sábado, abril 09, 2011

Tempo de mascarada e de mentira



 Tempo de solidão e de incerteza
Tempo de medo e tempo de traição
Tempo de injustiça e de vileza
Tempo de negação 


Tempo de covardia e tempo de ira
Tempo de mascarada e de mentira
Tempo de escravidão

Tempo dos coniventes sem cadastro
Tempo de silêncio e de mordaça
Tempo onde o sangue não tem rasto
Tempo da ameaça 


(Sophia de Melo Breyner) 

segunda-feira, abril 04, 2011

e nem sei o que digo....

   (Borisov)
Perto da minha dama e longe do meu querer,
tão cheio de desejo e medo ao mesmo tempo,
o coração me falha e nas palavras tremo
quanto a poder dizer o que quero dizer.


«Bela», disse eu, « de dor fazeis-me estremecer,
 e nem sei o que digo, e nem sei o que penso,
 perto da minha dama e longe do meu querer.


De todas as demais nem desejo saber,
numa só coloquei todo o bem a um tempo,
Libertar-me ousarei do terror em que tremo
para pedir enfim que me façais valer
perto da minha dama e longe do meu querer?»


(Alain Chartier. 1385-1433)

sábado, abril 02, 2011

O Direito à preguiça

Os filósofos antigos disputavam-se quanto à origem das ideias, mas estavam de acordo quando se tratava de odiar o trabalho.
« A natureza» afirma Platão, na sua utopia social, na sua República modelo, « a natureza não fez nem sapateiros nem ferreiros; tais ocupações degradam as pessoas que as exercem, vis mercenários, miseráveis sem nome que são excluídos, devido ao seu próprio estado, dos direitos políticos. Quanto aos negociantes habituados a mentir e enganar, só serão aceites como um mal necessário. (...)
Platão e Aristóteles, esses pensadores gigantes, a cujos calcanhares os nossos Cousin, Caro e Simon só conseguem chegar ponde-se em bicos dos pés, pretendiam que os cidadãos das suas repúblicas ideiais vivessem no maior lazer, porque acrescentava Xenofonte, o « trabalho tira o tempo todo e assim não temos tempo livre para a República e para os amigos». Segundo Plutarco, o grande título de Licurgo, o « mais sábio dos homens» admirado pela posteridade, era ter concedido aos cidadãos da República tempos livres, proibindo-os de qualquer ofício.
Mas -responderão os Bastiat, os Dupanloup, os Beaulieu e companhia da moral cristã e capitalista-esses pensadores, esses filósofos, preconizavam a escravatura. Muito bem, mas poderia ser de outra maneira, dadas as condições económicas e políticas do seu tempo?(....) Mas os moralistas e os economistas do capitalismo não preconizam, a escravatura moderna? E a quem é que a escravatura capitalista concede lazeres? Aos Rothchild, aos Schneider e ás senhoras Boucicaut, inúteis e nocivos escravos dos seus vícios e dos seus criados.
(...)

(Paul Lafargue- O Direito à Preguiça)

terça-feira, março 29, 2011

Balada do País que dói

   (Aguarelas de Turner)

O barco vai
o barco vem

português vai
português vem


o corpo cai
o corpo dói


português vai
português cai


o barco vai
o barco vem


português vai
português vem



(Ana Hatherly)

sexta-feira, março 25, 2011

Matéria é só uma...

   (Marcus Stone)
O amor cerra os olhos,não para ver mas para absorver:a obscura transparência,a espessura das sombras ligeiras, a ondulação ardente: a alegria.Um cavalo corre na lenta velocidade das artérias.O amor conhece-se sobre a terra coroada: animal das águas, animal do fogo, animal do ar:a matéria é só uma,terrestre e divina.

(António Ramos Rosa de Três Lições Materiais-1989 )

quarta-feira, março 23, 2011

...e pu-lo no chão a correr....

    (Aguarelas de Turner)
Entrei no café com um rio na algibeira
e pu-lo no chão,
a vê-lo correr
da imaginação...

A seguir, tirei do bolso do colete
nuvens e estrelas
e estendi um tapete
de flores
a concebê-las.

Depois, encostado à mesa,
tirei da boca um pássaro a cantar
e enfeitei com ele a Natureza
das árvores em torno
a cheirarem ao luar
que eu imagino.

E agora aqui estou a ouvir
A melodia sem contorno
Deste acaso de existir
-onde só procuro a Beleza
para me iludir
dum destino. 


(José Gomes Ferreira) 

terça-feira, março 22, 2011

A Poesia...

   (Barceló)
A poesia não vai à missa,
não obedece ao sino da paróquia,
prefere atiçar os seus cães
às pernas de deus e dos cobradores
de impostos.
Língua de fogo do não,
caminho estreito
e surdo da abdicação, a poesia 
é uma espécie de animal
no escuro recusando a mão
que o chama.
Animal solitário, às vezes irónico, às vezes amável,
quase sempre paciente e sem piedade
A poesia adora andar descalça nas areias do verão.


(Eugénio de Andrade- O Sal da Língua)

quinta-feira, março 17, 2011

empoleirada nos telhados a enganar os girassóis

     (Van Gogh)

se eu ao relento for uma
mulher a ser inventada, quero
aparecer num amor urgente, não
me esqueças agora que faltarei, pensa 
em mim como alguém que vive no 
futuro e espera, toda a morte é
um milagre


e continuarei dentro de ti


chegarás de quando em
quando, sei-o, depositado
sobre mim como um hábito ou
algo de comer


já to disse, em nenhum 
túmulo caberá a
minha alma, vazarei
pelos tamanhos remediada
com a solidez das coisas
que te tocarem


mas faz-me sempre assim,
empoleirada nos telhados
a enganar os girassóis.


(walter hugo mãe)



sábado, março 12, 2011

assim se parte o rio

  (Aguarelas de Turner)
Entre mergulhos
uma pedra rasa salta três vezes
na água.
E assim se divide,
assim se parte
o rio. A infância
dum lado.Do outro
a terra firme
onde isto se passou.


(Pedro Mexia- Em Memória,2000)

quinta-feira, março 10, 2011

Uma nuvem de neve o tinge...

   (Aguarelas de Turner)

 À memória de Tibério Ávila Brasil

Alevanta-se o Pico como a lava
Intacto o arredondou na espuma espessa.
Uma nuvem de neve o tinge, e a brava
Onde o asperge de aromas na cabeça.
Das calhetas de peixe e loiro vinho
Tiram seu pão os homens. O moinho
Usa a vela do barco. E, à maré cheia,
Com sinais de alto mar no lombo, e linho
No fio árduo e mortal, sangra a baleia.


(Vitorino Nemésio- Sapateia Açoriana, Andamento holandês e outros poemas, 1976)