Turner na liberdade das suas aguarelas dá-nos a emoção do olhar e do sentir em estado puro.Este espaço propõe-se convocar, pela voz dos que sabem, múltiplos instantes de vida: luz e sombra; esquecimento e memória; vida e morte...
"Seja qual fôr o caminho que eu escolher um poeta já passou por ele antes de mim"
S. Freud
terça-feira, março 08, 2011
O Amor que nome tem?
A...
Nome, que não se diz; nome, que não se escreve:
Quem vai meter num som o mundo, a imensidão'
O Amor que nome tem? real, jamais o teve...
Escrever!...pois é pouco um livro- o coração?...
Antero de Quental
Olhar o mundo à minha volta,
gostar dos que me são queridos,
usar, da melhor maneira, aquilo, que julgo saber...
sábado, março 05, 2011
Um rio nasceu
O Rio (Aguarelas de Turner)
Uma gota de chuva
A mais, e o ventre grávido
Estremeceu, da terra.
Através de antigos
Sedimentos, rochas
Ignoradas, ouro
Carvão, ferro e mármore
Um frio cristalino
Distantes milênios
Partiu fragilmente
Sequioso de espaço
Em busca de luz.
Um rio nasceu.
(Vinicius de Moraes)
Uma gota de chuva
A mais, e o ventre grávido
Estremeceu, da terra.
Através de antigos
Sedimentos, rochas
Ignoradas, ouro
Carvão, ferro e mármore
Um frio cristalino
Distantes milênios
Partiu fragilmente
Sequioso de espaço
Em busca de luz.
Um rio nasceu.
(Vinicius de Moraes)
Olhar o mundo à minha volta,
gostar dos que me são queridos,
usar, da melhor maneira, aquilo, que julgo saber...
domingo, fevereiro 27, 2011
É esse, e não outro o caminho....
(Aguarelas de Turner-Delfos)
Entrarás em Delfos pela portasecreta- a da serpente. É esse,
e não outro o caminho
para o templo. Junto
à pedra
da ara colherás
o ouro exausto
do tempo e o sangue
inútil dos sacrifícios. E
saberás que amor
e morte são
a outra face do mito.
(Albano Martins - Castália e outros poemas)
Olhar o mundo à minha volta,
gostar dos que me são queridos,
usar, da melhor maneira, aquilo, que julgo saber...
terça-feira, fevereiro 22, 2011
Um dia era redonda a primavera
(Aguarelas de Turner)
Cobra
E então vinha a baforada do estio como se abrissem uma porta
defronte do ar exaltado. Também se enredava o outono
nos pulmões das casas. E guardavam-se lentas estrelas
nas arcas, a roupa onde
o brilho se dobra. O inverno fazia
um remoinho nas câmaras, seus buracos expulsavam a espuma
para as ininterruptas paisagens
cinematográficas.
Um dia era redonda a primavera
.................................................
(Herberto Helder)
Cobra
E então vinha a baforada do estio como se abrissem uma porta
defronte do ar exaltado. Também se enredava o outono
nos pulmões das casas. E guardavam-se lentas estrelas
nas arcas, a roupa onde
o brilho se dobra. O inverno fazia
um remoinho nas câmaras, seus buracos expulsavam a espuma
para as ininterruptas paisagens
cinematográficas.
Um dia era redonda a primavera
.................................................
(Herberto Helder)
Olhar o mundo à minha volta,
gostar dos que me são queridos,
usar, da melhor maneira, aquilo, que julgo saber...
domingo, fevereiro 20, 2011
em chão de primavera inverno dentro.
(Aguarelas de Turner)
Preparo uma estação diferente
de quantas teve o tempo, para ver-te;
uma nova mistura, sabiamente,
de névoa, tempestade, sol ardente
em chão de primavera inverno dentro.
Farei versos de nada, e amor de quem
nem corpo tem, e não parece gente;
cego serei, mas lúcido a dizer-te
a verdade calada em cada rima.
