliza-se, mas não se pode cativar. Um pouco como quando se anda na montanha à beira de uma falésia, sentem-se informações nos relevos e nas imagens que nos atraem de um lado e nos rejeitam por outro.

(Boris Cyrulnik-Do Sexto Sentido-O Homem e o Encantamento do Mundo)

o ser humano, o mais dotado para a comunicação porosa...


De todos os organismos, o ser humano é, provavelmente, o mais dotado para a comunicação porosa ( física, sensorial e verbal), que estrura o vazio entre dois parceiros e constitui a biologia do ligante. Se se aceitar esta proposta de que estar-com necessita da presença de dois indivíduos ligados por poros, pode-se compreender a experiência da selha de Mesmer, esse médico alemão do séc. XVIII que afirmava curar provocando transes, pelo simples facto de manter cordas atadas a uma selha. Eu imaginava este recipiente como sendo um objecto técnico reduzido à sua simples função, mas quando o vi, fui surpreendido pelas belas cinzeladuras numa linda marchetaria. A beleza do móvel fez-me compreender que Mesmer complicara o problema inutilmente. Contextualizara-o em si acrescentando a elegância do século e racionalizara o fenómeno com a linguagem científica da época, em vez de simplesmente se interrogar por que mistério um indivíduo influencia o próximo. No séc. XVIII, só se podia conceber o ligante enquanto força material, emitida por um organismo e actuando sobre um outro. Na tese de doutoramento apresentada em Viena, em 1766, Mesmer, fortemente inspirado pela física de Newton, assimilara a noção de magnetismo animal ao transporte de uma substância entre os astros. Foi um mau cálculo, pois o fenómeno era tão observável e manipulável, e nessa época os cientistas começavam a exercer-se nele, que a explicação pelo fluído irritou as comissões de peritos nomeadas por Luís XVI. Explicaram as manifestações pela imaginação, e alguns denunciaram o magnetismo animal como uma prática imoral, « perigosa para os costumes». Ao constarem que o fluído não existia, concluíram que o fenómeno só existia na imaginação, no não-real, no sem importância.(cont.)

(Boris Cyrulnik- Do sexto sentido- O Homem e o Encantamento do Mundo)

terça-feira, julho 28, 2009

Fotógrafos de Sempre-Sebastião Salgado

"Quis provocar um debate sobre o estado do planeta. Esta globalização de que tanto se fala não são apenas cifras. Também são pessoas que estão sendo globalizadas. Deixaram-me fotografá-las, tenho a responsabilidade de mostrar estas imagens da maneira mais ampla possível. É uma exposição global."

A importância da obra de Sebastião Salgado transcende a qualidade da sua fotografia. Ele soube aliar de maneira exemplar a arte de olhar e de captar com capacidade de nos fazer sentir o sofrimento dos grupos marginalizados. Toda a sua obra fotográfica é também uma obra política, em sentido lado. Nascido em 1944 e vivendo no meio de sete irmãs, vai estudar Economia para para S. Paulo. Continua os estudos de Economia em Paris tendo-se doutorado em 1971. Vai trabalhar para África levando com ele a máquina emprestada de sua mulher Lélia Wanick Salgado,e iniciando-se como fotógrafo amador. Salgado cobriu as guerras de Angola e do Saraa espanhol, percorreu toda a América Latina, tendo iniciado as suas publicações na Agência Magnum em 1979.
"Nos anos 80, trabalhou 15 meses com o grupo francês Médicos Sem Fronteiras durante a seca na região do Sahel, na África. Na viagem produziu Sahel: O Homem em Pânico (1986), um documento sobre a dignidade e a perseverança de pessoas nas mais extremas condições. Entre 1986 e 1992, fez Trabalhadores (1993), um documentário fotográfico sobre o fim do trabalho manual em grande escala em 26 países. Em seguida, produziu Terra: Luta dos Sem-Terra Êxodos e Crianças (2000), retratando a vida de retirantes refugiados e migrantes de 41 países. Em todos esses trabalhos, Sebastião Salgado, sempre procurou “misturar-se " com a população local. Por esse motivo, muitas vezes, chegava aos povoados e acampamentos de ônibus, por entender que se chegasse num automóvel “seria um desastre – o homem do carro”, um homem rico, e não “uma pessoa comum”. Acredita que para ter um bom relacionamento e o seu trabalho ser condizente com o momento que pretende captar, “é necessário ser aceitte pela realidade”.A sua filosofia combina com o seu senso pessoal de economia: viajando em terceira classe, cortando seu filme e trabalhando 16 horas por dia revelando milhares de provas por conta própria... (1997), sobre a luta pela terra no Brasil..."http://pt.shvoong.com/humanities/arts/1603579-sebasti%C3%A3o-salgado-fotografia-engajada-conhecida/

Olhar a fotografia de Sebastião Salgado é tocar um olhar que teve o dom de se misturar(para melhor procurar entender) aqueles sobre os quais se debruçou. A sua posição não é a de um voyeurista, mas de alguém que procurou empatizar com todos aqueles que não tinham voz.

