Em 1936, uma jovem mulher precisa dum psiquiatra, e encontra um senhor muito idoso e inteligente. 73 anos depois, Margarethe Lutz fala sobre a sua terapia com Sigmund Freud. Uma Conversa com a última doente viva do psicanalista.
Entrevista por Christine Dohler
Fotos: Paul Rigaud
Frau Lutz, aos 91 anos, a Senhora irradia uma tal alegria de viver! Isso tem algo a ver com o facto de se ter tratado com Sigmund Freud?
Margarethe Lutz: Tem, de facto. Graças ao encontro com Freud, levei uma vida auto-determinada. De todas as situações miseráveis da minha vida, sempre consegui retirar um bocadinho de felicidade.Só tarde compreendi que também da infelicidade se pode tirar algo de positivo.
Foi doente de Freud em 1936. Como foi para si deitar-se no famoso divã de Freud? Nunca estive no divã. Eu era um caso tão simples, nada comparável a outros doentes. Para Freud eu era completamente desinteressante.
Mas Freud ouvi-a, apesar de a senhora não constituir para ele um desafio?
Sim. Ele foi paternal, afável, compreensivo. Um amigo. Olhámo-nos sempre nos olhos e ele riu-se muitas vezes. Eu apenas falei abertamente. Isso divertiu-o.
O que aconteceu para que, aos 18 anos estivesse em tratamento com Freud?
Sabe, eu era uma criança sózinha, uma filha única. A minha mãe morreu de parto.Om eu pai não sabia como lidar comigo. Quando eu gritava, ele punha-me debaixo da cama. Mais tarde, casou novamente. Mas a minha madrasta nunca falou comigo. O meu pai trabalhava muito na sua fábrica, que produzia componentes de cartuchos de caça. Vivíamos disso, muito bem. Tínhamos uma moradia.
Quem a educou?
A minha avó. Ela ainda usava saias à moda de 1880 e os seus métodos de educação também eram dessa época. Eu não podia visitar ou receber a visita de ninguém. Vivia isolada e ia sempre acompanhada por alguém à Opera, ao Teatro Municipal ou ao dentista. A minha família tinha um medo terrível de que eu fosse seduzida. Eu nem sabia como se seduz nem como se é seduzida. O que eu queria não interessava a ninguém. Muitas vezes levantava-me de noite e dormia na ante-câmara junto do meu cão, porque ele me dava calor e me ouvia. Eu era terrìvelmente carente de amor.
Aos 4 anos M.Lutz era ainda uma criança triste
Nunca protestou?
Sabe o que é ser uma "coitadinha"? Eu estava completamente dominada, era um infeliz verme. Mas, uma vez, a vaidade prevaleceu.Na escola, as outras meninas usavam vestidos curtos, eu usava uma saia comprida e, por baixo dela, aparecia uma saia de baixo, encarnada, tricotada à mão. As outras crianças fizeram troça de mim. Então eu despi a saia de baixo e pendurei-a na casa de banho da escola. A avó recebeu-a das mãos do Director. Não voltou a impôr-ma. Isto foi para mim uma revolução prodigiosa mas, de facto, apenas contra a minha avó, não contra o meu pai.
Como passava os seus tempos livres?
Refugiava-me nos meus sonhos diurnos e em leituras secretas. Fecharam-me a estante dos livros. Mas a chave do relógio de pé também abria a estante. Quando acabava os meus trabalhos de casa tirava da prateleira "Tristão e Isolda"- que achei particularmente bom- e representava sozinha todos os papeis. Uma vez, estava eu profundamente embrenhada e olhei pela janela. Na rua, em baixo, algumas pessoas viam-me. Tinha posto um véu e dizia o meu texto. Mas as pessoas olhavam para mim, eu pensei: É o público.Foste perfeita.E cumprimentei.
Como reagiram as pessoas?
Disseram ao meu pai: que pena ter só uma filha que, ainda por cima, é maluca!
Então ele foi comigo ao médico de fam´lia que disse: a doença da sua filha não é do corpo, mas da alma. O meu pai era um homem de negócios, não podia conceber que alguém adoecesse por causa da alma. O médico deu-nos a direcção dum certo Dr. Sigmund Freud.
Tinham alguma noção sobre Sigmund Freud?
O meu pai não tinha ideia nenhuma. Eu também não. Fiquei admirada porque Freud não tinha um verdadeiro consultório, não tinha armários brancos com instrumentos de observação. tinha muitos livros, por todo o lado havia jarras. E havia o divã, uma mesa e três poltronas. Freud sentou-se ao meio e dirigiu-se a mim. Mas foi o meu pai que respondeu.