Bem na foice da terra, no seu centro,
onde se estende a noite constelada,
levantarei a tenda nupcial;
depois basta que tragas serra e lima
e rompas a grilheta desenhada
na minha humana foto oficial.
(António Franco Alexandre- Duende)
Preparo uma estação diferente
de quantas teve o tempo, para ver-te;
uma nova mistura, sabiamente,
de névoa, tempestade, sol ardente
em chão de primavera inverno dentro.
Farei versos de nada, e amor de quem
nem corpo tem, e não parece gente;
cego serei, mas lúcido a dizer-te
a verdade calada em cada rima.
Bem na foice da terra, no seu centro,
onde se estende a noite constelada,
levantarei a tenda nupcial;
depois basta que tragas serra e lima
e rompas a grilheta desenhada
na minha humana foto oficial.
(António Franco Alexandre- Duende)
Olhar o mundo à minha volta,
gostar dos que me são queridos,
usar, da melhor maneira, aquilo, que julgo saber...
quarta-feira, fevereiro 16, 2011
Remendo o meu coração....
(Munch)
Ponta Seca
Remendo o meu coração, como a andorinha
Remenda o ninho onde foi feliz.
Artes que o instinto sabe ou adivinha...
Mas fico a olhar depois a cicatriz.
(Miguel Torga- Antologia Poética)
Ponta Seca
Remendo o meu coração, como a andorinha
Remenda o ninho onde foi feliz.
Artes que o instinto sabe ou adivinha...
Mas fico a olhar depois a cicatriz.
(Miguel Torga- Antologia Poética)
Olhar o mundo à minha volta,
gostar dos que me são queridos,
usar, da melhor maneira, aquilo, que julgo saber...
domingo, fevereiro 13, 2011
E quando pára na ponte, as águas todas vão correndo....
(Aguarelas de Turner)
Ar Livre
A menina translúcida passa.
Vê-se a luz do sol dentro dos seus dedos.
Brilha em sua narina o coral do dia.
Leva o arco-iris em cada fio de cabelo.
Em sua pele, madrepérolas hesitantes
pintam leves alvoradas de neblina.
Evaporam-se-lhe os vestidos, na paisagem.
É apenas o vento que vai levando seu corpo pelas alamedas.
A cada passo, uma flor, a cada movimento, um pássaro.
E quando pára na ponte, as águas todas vão correndo
em verdes lágrimas para dentro dos seus olhos.
(Cecília Meireles- Retrato Natural)
Ar Livre
A menina translúcida passa.
Vê-se a luz do sol dentro dos seus dedos.
Brilha em sua narina o coral do dia.
Leva o arco-iris em cada fio de cabelo.
Em sua pele, madrepérolas hesitantes
pintam leves alvoradas de neblina.
Evaporam-se-lhe os vestidos, na paisagem.
É apenas o vento que vai levando seu corpo pelas alamedas.
A cada passo, uma flor, a cada movimento, um pássaro.
E quando pára na ponte, as águas todas vão correndo
em verdes lágrimas para dentro dos seus olhos.
(Cecília Meireles- Retrato Natural)
Olhar o mundo à minha volta,
gostar dos que me são queridos,
usar, da melhor maneira, aquilo, que julgo saber...
quinta-feira, fevereiro 10, 2011
Preservar...........o instante real de aparição e de surpresa
(Aguarelas de Turner)
Transferir o quadro o muro a brisa
A flor o copo o brilho da madeira
E a fria e virgem liquidez da água
Para o mundo do poema limpo e rigoroso
Preservar de decadência morte e ruína
O instante real de aparição e de surpresa
Guardar num mundo claro
O gesto claro da mão tocando a mesa
Sophia de Mello Breyner- Livro sexto
Transferir o quadro o muro a brisa
A flor o copo o brilho da madeira
E a fria e virgem liquidez da água
Para o mundo do poema limpo e rigoroso
Preservar de decadência morte e ruína
O instante real de aparição e de surpresa
Guardar num mundo claro
O gesto claro da mão tocando a mesa
Sophia de Mello Breyner- Livro sexto
Olhar o mundo à minha volta,
gostar dos que me são queridos,
usar, da melhor maneira, aquilo, que julgo saber...
segunda-feira, dezembro 27, 2010
Eu agarrei-me com força à cadeira e cerrei os dentes
Na ida seguinte ao cinema conseguiu ficar sentada?