"Para mim, a fotografia é o reconhecimento simultâneo, numa fração de segundo, do significado de um acontecimento e da organização exata das formas que o expressam”

segunda-feira, julho 27, 2009

O indivíduo poroso


A grande armadilha do pensamento é acreditar que o indivíduo é um ser compacto. Se nos fiarmos nas aparências, é um ser vivo que já não se pode dividir, sob pena de o matarmos. O indivíduo dividido já não existe.
Tal como as nossas palavras e os nossos pensamentos têm por função esculpir entidades e fazê-las brotar do real, deduzimos deste conceito que o indivíduo é um objecto coerente, fechado e separado do mundo, o que é falso: « Reivindico esta aptidão que temos todos para sermos conformes a nós mesmos, para não sermos um bloco homogéneo cuja personalidade estaria definitivamente fixada...este possibilidade de sermos atravessados por correntes diversas e de escaparmos ao fanatismo da identidade.»
Se possuímos em nós a loucura de viver, devemos procurar as situações por sermos penetrados pelos elementos físicos, tais como a água, o oxigénio ou os alimentos; pelos elementos sensoriais, tais como o tacto, a vista de um rosto ou a vocalidade das palavras, por elementos sociais, tais como a família, a profissão ou os discursos.
O indivíduo é um objecto ao mesmo tempo indivisível e poroso, suficiente estável para ser o mesmo quando o biotipo varia e suficientemente poroso para se deixar penetrar, a ponto de se tornar ele mesmo um bocado do meio ambiente.(cont.)


(Boris Cyrulnik- Do Sexto Sentido -O Homem e o Encantamento do Mundo)

domingo, julho 26, 2009

Repara no silêncio, é quase branco...

(Hammershoi)


Caminha devagar:
desse lado o mar sobe ao coração.
Agora entra na casa,
repara no silêncio, é quase branco.
Há muito tempo que ninguém
se demorou a contemplar
os breves instrumentos do verão.
Pelo pátio rasteja ainda
o sol. Canta na sombra
a cal, a voz acidulada.

(Eugénio de Andrade- O Peso da Sombra)

sábado, julho 25, 2009

De Sábado para Domingo um filme- Ivan, o Terrível




Quem se lembra, ainda, do impacto que o primeiro visionamento de Ivan, o Terrível lhe provocou?
Lembro-me de ter ficado, literalmente, colada à cadeira e de, posteriormente, procurar recordar e reter, instante a instante, deste genial filme.

sexta-feira, julho 24, 2009

Uma noite de verão com Jazz

quinta-feira, julho 23, 2009

Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros


(Picasso)

Não sei como dizer-te que minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e vasta.
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. Quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
-eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim te procuram.

Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a casa ardesse pousada na noite.
-E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que ás vezes se despenham no meio do tempo
- não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim te procura.

Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço-

e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave- qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,

que te procuram.

(Herberto Helder- Tríptico II)

quarta-feira, julho 22, 2009

Fotógrafos de Sempre- Robert Capa


http://aeiou.expresso.pt/as-fotografias-miticas-de-robert-capa-no-dia-d=f519294

http://pt.wikipedia.org/wiki/Robert_Capa

Endre Ernő Friedmann, de nacionalidade húngara, fundador da Magnum, juntamente com Cartier Bresson e Seymour, distinguiu-se pela sua capacidade de captar os instantes de guerra no seu maior dramatismo. A fotografia não se constituiu inicialmente como o seu interesse primordial. Os seus primeiros interesses recaíram sobre os ideais marxistas, que o levaram a ter de se exilar para Berlim, matriculando-se depois na Faculdade de Ciências políticas. É por via do jornalismo, ao fotografar Trotsky num período conturbado, que se inicia como autodidacta na fotografia. É todavia em 34, quando conhece e se apaixona por Gerda Taro, ela também fotógrafa, que nasce verdadeiramente o personagem Robert Capa, criada por ambos, pseudónimo pelo qual se tornou mundialmente conhecido. Parte com Gerda para o campo de batalha durante a guerra civil espanhola, perdendo a sua companheira a vida um ano depois. Segue-se o conflito sino-japonês, a França durante a ocupação nazi, mais tarde Inglaterra, Argélia, participando em 44 no desembarque da Normandia, do qual fez um número imenso de negativos, dos quais só se conseguiram salvar 12.
A sua fotografia mais conhecida- " a morte do soldado legalista" tem sido alvo de intensos debates, questionando-se da autenticidade do momento.
Se a sua fotografia de guerra é marcadamente interventiva denunciando a violência e o horror da guerra, as outras fotografias dizem-nos bem da qualidade do olhar do homem que nos disse :"Se as fotografias não são suficientemente boas, é porque não se está suficientemente perto".
Talvez por isso, foi encontrado morto em 54 na Guerra da Indochina, ao ter sido atingido por uma mina terrestre.

segunda-feira, julho 20, 2009

...mas a paisagem pertence a quem a sabe olhar

(Ansel Adams)
Muitos anos mais tarde, neste ano em que escrevo esta história, estava num fim do mundo, junto ao rio Guadiana, num sítio tão vazio quanto o deserto, lá em baixo, no Alentejo. Estava a recuperar o fôlego de uma longa caminhada e tinha-me sentado numa pedra a olhar o rio que corria no fundo do desfiladeiro. Creio que estaria como tu estavas naquele dia, o mesmo olhar perplexo perante a vastidão daquele cenário: há alturas em que a beleza é tão devastadora que magoa. Devia haver qualquer coisa na forma como eu olhava aquela paisagem, todo aquele despojamento humano, que fez com que o alentejano que estava comigo, e que tinha sido pastor naqueles vales, comentasse:
- A terra pertence ao dono, mas a paisagem pertence a quem a sabe olhar.
E era assim connosco naqueles dias, também. Éramos donos do que víamos: até onde o olhar alcançava, era tudo nosso. E tínhamos um deserto inteiro para olhar.

(Miguel Sousa Tavares- No teu deserto)