sexta-feira, novembro 30, 2007

Conheço-o pelo aroma...

(Aguarelas de Turner) Pôr do Sol na Baía

A Eternidade e o desejo, são duas coisas parecidas, que ambas retratam com a mesma figura. Os Egípcios nos seus Geroglíficos, e antes deles os Caldeus, para representar a Eternidade pintaram O: porque a figura circular não tem princípio, nem fim; e isto é ser eterno. O desejo ainda teve melhor pintor, que é a natureza. Todos os que desejam, se o afecto rompeu o silêncio e do coração passou à boca, o que pronunciam naturalmente é O.

Cesso de ver. Os espíritos desmoronam-se e eu regresso às minhas trevas. A música dos atabaques conduz-me, porém, para longe da angústia. Alguém pede licença para se sentar ao meu lado. Conheço-o pelo aroma, conheço-o quando lhe sinto a sua coxa encostada à minha, já o reconhecera quando a sua voz me diz boa noite, menina Clara. Emanuel. Sussurra-me que conhece a mãe-de-santo que me abraçou. Mãe Marianinha. Diz-me que ela quer falar comigo.
Que ela é, desde há muito tempo a sua guia espiritual, e está curiosa comigo. Curiosa? E porquê comigo? Emanuel murmura que lhe falou de mim. E que eu não vim à Bahia só atrás da talha dourada e das histórias de outros séculos. Diz-me que há muitas coisas debaixo do céu. Respondo-lhe que sim, que falarei com ela. Não aqui, não agora, cicia Emanuel. Depois. Noutra hora. Vira-me a palma da mão, põe-me qualquer coisa pegajosa e fria. Diz que é ebo, o alimento do orixá, milho branco cozido só com água, sem temperos. Diz-me que coma, que vai fazer-me bem. Como.(...)

(Inês Pedrosa- A Eternidade e o Desejo)


quinta-feira, novembro 29, 2007

Música Séria

(Aguarelas de Turner)
(Aguarelas de Turner)
(Aguarelas de Turner)



(Encontrar estes meninos grandes e sérios é VER, no lugar do lúdico, a luta pela vida...)

quarta-feira, novembro 28, 2007

Baía Antiga

(Aguarelas de Turner) Baía antiga

(Aguarelas de Turner) Baía antiga

Caminhar por estas ruas é reencontrar o familiar numa alegre mistura como o novo..

terça-feira, novembro 27, 2007

"A Eternidade e o Desejo"-uma feliz coincidência

(Aguarelas de Turner) Igreja de S. Francisco. Baía

Não vivemos como mortais, porque tratamos das coisas desta vida como se esta vida fora eterna. Não vivemos como imortais, porque nos esquecemos tanto da vida eterna, como se não houvera tal vida.

António Vieira, Sermão de Quarta-Feira de Cinza


A noite passada sonhei que voltava à Bahia. O sol atacava a pique, e eu andava de igreja em igreja à procura de alguém que não conseguia encontrar. Na rua a força do sol impedia-me de ver, nas igrejas ficava atordoada com o excesso de turistas e talha dourada. Queria gritar, mas não conseguia. Dizes-me que é uma sensação muito comum, nos sonhos. Mas eu creio que já não posso voltar a ser uma pessoa comum.
Recordas-me que vou voltar a Salvador. E que vou contigo. Vou ao teu lado, sim. Acredita que te agradeço a gentileza da companhia. Mas tu não pertences ali. E eu tenho um bocadinho de medo de me perder. Então peço-te que me contes tudo, Sebastião.
- Tudo? Mas o que é tudo? Tudo o que vejo?- perguntas, num sussurro. Como se, de súbito, te sentisses esmagado pela intraduzível vastidão do teu olhar. O que se vê nunca se pode narrar com rigor. As palavras são caleidoscópios onde as coisas se transformam noutras coisas.(...)

