sábado, dezembro 09, 2006

La vida que murmura....

( Borisov)

BIOGRAFÍA

La vida que murmura. La vida abierta.
La vida sonriente y siempre inquieta.
La vida que huye volviendo la cabeza,
tentadora o quizá, sólo niña traviesa.
La vida sin más. La vida ciega
que quiere ser vivida sin mayores consecuencias,
sin hacer aspavientos, sin históricas histerias,
sin dolores trascendentes ni alegrías triunfales,
ligera, sólo ligera, sencillamente bella
o lo que así solemos llamar en la tierra.

Gabriel Celaya

sexta-feira, dezembro 08, 2006

E tudo voltasse à pureza da semente...



Coimbra,11 de Abril de 1957

MINIATURA

Pois eu gosto de crianças!
Já fui criança também...
Não me lembro de o ter sido;
Mas só ver reproduzido
O que fui, sabe-me bem.

É como se de repente
A minha imagem mudasse
No cristal duma nascente,
E tudo o que sou voltasse.
À pureza da semente.

Miguel Torga (Antologia poética)

quinta-feira, dezembro 07, 2006

"O Poeta Real e a Fénix renascida"



Príncipe Real (cont)

Portanto estava assente: Mendonça, o Poeta Real, passeava no jardim não um pato ou pata mas a defunta mulher.Isto garantia a porteira com a mão no coração, e que ninguém duvidasse porque assistira ao sofrimento e à morte da senhora, desde que uma doença desconhecida dos doutores lhe começara a dobrar a coluna até a deixar do tamanho de uma criança. Do tamanho dum pato, pouco mais.
Mendonça, que até então não era o Poeta Real que reinava no jardim, quando se viu viúvo e só, ficou de um dia para o outro com o cabelo enbranquecido e deixou a casa onde vivera tantos anos de amor e de felicidade. Esfumou-se.Desapareceu, a porteira nunca soube para onde mas admite que aquilo foi um chamado de Deus para qualquer lugar de recolhimento.
O que é certo é que um belo dia o víuvo tornou a aparecer, direito e todo metido consigo como dantes, mas com um pato negro ao seu lado. "Tate", pensou logo a porteira, "pato ou pata ,aquilo é ela a falecida. Com um brilho tão cuidado e uma serenidade tão altiva, é ela, não pode ser outra coisa. "Mais: o Mendonça já não tinha o cabelo embranquecido mas pintado de um negro tão negro como o das penas do pato.Da pata, queria dizer.
Foi nesta estranha aliança de luto e de silêncio que os dois passaram a visitar todas as tardes o Jardim do Príncipe Real.
Percorriam-no sem se olharem um ao outro, seguros da sua cumplicidade, até que em certo banco, sempre o mesmo, o Poeta Real se sentava a ler o Diário da Tarde.Dois passos à sua frente, num canteiro de rosas damascenas, sentava-se logo o pato e alí ficava, de bico apontado para ele, numa moldura de flores.
Foi assim que o O'Neill os viu da última vez, quando já andava de bengala, a caminho de morrer. "O Poeta Real e a Fénix renascida", disse-me ele; e sorriu um sorriso desencantado que era uma sombra daquele que todos nós lhe conhecíamos. Mas de repente, passados meses, anos talvez, o pato deixou de aparecer. Morreu pensou o dono do quiosque. Ou fugiu-lhe, quem sabe?
Morte ou ingratidão, o certo é que o Poeta Real continuou fiel ao jardim. Ainda há pouco o encontrei no mesmo banco de sempre, direito e solene, a olhar para o canteiro das rosas damascenas, mas já sem jornal, já branco de cabelo,à espera que a noite baixasse sobre ele.

José Cardoso Pires (A Cavalo no Diabo)

quarta-feira, dezembro 06, 2006

Como se estivessem abertos todos os caminhos do mundo...



A Verdadeira Arte de Viajar

A gente sempre deve sair à rua como quem foge de casa,
Como se estivessem abertos diante de nós todos os caminhos do mundo.
Não importa que os compromissos, as obrigações, estejam ali...
Chegamos de muito longe, de alma aberta e o coração cantando!

(Mário Quintana in “A cor do invisível”)

terça-feira, dezembro 05, 2006

A vida nunca foi só Inverno...

