terça-feira, setembro 15, 2009

O mundo é uma instituição estranha...

(Rafael)

Carta de um pintor a seu filho (1)


Meu querido filho,

Escreves-me contando que pintas uma madona e que o que sentes em relação à conclusão desse trabalho te parece tão impuro e carnal que sempre que vais para pegar no pincel gostarias de receber a comunhão para santificar o teu sentimento.Deixa que este teu velho pai te diga que se trata de uma falsa sugestão que te se grudou vinda da escola donde provéns, e que, segundo os ensinamentos dos nossos veneráveis mestres de outro tempo, é inteiramente aceitável o facto de pores na tela os produtos da tua imaginação com um gozo lúdico que pode ser comum, mas quanto ao mais é honrado. O mundo é uma instituição estranha; e os efeitos mais divinos, meu querido filho, nascem das causas mais baixas e modestas. O homem, para te dar um exemplo que salta à vista, é decerto uma criatura sublime; contudo, no instante em que traçamos as suas formas, não é preciso considerar esse princípio com particular santidade. Na verdade, aquele que começasse por comungar e que de seguida se pusesse a trabalhar sem outra coisa que não fosse o propósito de dar corpo sensível ao seu conceito de homem produziria infalívelmente um ente miserável e débil; pelo contrário, aquele que, numa serena noite de Verão, beija uma rapariga, sem outras preocupações, traz ao mundo, sem dúvida, um rapaz que mais tarde trepará vigorosamente entre o céu e a Terra e dará que fazer aos filósofos. E com isto, adeus.

y.

(Heinrich Von Kleist- Sobre o Teatro de Marionetas e outros escritos. Tradução e apresentação José Miranda Justo.Antígona)

(1) No Archiv fur Literatur, Kunst und Politik, de 27 de Junho de 1810, relatava-se uma suposta conversa entre um jovem pintor e Rafael; o jovem pintor pergunta a Rafael como começa o quadro quando quer pintar uma madonnna; a resposta do mestre é a seguinte« Também eu não sei ao certo. Se quero pintar a mãe de Deus, rezo sempre para que ela me apareça, e é assim que ela me aparece». Também é voz corrente que o pintor se recolhia em oração antes de começar a pintar. Kleist desenvolve aqui uma perspectiva nitidamente crítica em relação a essa atitude.

domingo, setembro 13, 2009

A memória é ...um pandemónio...

(Redon)

A memória é deveras um pandemónio, mas está tudo lá dentro, depois de fuçar um pouco o dono é capaz de encontrar todas as coisas. Não pode é alguém de fora se intrometer, como a empregada que remove a papelada para espanar o escritório. Ou como a filha que pretende dispor a minha memória na ordem dela, cronológica, alfabética ou por assunto. Em tempos encontrei certo coronel num corredor sombrio do hospital do Exército. Ele afirmou que estivera comigo quando ainda era terceiro-sargento, mas seu rosto na penumbra não me dizia grande coisa. Nem decerto o meu a ele, que me reconheceu pelo nome. Mas aí a minha lembrança não era recíproca, e nesses casos, para não magoar o próximo, a gente costuma dizer, ah, sim, claro, como vai, e fica por isso mesmo. Porque dá preguiça vasculhar a memória o tempo inteiro, mas ele acreditou que eu me empenhava em recordá-lo, e quis colaborar. E só me atrapalhou mais ainda ao dizer, em francês, que quarenta anos passam voando, não entendi se citava algum poeta. Ia-me despedir quando ele mencionou as provas de artilharia na Marambaia, e não sei porque não o fez desde o início, num instante tudo se iluminou. Seria mesmo inútil revirar arquivos de nomes e rostos, porque minha memória tinha guardado o sargento na paisagem. Era um dia de sol, e do alto da duna, eu contemplava o trecho mais delgado da restinga, uma linha branquíssima de areia que o oceano não tragava por capricho, ou por piedade, ou por desvelo maternal ou por sadismo. As ondas espumavam simultaneamente, à direita e à esquerda da faixa de areia, era como uma praia diante de um espelho. (...)