(Inês Pedrosa- A Eternidade e o Desejo. Publicações Dom Quixote)


(Chegada de fresco da Baía entrei na livraria folheando as novidades ,como se assim se quizesse pôr-me a par do que se passara neste curto e longo tempo de ausência ( as distâncias e diferenças culturais fazem destas deformações...) Quase de imediato, os olhos caíram-me no novo livro de I.P. que, para minha surpresa, tinha como pano de fundo a Baía. Como gosto do que escreve a decisão de comprar foi imediata...Uma feliz coincidência esta! Já está quase lido, de um folgo... Para vos aguçar o apetite irei transcrever algumas passagens e ilustrá-las também...)

segunda-feira, novembro 26, 2007

Bahia - (quase) 360 graus...

(Aguarelas de Turner) Baía (do meu lado direito)
(Aguarelas de Turner) Baia IV
(Aguarelas de Turner) Baía III
(Aguarelas de Turner) Baía II
(Aguarelas de Turner) Baía (do meu lado esquerdo)

Olhar à distância a Baía( e todas as demais cidades...) é captar-lhe apenas a dimensão, a inserção geográfica na belíssima costa recortada, o maravilhoso Atlântico, a floresta de arranha-céus...Este é, contudo, um olhar bem incompleto, um olhar que não se dá conta dos violentos contrastes que povoam esta cidade e que são impossíveis de não nos acompanharem ao longo desta curta e breve estadia...
Assim, neste salto à Baía nunca deixei de ter presente as precárias condições de vida em que vive a maioria das gentes desta terra. É impossível não ver, é impossível esquecer!

A cidade em progresso

A cidade mudou. Partiu para o futuro
Entre semoventes abstratos
Transpondo na manhã o imarcescível muro
Da manhã na asa dos DC-4s

Comeu colinas, comeu templos, comeu mar
Fez-se empreiteira de pombais
De onde se vêem partir e para onde se vêem voltar
Pombas paraestatais.

Alargou os quadris na gravidez urbana
Teve desejos de cúmulos
Viu se povoarem seus latifúndios em Copacabana
De casa, e logo além, de túmulos.

E sorriu, apesar da arquitetura teuta
Do bélico Ministério
Como quem diz: Eu só sou a hermeneuta
Dos códices do mistério...

E com uma indignação quem sabe prematura
Fez erigir do chão
Os ritmos da superestrutura
De Lúcio, Niemeyer e Leão.

E estendeu ao sol as longas panturrilhas
De entontecente cor
Vendo o vento eriçar a epiderme das ilhas
Filhas do Governador.

Não cresceu? Cresceu muito! Em grandeza e miséria
Em graça e disenteria
Deu franquia especial à doença venérea
E à alta quinquilharia.

Tornou-se grande, sórdida, ó cidade
Do meu amor maior!
Deixa-me amar-te assim, na claridade
Vibrante de calor!


(Vinicius de Moraes- in "Poesia completa e prosa: "Poesias coligidas")

domingo, novembro 25, 2007

No fim de tarde, quando as luzes se acendiam....

Posted by Picasa
(Aguarelas de Turner)Baía


"Os jogadores de porrinha, de ronda, de sete-e-meio suspendiam as emocionantes partidas, desinteressados dos lucros, apatetados. Não era Berro d'Água o seu indiscutido chefe? Caía sobre eles a sombra da tarde como luto fechado. Nos bares, nos botequins, no balcão das vendas e armazéns, onde quer que se bebesse cachaça, imperou a tristeza e a consumação era por conta da perda irremediável. Quem sabia melhor beber do que ele, jamais completamente alterado, tanto mais lúcido e brilhante quanto mais aguardente emborcava? Capaz como ninguém de adivinhar a marca, a procedência das pingas mais diversas, conhecendo-lhes todas as nuanças de cor, de gosto e de perfume. Há quantos anos não tocava em água? Desde aquele dia em que passou a ser chamado Berro d'Água.

