segunda-feira, outubro 16, 2006

Percebeste?

(Columbano Bordalo Pinheiro)





Teoria do Medalhão (cont)

- Vejo por aí que vosmecê condena toda e qualquer aplicação de processos modernos.
-Entendamo-nos.Condeno a aplicação, louvo a denominação. O mesmo direi de toda a recente terminologia científica; deves decorá-la. Conquanto o rasgo peculiar do medalhão seja uma certa atitude de deus Término, e as ciências sejam obra do movimento humano, como tens de ser medalhão mais tarde, contém tomar as armas do tempo. E de duas uma:- ou elas estarão usadas e divulgadas daqui a trinta anos, ou conservar-se-ão novas: no primeiro caso, pertencem-te de foro próprio; no segundo, podes ter a coquetice de as trazer, para mostrar que também és pintor. De oitiva, com o tempo, irás sabendo a que leis, casos e fenómenos responde toda essa terminologia; porque o método de interrogar os próprios mestres e oficiais da ciência, nos seus livros, estudos e memórias, além de tedioso e cansativo, traz o perigo de inocular ideias novas, e é radicalmente falso. Acresce que no dia em que viesses a assenhorear-te do espírito daquelas leis e fórmulas serias provavelmente levado a empregá-las com um tal ou qual comedimento, como a costureira- esperta e afreguesada,- que,segundo o poeta clássico

Quanto mais pano tem, mais poupa o corte,
Menos monte alardeia de retalhos;

e este fenómeno, tratando-se de um medalhão, é que seria científico.

-Upa! que a profissão é difícil!
-E ainda não chegamos ao cabo.
- Vamos a ele.
-Não te falei dos benefícios da publicidade. A publicidade é uma dona loureira e senhoril, que tu deves requestar à força de pequenos mimos, confeitos, almofadinhas, coisas miúdas, que antes exprimem a constância do afeto do que o atrevimento e a ambição.Que D.Quixote solicite os favores dela mediante acções heróicas ou custosas é um sestro próprio desse ilustre lunático.O verdadeiro medalhão
tem outra política. Longe de inventar um Tratado científico da criação dos carneiros ,compra um carneiro e dá-o aos amigos sob a forma de jantar, cuja notícia não pode ser indiferente aos seus concidadãos. Uma notícia traz outra; cinco, dez ,vinte vezes põe o teu nome ante os olhos do mundo.Comissões ou deputações para felicitar um agraciado, um benemérito, um forasteiro, têm singulares merecimentos, e assim as irmandades e associações diversas, sejam mitológicas, cinegéticas ou coreográficas.Os sucessos de certa ordem, embora pouca monta,podem ser trazidos a lume, conquanto que ponham em relevo a tua pessoa.Explico-me.Se caíres de um carro, sem outro dano, além do susto,é útil mandá-lo dizer aos quatro ventos,não pelo fato em si,que é insignificante,mas pelo efeito de recordarum nome caro às afeições gerais.Percebeste?
-Percebi.(cont)

Machado de Assis (A teoria do Medalhão)

Reflexos do Olhar XLV

Viagem do olhar

domingo, outubro 15, 2006

UM DOMINGO COM JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

(Durer)



ESTAÇÔES

A velha ponte de madeira
entre estações
os caminhos que fizemos pelo bosque
marcas luminosas
eventuais
longe de tudo

estendemos minuciosas reservas
mesmo ao que se revela de súbito
cercas em redor das casas
a multiplicação dos ancoradouros
os baldios vigiados da torre
no meio do silêncio.

José Tolentino Mendonça (Baldios)

Reflexos do Olhar XLIV

"O Tempo, esse grande escultor"(M.Y)

sábado, outubro 14, 2006

Porque a solidão é oficina de ideias...

(Cezanne)


Teoria do Medalhão (continuação)