(Magritte)

Não tenhas medo do amor. Pousa a tua mão
devagar sobre o peito da terra e sente respirar
no seu seio os nomes das coisas que ali estão a
crescer: o linho e genciana; as ervilhas-de-cheiro
e as campainhas azuis; a menta perfumada para
as infusões do verão e a teia de raízes de um
pequeno loureiro que se organiza como uma rede
de veias na confusão de um corpo. A vida nunca
foi só Inverno, nunca foi só bruma e desamparo.
Se bem que chova ainda, não te importes: pousa a
tua mão devagar sobre o teu peito e ouve o clamor
da tempestade que faz ruir os muros: explode no
teu coração um amor-perfeito, será doce o seu
pólen na corola de um beijo, não tenhas medo,
hão-de pedir-to quando chegar a primavera.

Maria do Rosário Pedreira

segunda-feira, dezembro 04, 2006

As Aguarelas

(Turner)




As aquarelas


Não penso azul, nem verde, nem vermelho,
nenhuma cor vejo isoladamente:
quero a vida total, como um espelho
a que não falte flor, folha ou semente.


A natureza, neste abril redondo,
esconde formas, seres, linhas, cores,
aqui e ali bizarramente pondo
manchas involuntárias, multicores.


Recuso-me a adotar bandeira ou marca.
Nada escolho. O mistério natural
me envolve inteiro. Em tuas aquarelas


tudo renasce — como quem da barca
do dilúvio, depois do temporal,
visse de novo a terra das janelas...


Odylo Costa,filho(Publicado: Boca da noite, 1979)

domingo, dezembro 03, 2006

...fim de domingo

A felicidade de um amigo deleita-nos. Enriquece-nos. Não nos tira nada. Caso a amizade sofra com isso, é
porque não existe .

Jean Cocteau

UM DOMINGO COM MARGARET ATWOOD

(Denis)

Divagação sobre a palavra dormir



Gostava de te olhar a dormir

mesmo que isso nunca aconteça.

Gostava de te olhar,

a dormir. Gostava de dormir

contigo, entrar

no teu sono, sentir seu fluxo suave e nebuloso

a deslizar sobre a minha cabeça



e caminhar contigo nessa floresta luminosa

ondulante de folhas fluorescentes

com um sol aquoso e três luas

até à caverna onde terás que descer,

em direcção ao teu pior medo



Gostava de te oferecer o ramal de prata,

a pequenina flor branca, aquela

palavra que te protegerá

da dor a meio

do teu sonho, do desgosto

central. Gostava de te acompanhar

até ao cimo da longa escadaria

mais uma vez e de ser

o barco para te transportar de volta

com cuidado, uma chama

entre duas mãos em concha

onde o teu corpo se deita

ao lado do meu, e tal como nele entras

com a facilidade com que se respira



Gostava de ser o ar

que te habita durante um breve

instante. Gostava de se ser tão imperceptível

e tão necessária.




Margaret Atwood -n.em 1039-Canadá



____________________________
Enviado por Amélia Pais
http://barcosflores.blogspot.com/
http://cristalina.multiply.com/

sábado, dezembro 02, 2006

O Infinito é...uma leve poeira pelo ar...

(Vallotton)


COM UM SÓ FÓSFORO
ILUMINO O INFINITO

Com um só fósforo ilumino o infinito.
E muitas vezes o infinito é algo
muito próximo, um livro, uma chávena
de chá, o teu rosto escondido
na penumbra, o retrato de alguém desconhecido
que de uma praça, acena,
um fio de tabaco, um monograma
num lenço muito branco.
O infinito o mais das vezes é
não mais do que o que toca o coração,
uma leve poeira pelo ar, um ponto fixo
que a mão ousa tocar, esta chama
que de repente amplia a escuridão
e me torna visível a quem passa
e no clarão acende o seu cigarro.


Amadeu Baptista( Revista aguas furtadas 4+5-2003)

sexta-feira, dezembro 01, 2006

Nasces no deserto das minhas mãos...

(Duchamp)

O NASCIMENTO

Nasces no instante em que tomo
consciência de estar só

Nasces no deserto das minhas mãos
no espaço que separa as coisas
umas das outras nasces renasces
no mar que se visita ó sabor do sol
de olhos abertos

Nasces no instante em que tomo
nas mãos o peso da morte o peso
deste pobre movimento que nos vem
do centro da terra ó vinho ó repouso
infinito

Casimiro de Brito