Não que seja fato memorável ou excitante história, mas vale a pena contar o caso, pois foi a partir desse distante dia que a alcunha de "berro d'água" incorporou-se definitivamente ao nome de Quincas. Entrara ele na venda de Lopez, simpático espanhol, na parte externa do mercado. Freguês habitual, conquistara o direito de servir-se sem auxílio do empregado. Sobre o balcão viu uma garrafa transbordando de límpida cachaça, transparente, perfeita. Encheu um copo, cuspiu para limpar a boca, virou-o de uma vez. E o berro inumano cortou a placidez da manhã no mercado, abalando o próprio Elevador Lacerda em seus profundos alicerces. O grito de um animal ferido de morte, de um homem traído e desgraçado:

- Águuuuua!

Imundo, asqueroso espanhol de má fama! Corria gente de todos os lados, alguém estava sendo com certeza assassinado, os fregueses da venda riam às gargalhadas. O "berro dágua" de Quincas logo se espalhou como anedota, do Mercado ao Pelourinho, do largo das Sete Portas ao Dique, da Calçada a Itapoã. Quincas Berro d'Água ficou ele sendo desde então, e Quitéria do Olho Arregalado, nos momentos de maior ternura, dizia-lhe "Berrito" por entre os dentes mordedores."

"Quando um homem morre, ele se reintegra em sua respeitabilidade mais autêntica, mesmo tendo cometido loucuras em sua vida. A morte apaga, com sua mão de ausência, as manchas do passado e a memória do morto fulge como diamante. Essa a tese da família, aplaudida por vizinhos e amigos. Segundo eles, Quincas Berro d'agua, ao morrer, voltara a ser aquele antigo e respeitável Joaquim Soares da Cunha, de boa família, exemplar funcionário da Mesa de Rendas Estadual, de passo medido, barba escanhoada, paletó negro de alpaca, pasta sob o braço, ouvido com respeito pelos vizinhos, opinando sobre o tempo e a política, jamais visto num botequim, de cachaça caseira e comedida."

"No fim da tarde, quando as luzes se acendiam na cidade e os homens abandonavam o trabalho, os quatro amigos mais intimos de Quincas Berro d'agua; Curió, Negro Pastinha, Cabo Martim e Pé-de-Vento, desciam a ladeira do Tabuão em caminho do quarto do morto. Deve-se dizer, a bem da verdade, que não estavam eles ainda bêbedos. Haviam tomado seus tragos, sem dúvida, na comoção da notícia, mas o vermelho dos olhos era devido às lágrimas derramadas, à dor sem medidas, e o mesmo pode-se afirmar da voz embargada e do passo vacilante. Como conservar-se completamente lúcido quando morre um amigo de tantos anos, o melhor dos companheiros, o mais completo vagabundo da Bahia?"

( A morte e a morte de Quincas Berro D'Agua- Amado, Jorge- Editora Record )


sábado, novembro 24, 2007

Pierre Verger, o fotógrafo da Baía

Pierre Verger - "Festa dos Navegantes" (Salvador 1948)

http://www.unicamp.br/~everaldo/bahia/verger/index.html

sexta-feira, novembro 23, 2007

Um saltinho à Baía...

(Aguarelas de Turner)

Nesta semana de ausência, o trabalho levou-me até à Baía. Gostei de contemplar aquela magnífica Baía de Todos os Santos
com os seus poderosos navios, os seus barcos à vela e, também, as suas cascas de noz...O prazer de descobrir novos lugares.


quinta-feira, novembro 22, 2007

VINICIUS de MORAES

quarta-feira, novembro 14, 2007

"PARAGEM TÉCNICA"

(Aguarelas de Turner)

"Elas" sempre me fizeram bem. Deram-me sombra, vigor, recolhimento, renovação, sonho, esperança.... Verdadeiras"esculturas da alma", estas amigas. Este imenso cedro, descobri-o no jardim do Palácio de Mateus.
Nesta minha "paragem técnica" deixo-o, num dos seus múltiplos ângulos, como um braço amigo que se estende neste lugar virtual...Usem-no bem,
criem com ele as vossas estórias