(Chico Buarque-leite derramado)

sábado, setembro 12, 2009

De Sábado para Domingo um filme - 35 shots de Rum



Vi-o esta tarde. Foi-me extremamente agradável reencontrar uma escrita cinematográfica, assente muito mais na observação psicológica dos personagens do que na narrativa . Toda a história é contada através de curtos apontamentos deixando ao "leitor" do filme espaço para ir preenchendo todos os hiatos. O drama que percorre a vida de cada um deles é narrado, também, através dos silêncios e dos comportamentos. Claire Denis é a realizadora. Correndo o risco de simplificação, direi que uma sensibilidade feminina está bem presente nesta obra. No olhar e na escuta dos silêncios.

quinta-feira, setembro 10, 2009

"Completa a tua vida"...


Certa noite, sem conseguir dormir e precisando de se animar um pouco, foi remexer nos livros da biblioteca. Não encontrou nada na sua área que pudesse, mesmo remotamente, aliviar a situação, nada que dissesse como deveria viver uma pessoa, ou encontrar sentido nos dias de vida que lhe restam. Viu então um exemplar bastante manuseado de Assim falou Zaratrustra, de Nietzsche. Conhecia bem aquele livro: décadas antes, tinha-o estudado muito, quando escrevia um livro sobre a grande, mas não conhecida, influência de Nietzsche sobre Freud. Considerava Zaratrustra um livro corajoso que, mais que qualquer outro, ensina como reverenciar e celebrar a vida. Sim, podia ser a resposta. Ansioso demais para ler com método, percorreu as páginas aleatoriamente e leu algumas linhas que estavam sublinhadas. "Mudar 'foi assim' para 'eu quis assim' é o que chamo redenção".
Entendeu que as palavras de Nietzsche significavam que era preciso escolher a sua vida-tinha de a usufruir em vez de ser "usufruido" por ela. Por outras palavras, tinha de amar o seu destino. E, acima de tudo, havia a pergunta que Zaratrustra fazia sempre- se gostaríamos de repetir a mesma vida eternamente. Uma ideia curiosa e, quanto mais Julius pensava nela, mais seguro se sentia: a mensagem de Nietzsche para nós era viver de forma a querer sempre a mesma vida.
Continuou folheando as páginas e deteve-se em dois trechos sublinhados a tinta cor-de-rosa. "Completa a tua vida". "Morre na altura certa". Isso mesmo. Viver o melhor possível e, só então, morre. Não deixes nada por viver. (...)


(Irvin D. Yalon- A Cura de Schopenhauer)

terça-feira, setembro 08, 2009

Pedro Proença em Óbidos

(Aguarelas de Turner)
(Aguarelas de Turner)
(Aguarelas de Turner)

http://www.cm-obidos.pt/News/newsdetail.aspx?news=85aa723c-7544-45b4-88dd-c48820ac7fb3


No passeio que dei por Óbidos descobri, acidentalmente, esta exposição de Pedro Proença. Nada de premeditado. Olhei e entrei. Há muito tempo que este pintor me encanta pela capacidade de utilização de figuras infantis ou grotescas que transportam uma alegria e uma "inocência" na capacidade, sempre viva, de tocarem e brincarem com quem está do lado de cá. Desta vez estes trabalhos utilizam grafismos tipográficos e um estilo de escrita usada nos romances de cordel para questionar , através do humor, diferentes formas "normopatas" de não-ser. Se passarem por lá não deixem de espreitar. O espaço do museu onde a exposição está instalada também vale bem ser olhado.

segunda-feira, setembro 07, 2009

Ainda Óbidos

(Aguarelas de Turner)
(Aguarelas de Turner)
(Aguarelas de Turner)

sábado, setembro 05, 2009

"Restos" de férias

(Aguarelas de Turner)
(Aguarelas de Turner)
(Aguarelas de Turner)

Este Verão ainda não tinha lá ido. Costumo visitá-la, pelo menos uma vez, já que é a dois passos do meu "abrigo". Uma tarde amena, a de hoje, passeei por lá, de máquina em "riste" ( como qualquer turista...) quase alheia aos enxames de turistas que percorriam todas as ruas e todos os cantos. Com a minha máquina, Óbidos pode ficar, sozinha, no retrato.

quinta-feira, setembro 03, 2009

As dores que me pertencem são fáceis...