O que perguntou Freud?
"O que faz quando volta da escola para casa?" O meu pai disse"Nada. Fica em casa e tem de estudar". Freud para mim: "Vai a alguma escola de dança?" Meu pai: "Isso está fora de questão. ela tem de fazer o secundário." Isto pareceu muito estúpido a Freud que disse ao meu pai -" por favor vá para a sala do lado. Quero estar só com a doente". Muito amigável, mas determinado. E o meu pai saiu. No momento em que fiquei só com freud, reconheci-o como uma uma pessoa, que me ouve e aceita. Houve de repente, uma confiança incrível. Em casa eu era tratada como criança, por ele quase como uma adulta.
Que lhe contou?
Tudo. Que contava histórias a mim própria, que sonhava de dia, que fazia teatro, que ninguém falava comigo. Foi isto que brotou em mim. Com total desinibição. Tinha-se acumulado tanto para dizer!
(....)
Freud deu-lhe conselhos?
Contei-lhe que ia ao cinema com os Pais. Mas quando surgia uma cena de amor o meu pai saía comigo. Ele dizia: "Isto vai preverter-te? Eu tinha de me esgueirar com ele entre as filas. As pessoas ficavam aborrecidas. Assim nunca vi o fim filme de amor com Lilian Harvey e Willy Fritsch. Freud disse-me: "Quando for outra vez ao cinema com os pais, recomendo-lhe que fique sentada". Aceitei com gosto o conselho. Tinha-me impressionado tanto que ele tivesse mandado sair o meu pai! Que alguém se atrevesse a isso, era inconcebível para mim.
Quanto tempo demorou a conversa com Freud?
Aproximadamente uma hora. No fim disse: Não se esqueça- para se ficar adulto, tem de se ousar perguntar porquê e como, e também apresentar opiniões próprias ou contestar. Se não se fizer isto, ficará sempre uma criança e serão sempre os outros a mandar em si"
Sabe quanto custou a hora de Freud?
Não. De facto ele apresentou logo a conta mas o meu pai só disse: Bem, barato não foi!"
Freud marcou-lhe outra consulta?
Não. Eu estava completamente saudável e o remédio estava estabelecido: ski com os sócios do Clube Alpino e frequência da Escola de Dança. Os Pais não poderiam estar presentes. A minha família teve tanto medo que eu ficasse realmente doida, que autorizou.
(cont.)
Fontes: http://sz-magazin.sueddeutsche.de/texte/anzeigen/28738 e Revista Portuguesa de psicanálise 2010 30 (1)
Turner na liberdade das suas aguarelas dá-nos a emoção do olhar e do sentir em estado puro.Este espaço propõe-se convocar, pela voz dos que sabem, múltiplos instantes de vida: luz e sombra; esquecimento e memória; vida e morte...
"Seja qual fôr o caminho que eu escolher um poeta já passou por ele antes de mim"
S. Freud
sábado, dezembro 04, 2010
Tem de se ousar perguntar porquê e como.....
Olhar o mundo à minha volta,
gostar dos que me são queridos,
usar, da melhor maneira, aquilo, que julgo saber...
sábado, novembro 27, 2010
Ficando longe e perto, Infindo
(Aguarelas de Turner)
Manhã de névoa
A névoa foi crescendo instante a instante,
Já não há mar, nem céu,
No seu ondeante
Véu.
O próprio areal deserto
Se vai indefenindo,
Ficando longe e perto,
Infindo.
Diluídas nessas mãos estranhas
Que se diria nem as roçam,
Para os lados da terra, as curvas das montanhas
Mal se esboçam.
Como numa aguarela
Aérea,
Tudo, em redor, perde os contornos,-vela
De espírito a matéria.
Não venhas,Sol, denunciador agreste,
Com teu brutal clarão jucundo,
Desmentir este
Delicioso fim do mundo!
(José Régio- Cântico Negro)
Manhã de névoa
A névoa foi crescendo instante a instante,
Já não há mar, nem céu,
No seu ondeante
Véu.
O próprio areal deserto
Se vai indefenindo,
Ficando longe e perto,
Infindo.
Diluídas nessas mãos estranhas
Que se diria nem as roçam,
Para os lados da terra, as curvas das montanhas
Mal se esboçam.
Como numa aguarela
Aérea,
Tudo, em redor, perde os contornos,-vela
De espírito a matéria.
Não venhas,Sol, denunciador agreste,
Com teu brutal clarão jucundo,
Desmentir este
Delicioso fim do mundo!
