quarta-feira, fevereiro 28, 2007

Se dermos a verdade uns aos outros....sem medo de gastar a efígie...



(continuação)
Se dermos a verdade uns aos outros, se fizermos dela uma moeda corrente sem medo de gastar a efígie, muito se ganha na polis e na descoberta daquilo que cada um é, Ora, essa dádiva pressupõe um desprendimento de si, exercício incansável que Montesquieu não cessa de exaltar. Neste sentido, desprender-se de si é aprender a se sincero e a libertar-se do narcisismo. E é nesse território que se situa o Elogio da Sionceridade, na convicção de que é difícil aprender a viver, privada e publicamente, sob o signo da inceridade.(cont)

José Manuel Heleno (Abrir o coração- posfácio do "Elogio da Sinceridade" de Montesquieu.

terça-feira, fevereiro 27, 2007

Como sabemos nós o que pensamos?


(Caravaggio)

(continuação)
No entanto, podem alguns pensar que não há coincidência consigo mesmo, nem tão pouco certeza sobre se estamos ou não a ser sinceros, pois a convicção de que sabemos algo acerca de nós é uma certeza vã, mais uma estratégia de defesa do que uma confição de pura inocência. Não é sem temor que se pode dizer:"Eu vou dizer o que penso". Todavia, como sabemos nós o que pensamos? De onde nos vem essa certeza? Da satisfação de si, critério supremo e único, embora frágil e susceptível de enganos e fingimentos. Afinal, há também crápulas que são sinceros, e não é difícil o mal se ter banalizado pela sinceridade de que faz alarde. Por outro lado, se ser sincero é acreditar na verdade do que se diz, é imprescindível averiguar a intencionalidade desse dizer. Somos sinceros em relação a quê? Ecomo podemos ser sinceros? Qual , enfim, o contexto que nos permite, ou nos exige ser sinceros?
Mas é a "loucura incurável" do narcisismo que nos impede de chegar à verdade. A confiar em Ovídio, o mito relaciona um cego que era vidente, Tirésias, com uma deusa,Eco, que foi castigada por ser tagarela e se apaixonou por Narciso.Tirésias previra que Narciso viveria longos anos se não se conhecesse a si mesmo,mas obcecado pela sua beleza o jovem deus acabou por sucumbir. É, assim perigoso conhecer-se a si mesmo - e podemos morrer por causa disso, deixando que o nosso "adeus" seja repetido por Eco, essa deusa triste, incapaz de dizer a primeira palavra. Ainda hoje, aqueles que são incapazes de dizer a primeira palavra são os que se apaixonam facilmente por Narciso.
A verdade é que o narcisismo tem um efeito indelével na forma como vivemos, pois não há vida em comum que não se degrade se não percebermos os sintomas dessa" loucura
incurável". (cont)

(José Manuel Heleno- "Abrir o coracão"- posfácio de "O Elogio da sinceridade"de Montesquieu)

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

O indivíduo sincero tem direito a sentir-se satisfeito consigo mesmo...




Ao lançar-nos in media res,sem discutir a noção filosófica de sinceridade, Montesquieu, no seu Elogio da Sinceridade, aceita a noção comum e interessa-se pelo valor dessa virtude na vida privada e na vida pública. O propósito é mostrar até que ponto se degradam as relações humanas e como mergulhamos compulsivamente no auto-engano se não tivermos a coragem de ser sinceros. Sabemos, no entanto,que ao interrogarmos o que é a sinceridade nos podemos enredar em questões filosóficas que o senso comum é hábil em evitar. Um critério possível, fundamento da nossa convicção, é a coincidência entre o que se intenta e o que se diz ou faz. O indivíduo sincero tem direito de sentir-se satisfeito consigo mesmo; tem direito a rejubilar pelo facto de haver uma coincidência qualquer no seu íntimo. Trata-se, portanto, de uma noção superlativa de verdade.(cont)

in "Abrir o coração"- José Manuel Heleno(posfácio do Elogio da Sinceridade- Montesquieu)

domingo, fevereiro 25, 2007

UM DOMINGO COM LÍDIA JORGE


(Picasso)

Sou de vidro

Meus amigos sou de vidro
Sou de vidro escurecido
Encubro a luz que me habita
Não por ser feia ou bonita
Mas por ter assim nascido
Sou de vidro escurecido
Mas por ter assim nascido
Não me atinjam não me toquem
Meus amigos sou de vidro


Sou de vidro escurecido
Tenho fumo por vestido
E um cinto de escuridão
Mas trago a transparência
Envolvida no que digo
Meus amigos sou de vidro
Por isso não me maltratem
Não me quebrem não me partam
Sou de vidro escurecido


Tenho fumo por vestido
Mas por assim ter nascido
Não por ser feia ou bonita
Envolvida no que digo
Encubro a luz que me habita

(Lídia Jorge)

sábado, fevereiro 24, 2007

Estira-se o tempo nos pulmões...


