quinta-feira, outubro 05, 2006

Hoje é a última vez que pernoita no meio do vento...



ELE VAI PELA ponte
cristal de lua acordado para o grande isolamento da noite
atravessa-a com a língua turva de imagens
sacode os cimos arrefecidos dos montes
desafia o prematuro cio das perdizes
quebra objectos isola-se
caminha dentro de si à procura dalguma chuva suspensa
roça a morte das plantas nas encruzilhadas místicas dos lagartos
atraídos pelo sangue ofegante das raparigas
deita-se
a boca suja devassando a grossa transpiração das raízes


hoje é a última vez que pernoita no meio do vento
talvez regresse a casa dentro do corpo cansado
por isso vai pela ponte
tateia a saída a um canto da fotografia
e sonolento descobre a pele envelhecida do viajante que foi

Al Berto (Vigílias)

Reflexos do Olhar XXXV

(Aguarelas deTurner) memória de lugares- ilha Deserta

quarta-feira, outubro 04, 2006

Pode ser que venhas a ser afligido de ideias própias...

(Daumier)

-É verdade, por que quarenta e cinco anos?
- Não é, como podes supor um limite arbitrário, filho do puro capricho; é a data normal do fenómeno.Geralmente,o verdadeiro medalhão começa a manifestar-se entre os quarenta e cinco e cinquenta anos, conquanto alguns exemplos se dêem entre os cinquenta e cinco e os sessenta; mas estes são raros. Há-os também de quarenta anos, e outros mais precoces, de trinta e cinco e de trinta; não são todavia vulgares. Não falo dos de vinte e cinco anos:esse madrugar é privilégio do génio.
-Entendo.
-Venhamos ao principal. Uma vez entrado na carreira, deves pôr todo o cuidado nas ideias que houveres de nutrir para uso alheio e próprio. O Melhor será não as ter absolutamente; coisa que entenderás bem,imaginando, por exemplo, uma actor defraudado do uso de um braço. Ele pode, por um milagre de artifício, dissimular o defeito aos olhos da plateia; mas era muito melhor dispor dos dois. O mesmo se dá com as ideias;pode-se, com violência, abafá-las, escondê-las até à morte; mas nem essa habilidade é comum, nem tão constante esforço conviria ao exercício da vida.
-Mas quem lhe diz que eu...
- Tu, meu filho, se não me engano, pareces dotado da perfeita inópia mental, conveniente ao uso deste nobre ofício. Não me refiro tanto à fidelidade com que repetes numa sala as opiniões ouvidas numa esquina, e vice-versa, porque esse fato, posto indique certa carência de ideias, ainda assim pode não passar de uma traição à memória. Não; refiro-me ao gesto correto e perfilado com que usas expender francamente as tuas simpatias àcerca do corte de um colete, das dimensões de um chapéu, do ranger ou calar das botas novas. Eis aí um sintoma eloquoente, eis aí uma esperança. No entanto, podendo acontecer que, com a idade, venhas a ser afligido de
algumas ideias próprias, urge aparelhar fortemente o espírito. As ideias são de sua natureza espontâneas e súbitas; por mais que as sofremos elas irrompem e precipitam-se.Daí a certeza com que o vulgo, cujo faro é extremamente delicado, distingue o medalhão completo do medalhão incompleto. (Cont)

Machado de Assis

Reflexos do Olhar XXXIV

(Aguarelas de Turner) ainda Delfos...

terça-feira, outubro 03, 2006

Conversemos um pouco...


(Rembrandt)