(José Régio- Cântico Negro)
Olhar o mundo à minha volta,
gostar dos que me são queridos,
usar, da melhor maneira, aquilo, que julgo saber...
quarta-feira, novembro 10, 2010
Saudade-Qué será?...yo no sé...lo he buscado,
en unos diccionarios empolvados e antiguos
y en outros libros que no me han dado el significado
de esta dulce palabra de perfiles ambiguos.
Dicen que azules son las montañas como ella,
que en ella se obscurecen los amores lejanos,
y un noble y buen amigo mío (y de las estrellas)
la nombra en un temblor de trenzas y de manos.
Y hoy en Eça de Queiroz sin mirar la adivino,
su secreto se evade, su dulzura me obsede
com una mariposa de cuerpo extraño y fino
siempre lejos- tan lejos!- de mis tranquilas redes.
Saudade...Oiga vecino, sabe o significado
de esta palabra blanca que como um pez se evade?
No...Y me tiembla en la boca su temblor delicado...
Saudade...
(Pablo Neruda-Crepusculario)
Olhar o mundo à minha volta,
gostar dos que me são queridos,
usar, da melhor maneira, aquilo, que julgo saber...
domingo, outubro 31, 2010
Compreendi toda a grandeza da minha evolução...
Mas com a breca! quem me explicará a razão desta diferença? um dia vimo-nos, tratámos o casamento, desfizemo-lo e separámo-nos, a frio, sem dor, porque não houvera paixão nenhuma; mordeu-me apenas algum despeito e nada mais. Correm anos, torno a vê-la, damos três ou quatro giros de valsa, e eis-nos a amar um ao outro com delírio. A beleza de Virgília chegara, é certo, a um alto grau de apuro, mas nós éramos substancialmente os mesmos, e eu, à minha parte, não me tornara mais bonito nem mais elegante. Quem me explicará a razão dessa diferença?
A razão não podia ser outra senão o momento oportuno. Não era oportuno o primeiro momento, porque se nenhum de nós estava verde para o amor, ambos o estávamos para o nosso amor: distinção fundamental. Não há amor possível sem a oportunidade dos sujeitos. Esta explicação achei-a eu mesmo, dois anos depois do beijo, um dia em que Virgília se me queixava de um pintalegrete que lá ia e tenazmente a galanteava.
- Que importuno! dizia ela fazendo uma careta de raiva. Estremeci, fitei-a, vi que a indignação era sincera; então ocorreu-me que talvez eu tivesse provocado alguma vez aquela mesma careta, e compreendi logo toda a grandeza da minha evolução. Tinha vindo de importuno a oportuno.
(Machado de Assis-Memórias póstumas de Brás Cubas)
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sexta-feira, outubro 22, 2010
Um verso valerá por uma letra...
Não tem nome nenhum esta figura
que ainda agora tracei no quadro escuro
nem há lugar na terra onde fique
bem esse objecto que ninguém conhece.
Na história humana não há sinal disto
nem nos sacros anais da neuropsique;
declaram-se venais os tribunais
e vãos, de não saber em que consiste.
Para irritar o mundo, chamo-lhe amor,
às vezes; mas não quero
confundi-lo com outro, por mais puro.
Pouco importa o que escrevo, o que interdito.
Um verso valerá por uma letra
e seremos duendes para sempre.
(António Franco Alexandre- Duende)
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terça-feira, outubro 19, 2010
Há muito tempo que não olhava para a Lua.
(Aguarelas de Turner)
- Algumas vezes penso que os condutores nem sequer sabem o que pode ser a erva ou as flores. Vão sempre tão depressa! Se se aponta a um condutor uma mancha vaga e verde, ele deve dizer: «Oh, claro, é erva! Uma mancha rosada? São rosas num jardim! As manchas brancas são casas. As castanhas, vacas.» Uma vez o meu tio conduziu lentamente numa auto-estrada- apenas a setenta por hora. Meteram-no na prisão por dez dias. É esquisito, não acha?...E triste, também!- Pensa de mais- disse Montag, pouco à vontade. -Raramente olho a televisão mural, nunca vou às corridas ou parques de atracções. Por isso tenho muito tempo para pensar ideias esquisitas. Viu os cartazes de cem metros de comprimento no campo, à saída da cidade? Sabe que dantes tinham apenas uma dezena de metros? Mas os carros vão tão depressa agora que tiveram de prolongá-los para que a publicidade conserve ainda o seu efeito.
- Não sabia- disse Montag, com um riso seco.
- aposto que posso ainda ensinar-lhe outra coisa. De manhã há orvalho nas ervas.
Ele sentiu-se subitamente incapaz de se lembrar se o sabia ou não e experimentou uma viva irritação.