- Creio que assim seja; mas um tal obstáculo é invencível.
-Não é; há um meio; é lançar mão de um regime debilitante, ler compêndios de retórica, ouvir certos discursos, etc. O voltarete, o dominó e o whist são remédios aprovados. O whist tem até a rara vantagem de acostumar ao silêncio, que é a forma mais acentuada da circunspecção. Não digo o mesmo da natação, da equitação e da ginástica, embora elas façam repousar o cérebro; mas por isso mesmo que o fazem repousar, restituem-lhe as forças e a atividade perdidas. O bilhar é excelente.
- Como assim, se também é um exercício corporal?
- Não digo que não, mas há coisas em que a observação desmente a teoria. Se te aconselho excecionalmente o bilhar é porque as estatísticas mais escrupulosas mostram que três quartas partes dos habituados ao taco partilham as opiniões do mesmo taco. O passeio nas ruas, mormente nas de recreio e parada, é utilíssimo, com a condição de não andares desacompanhado, porque a solidão é oficina de ideias, e o espírito deixado a si mesmo, embora no meio da multidão, pode adquirir uma tal ou qual atividade.
- Mas se eu não tiver à mão um amigo apto e disposto a ir comigo?
-Não faz mal; tens o valente recurso de mesclar-te aos pasmatórios, em que toda a poeira da solidão se dissipa. As livrarias, ou por causa da atmosfera do lugar, ou por qualquer outra razão que me escapa, não são propícias ao nosso fim; e, não obstante, há grande conveniência em entrar por elas, de quando em quando, não digo às ocultas, mas às escâncaras.Podes resolver a dificuldade de um modo simples: vai ali falar do boato do dia, da anedota da semana, de um contrabando, de uma calúnia, de um cometa, de qualquer coisa,quando não prefiras interrogar directamente os leitores habituais das belas crónicas de Mazade; 75 por cento desses estimáveis cavalheiros repetir-te-ão as mesmas opiniões, e uma tal monotonia é grandemente saudável. Com este regime, durante oito, dez, dezoito meses-suponhamos dois anos,- reduzes o intelecto, por mais pródigo que seja, à sobriedade, à disciplina ao equilíbrio comum. Não trato do vocabulário, porque ele está subentendido no uso das ideias; há de ser naturalmente simples, tíbio, apoucado, sem notas vermelhas,sem cores de clarim...
-Isto é o diabo! Não poder adornar o estilo, de quando em quando...
- Podes;podes empregar umas quantas figuras expressivas, a hidra de Lerna, por exemplo, a cabeça de Medusa, o tonel das Danaides, as asas de Ícaro, e outras, que românticos, clássicos e realistas empregam sem desar, quando precisam delas. Sentenças latinas, ditos históricos, versos célebres, brocados jurídicos, máximas, é de bom aviso trazê-los contigo para os discursos de sobremesa, de felicitação, ou de agradecimento.Caveant consulesé um excelente fecho de artigo político; o mesmo direi do Si vis pacem para bellum. Alguns costumam renovar o sabor de uma citação intercalado-a numa frase nova, original e bela,mas não te aconselho esse artifício; seria desnaturar-lhe as graças vetustas. Melhor que tudo isso, porém, que afinal não passa de mero adorno, são as frases feitas, as locuções convencionais, as fórmulas consagradas pelos anos, incrustradas na memória individual e pública.Estas fórmulas têm a vantagem de não obrigar os outros a um esforço inútil.Não as relaciono agora, mas fá-lo-ei por escrito. De resto o mesmo ofício te irá ensinando os elementos dessa arte difícil de pensar o passado. Quanto à utilidade deum tal sistema, basta figurar uma hipótese. Faz-se uma lei, executa-se, não produz efeito, subsiste o mal.Eis aí uma questão que pode aguçar as curiosidades vadias, dar ensejo a inquérito pedantesco, a uma coleta fastidiosas de documentos e observações, análise das causas propáveis, causas certas, causas possíveis, um estudo infinito das aptidões do sujeito reformado, da natureza do mal, da manipulação do remédio, das circunstâncias da aplicação; matéria, enfim, para todo um andaime de palavras, conceitos e desvarios.Tu poupas aos teus semelhantes todo esse imenso aranzel, tu dizes simplesmente: Antes das leis, reformemos os costumes!-E esta frase sintética, transparente, límpida, tirada do pecúlio comum, resolve mais depressa o problema, entra pelos espíritos como um jorro súbito de sol.(Cont)

Reflexos do Olhar XLIII

Prazer de(do)olhar

sexta-feira, outubro 13, 2006

Reflexos do Olhar XLII

(Aguarelas de Turner) Cheiros de Verão..

quinta-feira, outubro 12, 2006

E o que ilumina se abrirá ao nosso aberto olhar...



Passeio ao campo

Vem, amigo, até ao campo!Pouco luminoso está o dia
Hoje e o céu fecha-se sobre nós.
Nem os montes nem as árvores da floresta
Se abrem como gostaríamos e o ar repousa, vazio de cânticos.
O dia está sombrio, dormitam as travessas e as vielas e quase
Me parece atravessarmos um tempo de chumbo.
Mas o desejo mantém-nos firmes na crença, sem nos deixar
Cair em uma hora de dúvida e assim o dia é segundo o nosso agrado,
Pois não são poucos os dons que nos alegram, recebidos do Céu,
Que os nega mas acaba por concedê-los aos filhos.
Só que os benefícios merecem estas palavras, passos e esforços
E a fruição merece-os também.
Por isso chego a esperar que quando começarmos a fazer
O que desejamos e da nossa língua se soltar
A palavra certeira e o nosso coração se abrir,
E nos brotarem da mente ébria pensamentos mais elevados
Então começará, com a nossa, a floração do Céu.
E o que ilumina se abrirá ao nosso aberto olhar.

Holderlin Elegias

quarta-feira, outubro 11, 2006

Reflexos do Olhar XLI

(Aguarelas de Turner) Cores, texturas e materiais

Entre duas águas corre uma água só...

(Ilda David)

A Equação de Drake
(numa exposição de Ilda David)


Entre duas águas
(entre H e HO)
corre uma água só
transportando a equação do mundo
até ao mais fundo
sítio do coração,
onde se torna vida o mundo
e a água respiração.

Vinda do mundo,
corre para dentro a vida da pintura,
entre tempo e tempo,
líquida e pura.
Volta-se uma última vez para trás,
e a única coisa que dela vês
é o seu olhar olhando-
-te e desprendendo-se de ti.

Manuel António Pina (Nenhuma palavra e Nenhuma lembrança)