Quando o meu Pai quis outra vez sair antes do fim, eu agarrei-me com força à cadeira e cerrei os dentes. O meu pai esperou por mim lá for a e não disse nada. Ele tomou conhecimento da minha rebelião. Foi um esforço de coragem que hoje já não se pode imaginar.
Depois de, finalmente poder ver cenas de amor, desejou ser seduzida?
Sabe, em toda a minha vidanuncative um “rendez-vous” clássico. No entanto, mais tarde casei-me, mas foi com um colega do Clube Alpino. Lá, todos queriam casar comigo. Eu era um bom partido, não se esqueça. E talvez também fosse agradável à vista.
Casou por amor?
Sempre soube que tinha de casar para sair de casa. Estive noiva duas vezes. Nas duas vezes, depois de um curto noivado, pensei: com este homem não consigo relacionar-me durante mais de uma semana. E então escrevi cartas de despedida. A minha avó dizia, “ Minha querida filha, com a maneira como foges dos homens, vais perder a tua vez muito em breve”. Mas casei com o meu terceiro noivo e estivémos juntos 53 anos.
O seu casamento foi feliz?
Sim. A Segunda Guerra mundial rebentou pouco depois do meu casamento. O meu marido foi mobilizado e eu ingressei imediatamente na Academia de Belas Artes, para estudar Escultura.
Voltou a relacionar-se com Freud mais tarde?
Despedimo-nos daquela vez e depois, durante toda a vida, nunca mais ouvimos falar um do outro. Durante muito tempo, não fiz ideia de quem ele era. Só mais tarde vim a saber: no Estúdio de Escultura da Academia, o meu professor modelou um retrato de Freud. E eu disse: meu Deus, eu conheço-o.
Leu os livros dele?
Não, nenhum. Nunca tive o sentimento de que tivesse de ocupar-me de Freud. Ele ajudou-me, está tudo em ordem.
Como acontece que só agora fale do seu episódio com Freud?
Acontece que eu escrevi as minhas memórias e que toda a gente se interessou apenas pelo capítulo com Freud, que também tinha aparecido em 1999, no livro “ Os melhores filhos e filhas de boas casas”. Mas eu nunca quis tirar proveito disso.
O que teria sucedido se se não tivesse encontrado Freud?
Talvez com o decorrer do tempo, me tivesse atrevido a maior contestação. Mas o meu isolamento teria persistido. Era evidente que na minha vida alguma coisa não estava certa. E não era por minha causa, mas pela minha família.
Como vive actualmente?
Tenho duas filhas que vivem em Israel e nos EUA. Visito-as todos os anos. Desde que o meu marido morreu, há 18 anos, faço ainda mais o que quero. Depois da morte dele, desfiz-me da cama de casal, e arranjei uma cama com um cortinado. À noite, fico acordada até tarde quando um livro me interessa. Faço teatro, estou na Liga de Autores e exponho as minhas obras de arte.
Como educou as suas filhas?
De outra maneira. Isto diz tudo, ou não? As minhas filhas telefonam-me todos os dias. Contamos tudo umas ás outras.
Se, hoje, pudesse encontrar outra vez Freud – o que lhe diria?
Lembro-me de cada instante em que estive com ele. As suas advertências voltaram à minha mente sempre que, na vida, me foram necessárias.