- E se olhar bem...- Clarisse ergeu a cabeça para o céu- verá um homem na Lua.
Há muito tempo que não olhava para a Lua.
Acabaram o trajecto num silêncio, para ela pensativo, para ele contrariado, crispado.
(Ray Bradbury- Fahrenheit 451)
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terça-feira, outubro 12, 2010
pede à noite que se transforme.......
Enleia nas unhas o triste sono das violetas
e nas hastes das cassiopeias demora-te
para surpreenderes o estelar canto do rouxinol
rasga janelas no lume íntimo da lareira
pede à noite que sob as pálpebras se transforme
numa imensa borboleta em chamas
a casa onde vives alimenta-se com o sorriso
da criança que estende as mãos para ti
enquanto o turvo líquido da velhice escurece
a memória desse tempo sem palavras
(Al Berto- Vigílias)
e nas hastes das cassiopeias demora-te
para surpreenderes o estelar canto do rouxinol
rasga janelas no lume íntimo da lareira
pede à noite que sob as pálpebras se transforme
numa imensa borboleta em chamas
a casa onde vives alimenta-se com o sorriso
da criança que estende as mãos para ti
enquanto o turvo líquido da velhice escurece
a memória desse tempo sem palavras
(Al Berto- Vigílias)
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sábado, outubro 09, 2010
Eu quando crescer quero ser jardineiro...
A mãe mostrava ao filho de 3 anos e meio as fotografias do seu casamento.
O menino olhava com toda a atenção para as fotografias e, depois de alguns momentos de reflexão, disse:
-Mamã eu não quero que tu cases com o papá.
A mãe procurando ajudar a criança a suportar a grande decepção respondeu:
- mas se a mamã não tivesse casado com o papá tu não tinhas nascido...
Nova pausa de reflexão por parte do menino, seguida de uma nova pergunta.
- Mamã então como é que os bebés nascem?
A mamã usando a velha metáfora da jardinagem lá disse ao menino: - o papá pôs uma sementinha dentro da barriga da mamã...
Novo silêncio do menino que, analisando aquela explicação à luz de todos os seus conhecimentos, voltava a questionar-se e dizia à sua mamã: -Mas mamã das sementes só nascem flores...
A mãe então resolveu mostrar-lhe o poder da metáfora, dizendo-lhe: - mas filho podemos pensar em vários tipos de flores...
Um novo silêncio da criança a que se seguiu uma poderosa afirmação:
-Mamã eu quando crescer quero ser jardineiro.
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O silêncio é como se fosse água...
De novo o Silêncio
O silêncio é como se fosse água. Daquela água pura da montanha que se bebe directamente pelo coração.
(Jorge Sousa Braga- Os pés luminosos)
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domingo, outubro 03, 2010
Como é que o cérebro faz a mente?
(Cruzeiro Seixas)
Olhamos para a consciência como coisa garantida porque é tão disponível, por ser tão simples de usar, tão elegante nos seus aparecimentos e desaparecimentos diários. No entanto, todas as pessoas, cientistas incluídos, ficam perplexas ao pensar tal fenómeno. De que é feita a consciência? Parece-me que terá de ser a mente com algumas peculiaridades, visto que não podemos estar conscientes sem uma mente da qual podemos ter consciência. Mas de que é feita a mente? Virá do ar ou do corpo? As pessoas inteligentes dizem que vem do cérebro, que se encontra no cérebro, mas a resposta não é satisfatória. Como é que o cérebro faz a mente?
Especialmente misterioso é o facto de ninguém ver a mente dos outros, consciente ou não. Podemos observar-lhes o corpo e o que fazem e o que dizem ou escrevem, e podemos opinar com algum conhecimento quanto àquilo que estarão a pensar. No entanto, não podemos observar-lhes a mente e apenas nós próprios somos capazes de observar a nossa, a partir do interior, e através de uma janela bem estreita. As propriedades da mente, já para não falar da mente consciente, apresentam-se de forma tão díspar daquelas da matéria viva visível, que as pessoas atentas se interrogam sobre a forma como um processo- a mente consciente- se funde com outros processos- as células vivas que se unem em aglomerados a que chamamos tecidos.
Claro que dizer que a mente consciente é misteriosa, que o é, não é o mesmo que dizer que o mistério é insolúvel. Não é o mesmo que dizer que nunca seremos capazes de entender como um organismo vivo dotado de cérebro desenvolve uma mente consciente ou declarar que a solução do problema se encontra fora do alcance do ser humano.
(António Damásio- O Livro da Consciência. A construção do cérebro consciente)
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