Hoje, depois de escrever dez horas seguidas e sentindo-me cansado demais para continuar, levantei-me da mesa e tirei um livro da estante do corredor. Calhou ser Dickens, numa edição barata da Wordsworth.
Tempos Difíceis. Abri-o onde resolveu abrir-se e apareceram quatro linhas mágicas: um filho visita a mãe, velha e muito doente. Pergunta
- Sente dores, mãezinha?
e ela responde
-Tenho ideia que anda uma dor por aí mas não estou certa de me pertencer
e fiquei parvo com isto. Entre parênteses adoro ficar parvo com o que os outros escrevem: só costumo ficar parvo comigo, a interrogar-me de onde é que é que aquilo saiu, porque não foi de mim concerteza, de maneira que penso que a mão de um anjo substituiu a minha. Tenho ideia que anda uma dor por aí mas não estou certa de me pertencer é uma pérola única. Igual à vida: quantas vezes sinto isto, sem ser capaz de o exprimir. As dores que me pertencem são fáceis, as que não estou certo de me pertencerem custam tanto. Viro-as de um lado para o outro, estudo-as contra a luz, experimento-lhes o cheiro, a consistência, a cor e a dúvida perpétua
-Pertence-me?
a perplexidade, a hesitação, enquanto a dor dói e me faz sofrer para burro.
Estamos muito bem na sala e aí anda ela pelos canto, fazendo de conta que não existe e no entanto a arranhar, a arranhar, ou antes a lacerar-nos todos, a gente para a dor
-És tu?
e não responde, finge que se vai embora e fica, que não nos liga e insiste, que não quer saver de nós e não desanima. Até no meio do prazer, até no meio da alegria permanece, alarga-se, entra mais fundo, com um arzinho distraído, não nos deixa em paz. Para quê falar nisto, o que interessam as minhas dores, de resto?
(....)

(António Lobo Antunes-Uma dor por aí in Opinião/Crónica-Visão-3/09/09)

quarta-feira, setembro 02, 2009

nada sabendo da História que levanta edifícios...

(Aguarelas de Turner)


Os gatos,

não vagabundos mas sem ter um dono,

ao sol adormecidos

em ruas sem passeios,

ou esperando uma mão generosa

talvez entre ruínas,

os gatos

imortais de um modo tão humilde,

desafiam o tempo, permanecem

suportando bons e maus momentos,

nada sabendo da História

que levanta edifícios

ou os deixa abismar-se entre pedaços

belos ainda, agora nobres pedestais

dessas figuras: livres.

Olhar fixo de uns olhos muito verdes,

em solidão, em ócio e luz distante.

Olhos semicerrados, olhos quase chineses,

loira a pele em calma iluminada.

Erguido junto a um mármore,

resto sobrevivente de coluna,

alguém feliz e pulcro

alia-se com a pata bem lambida.

gatos. Frente à História,

sensíveis, sérios, sozinhos, inocentes.


(Jorge Guíllen, Gatos de Roma)

terça-feira, setembro 01, 2009

Um blog viciante

"Ponteiros Parados", ou melhor, José Ricardo Costa, incluiu-me numa lista de blogs que visita mais frequentemente. É sempre simpático receber um elogio, sobretudo se a pessoa que o concede, é alguém que se aprecia, e neste caso, pela sua vivacidade intelectual irreverente. "Ponteiros Parados" não é um blog fácil. A sua produção reflexiva é tanta que, por vezes, com o tempo que tenho, vejo-me a saltar posts que gostaria de ter disponibilidade para ler. Comentar este blogger também não é tarefa fácil. A sua cultura filosófica é ampla e profunda e, mais ainda, a sua capacidade reflexiva. Sinto, contudo, um grande estímulo quando o seu pensamento me desafia. Nem sempre concordamos, o que é bom. O que eu gosto mesmo é da sua capacidade para criar um espaço de pensamento que dá lugar a outros pensamentos.
Como os meus amigos sabem raramente me deixo tocar pelas "correntes", embora algumas vezes já tenha "pecado".
Desta vez ao ser-me atribuído este selo tenho de enunciar três objectivos para o blog. Eles aí vão:

1º- que possa continuar a ser um lugar onde me sinto bem;

2º- que possa aproveitar para continuar a encontrar aqui os meus pintores, os meus poetas, os meus escritores, os meus fotógrafos, e que eles me ensinem a dizer o que as minhas palavras apenas esgravatam.

3º- que neste espaço continue a ter o prazer de encontrar pessoas sensíveis, inteligentes, e com gosto por pensar e por trocar saberes.


Quanto à atribuição do selo a outros, quero que não me levem a mal, mas só sei dizer que todos os poucos blogs que visito são para mim "viciantes", porque gosto verdadeiramente de os visitar. Por isso, como são poucos, não vou escolher ninguém. Eles sabem que os considero, mesmo, viciantes.

Um beijo a todos os meus amigos e amigas.