-Estás com sono?
- Não, senhor.
- Nem eu;conversemos um pouco. Abre a janela. Que horas são?
- Onze.
- Saíu o último conviva do nosso modesto jantar. Com que então, meu peralta, chegaste aos teus vinte e um anos. Há vinte e um anos, no dia 5 de Agosto de 1854, vinhas tu à luzum pirralho de nada, e estás homem, longos bigodes, alguns namoros...
- Papai...
- Não te ponhas com denguices, e falemos como dois amigos sérios. Fecha aquela porta; vou dizer-te coisas importantes. Senta-te e conversemos. Vinte e um anos, algumas apólices, um diploma, podes entrar no parlamento, na magistratura, na imprensa, na lavoura, na indústria, no comércio, nas letras ou nas artes. Há infinitas carreiras diante de ti. Vinte e um anos, meu rapaz, formam apenas a primeira sílaba do nosso destino. Os mesmos Pitt e Napoleão, apesar de precoces, não foram tudo aos vinte e um anos. Mas, qualquer que seja a profissão da tua escolha, o meu desejo é que te faças grande e ilustre, ou pelo menos notável, que te levantes acima da obscuridade comum. A vida, Janjão, é uma enorme lotaria; os prémios são pucos, os malogrados inúmeros, e com os suspiros de uma geração é que se amassam as esperanças da outra. Isto é a vida; não há planger, nem imprecar, mas aceitar as coisas integralmente, com seus onus e percalços, glórias e desdouros, e ir por diante.
- Sim,senhor.
- Entretanto, assim como é de boa economia guardar um pão para a velhice, assim também é de boa prática social acautelar um ofício para a hipótese de que os outros falhem, ou não indemnizem suficientemente o esforço da nossa ambição.É isto o que te aconselho hoje, dia da tua maioridade.
- Creia que lhe agradeço; mas que ofício, não me dirá?
- nenhum me parece mais útil e cabido que o do medalhão. Ser medalhão foi o sonho da minha mocidade, faltaram-me, porém instruções de um pai, e acabo como vês, sem outra consolação e relevo moral, além das esperanças que deposito em ti. Ouve-me bem, meu querido filho, ouve-me e entende.És moço, tens naturalmente o ardor, a exuberância, os improvisos da idade; não os rejeites, mas modera-os de modo a que aos quarenta e cinco anos possas entrar francamente no regime do aprumo e do compasso.
O sábio que disse"a gravidade é um mistério do corpo", definiu a compostura do medalhão. Não confundas essa gravidade com aquela outra que, embora resida no aspecto, é um puro reflexo ou emanação do espírito; essa é do corpo, tão-somente do corpo, um sinal da natureza ou um jeito da vida. Quanto à idade de quarenta e cinco anos... (continua).
Machado de Assis(Teoria do Medalhão-diálogos)

Reflexos do Olhar XXXIII

(Aguarelas de Turner) Delfos, simbiose perfeita

segunda-feira, outubro 02, 2006

Onda de pedra em cada reeencontro...

(Rodin)



Presídio

Nem todo o corpo é de carne...Não ,nem todo.

Que dizer do pescoço,às vezes mármore,

às vezes linho,lago,tronco de árvore,

nuvem,ou ave,ao tacto sempre pouco...?

e o ventre,inconsistente como o lodo?...

e o morno gradeamnento dos teus baraços?

Não ,meu amor...Nem todo o corpo é carne:

é também água ,terra,vento,fogo..

É sobretudo sombra à despedida;

onda de pedra em cada reencontro;

no parque da memória o fugidio

vulto da Primavera em pleno Outono...

Nem só de carne é feito este presídio,

pois no teu corpo existe o mundo todo!


David Mourão Ferreira

Reflexos do Olhar XXXII

domingo, outubro 01, 2006

Reflexos do Olhar XXXI

(Aguarelas de Turner) Pequenas papoilas, Atenas.

UM DOMINGO COM DANTE GABRIEL ROSSETTI e ANDREA MANTEGNA

(Andrea Mantegna)

Difícilmente, penso eu; mas pode de facto ser que
O significado o alcançou, quando esta música correu
Clara pela sua estrutura, uma ânsia doce e possessiva,
E ele captou estas rochas e aquele mar encrespado.
Mas acredito que, inclinando-se para eles, ele
Sentiu apenas o cabelo delas lançado contra a sua face
A cada rapariga que por ele passava. Nem deu para ouvir
Quantos pés.Nem seguramente desviou
Os seus olhos da cega fixidez do pensamento


Conhecer as dançarinas. É uma alegria amarga
Que chega às lágrimas.O seu sentido encheu-o
Um segredo das fontes da Vida:para entender:-
Cada pulsar do coração manterá o sentido que tinha
Com o todo, embora o trabalho da mente corra para o nada.

( Dante Gabriel Rossetti)