Tradução de Maria Adelaide Ferraz da Costa
Adaptação de Manuela Ferraz da Costa
Quando o meu Pai quis outra vez sair antes do fim, eu agarrei-me com força à cadeira e cerrei os dentes. O meu pai esperou por mim lá for a e não disse nada. Ele tomou conhecimento da minha rebelião. Foi um esforço de coragem que hoje já não se pode imaginar.
Depois de, finalmente poder ver cenas de amor, desejou ser seduzida?
Sabe, em toda a minha vidanuncative um “rendez-vous” clássico. No entanto, mais tarde casei-me, mas foi com um colega do Clube Alpino. Lá, todos queriam casar comigo. Eu era um bom partido, não se esqueça. E talvez também fosse agradável à vista.
Casou por amor?
Sempre soube que tinha de casar para sair de casa. Estive noiva duas vezes. Nas duas vezes, depois de um curto noivado, pensei: com este homem não consigo relacionar-me durante mais de uma semana. E então escrevi cartas de despedida. A minha avó dizia, “ Minha querida filha, com a maneira como foges dos homens, vais perder a tua vez muito em breve”. Mas casei com o meu terceiro noivo e estivémos juntos 53 anos.
O seu casamento foi feliz?
Sim. A Segunda Guerra mundial rebentou pouco depois do meu casamento. O meu marido foi mobilizado e eu ingressei imediatamente na Academia de Belas Artes, para estudar Escultura.
Voltou a relacionar-se com Freud mais tarde?
Despedimo-nos daquela vez e depois, durante toda a vida, nunca mais ouvimos falar um do outro. Durante muito tempo, não fiz ideia de quem ele era. Só mais tarde vim a saber: no Estúdio de Escultura da Academia, o meu professor modelou um retrato de Freud. E eu disse: meu Deus, eu conheço-o.
Leu os livros dele?
Não, nenhum. Nunca tive o sentimento de que tivesse de ocupar-me de Freud. Ele ajudou-me, está tudo em ordem.
Como acontece que só agora fale do seu episódio com Freud?
Acontece que eu escrevi as minhas memórias e que toda a gente se interessou apenas pelo capítulo com Freud, que também tinha aparecido em 1999, no livro “ Os melhores filhos e filhas de boas casas”. Mas eu nunca quis tirar proveito disso.
O que teria sucedido se se não tivesse encontrado Freud?
Talvez com o decorrer do tempo, me tivesse atrevido a maior contestação. Mas o meu isolamento teria persistido. Era evidente que na minha vida alguma coisa não estava certa. E não era por minha causa, mas pela minha família.
Como vive actualmente?
Tenho duas filhas que vivem em Israel e nos EUA. Visito-as todos os anos. Desde que o meu marido morreu, há 18 anos, faço ainda mais o que quero. Depois da morte dele, desfiz-me da cama de casal, e arranjei uma cama com um cortinado. À noite, fico acordada até tarde quando um livro me interessa. Faço teatro, estou na Liga de Autores e exponho as minhas obras de arte.
Como educou as suas filhas?
De outra maneira. Isto diz tudo, ou não? As minhas filhas telefonam-me todos os dias. Contamos tudo umas ás outras.
Se, hoje, pudesse encontrar outra vez Freud – o que lhe diria?
Lembro-me de cada instante em que estive com ele. As suas advertências voltaram à minha mente sempre que, na vida, me foram necessárias.
Tradução de Maria Adelaide Ferraz da Costa
Adaptação de Manuela Ferraz da Costa
Olhar o mundo à minha volta,
gostar dos que me são queridos,
usar, da melhor maneira, aquilo, que julgo saber...
sexta-feira, dezembro 24, 2010
FELIZ NATAL para todos
Logo que possa voltarei ao "Aguarelas".Não está esquecido....
Olhar o mundo à minha volta,
gostar dos que me são queridos,
usar, da melhor maneira, aquilo, que julgo saber...
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