(Bouguereau)

Não há palavras

Tocas um corpo, sentes-lhe o repetido tremor
sob os teus dedos, o cálido andamento do sangue.
Observas-Ihe o lânguido amolecimento,
as suas sombra corporais, o seu desvelado esplendor.
Não há palavras. Tocas um corpo; um mundo
enche agora as tuas mãos empurra o seu destino.
Estira-se o tempo nos pulmões
silva como um chicote rente aos lábios.
As horas, o instante, detêm-se,
extrais aí a tua pequena parcela de eternidade.
Antes foram os nomes e as datas.
a história tão clara e lúcida de dois rostos distantes.
Depois aquilo a que chamas amor,
talvez se transforme em promessa arrancada,
muro erguido que pretende encerrar
aquilo que só em liberdade pode ganhar-se.
Não importa, agora nada importa.
Tocas um corpo, nele te fundes,
apalpas a vida, real, comum. Já não estás só.



Juan Luis Panero
Antes que Chegue a Noite
Versões de
António Cabrita
e
Teresa Noronha
Fenda

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

SEJA BENVINDO QUEM VIER POR BEM...






Amigo
Maior que o pensamento
Por essa estrada amigo vem
Não percas tempo que o vento
É meu amigo também

Em terras
Em todas as fronteiras
Seja benvindo quem vier por bem
Se alguém houver que não queira
Trá-lo contigo também

Aqueles
Aqueles que ficaram
(Em toda a parte todo o mundo tem)
Em sonhos me visitaram
Traz outro amigo também

(José Afonso)

terça-feira, fevereiro 20, 2007

Um colibri de amor...




Nadie comprendía el perfume
de la oscura magnolia de tu vientre.
Nadie sabía que martirizabas
un colibrí de amor entre los dientes.

Mil caballitos persas se dormían
en la plaza con luna de tu frente,
mientras que yo enlazaba cuatro noches
tu cintura, enemiga de la nieve.

Entre yeso y jazmines, tu mirada
era un pálido ramo de simientes.
Yo busqué, para darte, por mi pecho
las letras de marfil que dicen siempre,

siempre, siempre: jardín de mi agonía,
tu cuerpo fugitivo para siempre,
la sangre de tus venas en mi boca,
tu boca ya sin luz para mi muerte.

(Frederico Garcia Lorca)

segunda-feira, fevereiro 19, 2007

Há um tipo de choro bom e há outro ruim...




Há um tipo de choro bom e há outro ruim. O ruim é aquele em que as lágrimas correm sem parar e, no entanto, não dão alívio. Só esgotam e exaurem. Uma amiga perguntou-me, então, se não seria esse choro como o de uma criança com a angústia da fome. Era. Quando se está perto desse tipo de choro, é melhor procurar conter-se: não vai adiantar. É melhor tentar fazer-se de forte, e enfrentar. É difícil, mas ainda menos do que ir-se tornando exangue a ponto de empalidecer.

Mas nem sempre é necessário tornar-se forte. Temos que respeitar a nossa fraqueza. Então, são lágrimas suaves, de uma tristeza legítima à qual temos direito. Elas correm devagar e quando passam pelos lábios sente-se aquele gosto salgado, límpido, produto de nossa dor mais profunda.

Homem chorar comove. Ele, o lutador, reconheceu sua luta às vezes inútil. Respeito muito o homem que chora. Eu já vi homem chorar.

(Clarice Lispector) in "A Descoberta do Mundo" Ed. Rocco - Rio de Janeiro, 1999

domingo, fevereiro 18, 2007

UM DOMINGO COM HERBERTO HELDER


(Elisabeth Gardner)

Sobre o Poema

Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo.
Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
— a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.

— Embaixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.

— E o poema faz-se contra o tempo e a carne.

(Herberto Helder)

sábado, fevereiro 17, 2007

Na margem esquerda da vida...





Da margem esquerda da vida

Da margem esquerda da vida
Parte uma ponte que vai
Só até meio, perdida
Num balo vago, que atrai.

É pouco tudo o que eu vejo,
Mas basta, por ser metade,
P'ra que eu me afogue em desejo
Aquém do mar da vontade.

Da outra margem, direita,
A ponte parte também.
Quem sabe se alguém ma espreita?
Não a atravessa ninguém.



Reinaldo Ferreira
Poemas