terça-feira, outubro 31, 2006

Redondo como os olhos...

(Cassatt)



Cantico

Mundo à
nossa medida
Redondo como os olhos,
E como eles, também,
A receber de fora
A luz e a sombra, consoante a hora

Mundo apenas pretexto
Doutros mundos.
Base de onde levanta
A inquietação,
Cansada da uniforme rotação
Do dia a dia.
Mundo que a fantasia
Desfigura
A vê-lo cada vez de mais altura.

Mundo do mesmo barro
De que somos feitos.
Carne da nossa carne
Apodrecida.
Mundo que o tempo gasta e arrefece,
Mas o único jardim que se conhece
Onde floresce a vida.

Miguel Torga

segunda-feira, outubro 30, 2006

O mar está cor de ciclame-púrpura...

IV

Apanho os ciclames,
entre cor-de-vinho e rubro,
e pouso o rígido
marfim e fogo claro
das pétalas sobre mim;
não poderia agora
retirar-me
pois o mar está cor de ciclame-púrpura,
ciclame-rubro, cor das últimas uvas,
cor da púrpura das flores,
cor-de-ciclame e escuro.

Ezra Pound (Fim do Tormento/O Livro de Hilda-seguido de 4 poemas de H.D.)

Reflexos do Olhar LII

restos de verão

domingo, outubro 29, 2006

...fim de domingo

" A única alegria neste mundo é a de começar. É belo viver, porque viver é começar, sempre, a cada instante. Quando esta sensação desaparece - prisão, doença, hábito, estupidez - deseja-se morrer. "
Cesare Pavese in O Ofício de Viver

UM DOMINGO COM CHICO BUARQUE DE HOLANDA



A gente vai levando

Mesmo com toda a fama, com toda a brahma
Com toda a cama, com toda a lama
A gente vai levando, a gente vai levando, a gente vai levando
A gente vai levando essa chama

Mesmo com todo o emblema, todo o problema
Todo o sistema, todo Ipanema
A gente vai levando, a gente vai levando, a gente vai levando
A gente vai levando essa gema

Mesmo com o nada feito, com a sala escura
Com um nó no peito, com a cara dura
Não tem mais jeito, a gente não tem cura
Mesmo com o todavia, com todo dia
Com todo ia, todo não ia
A gente vai levando, a gente vai levando, a gente vai levando
A gente vai levando essa guia

Mesmo com todo rock, com todo pop
Com todo estoque, com todo Ibope
A gente vai levando, a gente vai levando, a gente vai levando
A gente vai levando esse toque

Mesmo com toda sanha, toda façanha
Toda picanha, toda campanha
A gente vai levando, a gente vai levando, a gente vai levando
A gente vai levando essa manha

Mesmo com toda estima, com toda esgrima
Com todo clima, com tudo em cima
A gente vai levando, a gente vai levando, a gente vai levando
A gente vai levando essa rima

Mesmo com toda cédula, com toda célula
Com toda súmula, com toda sílaba
A gente vai levando, a gente vai tocando, a gente vai tomando



Chico Buarque de Holanda

____________________________
Enviado por Amélia Pais
http://barcosflores.blogspot.com/
http://cristalina.multiply.com/

Reflexos do Olhar LI

Janela fechada ao olhar

sábado, outubro 28, 2006

A toda a altura dos meus olhos vives...

(Lucas Cranach)

23.11.71

Chiúme

OS POEMAS DE AMOR DE LUCAS CRANACH,
O VELHO


1.
Que mar, necturna árvore de cabelos
que vastidão de ondas, que soluço
de cimos e raízes, que luminoso fruto,
que lenta manhã nasce nos teus ramos?

No teu tronco terrestre o sangue canta.
A água sobe, a tarde incha, a sombra fala.
Toco-te e acordas-e contigo
o teu perfil de cedro nos espelhos.

A toda a altura dos meus olhos vives.
Estremeces devagar o teu peso de folhas
a ave invertrebada que te prime a garganta,
a secura mineral da tua boca de algas.

E choves lentamente no meu peito
o teu orvalho de pinheiro, árvore,
o teu húmido musco, o licor dos teus dedos,
o salgueiro suspenso por sobre os nossos ombros.

E vens e cresces, mar nocturno, as vagas
que me assaltam e tomam.Sou murmúrio,
sou susurro, cicio, segredo, fonte,
sou a agulha vermelha que pulsa no teu ventre
a cidade desperta e a muralha aonde
os teus braços se quebram num suspiro de areia.


Achas que isto presta? Quer dizer, com o máximo de rigorosa crueldade que está ao nível dos 2 escolhidos? Opinião na volta do correio...E desculpa ter enchido uma carta com esta pobre coisa que nada vale. Muitos beijos para a nossa filha e, para ti, todo o amor do mundo

António

Que saudades eu tenho dos teus braços, do teu corpo, de tu toda!


António Lobo Antunes (D' este viver aqui neste papel descripto-Cartas da guerra)

sexta-feira, outubro 27, 2006

Reflexos do Olhar L

bosque encantado

Não transcendas nunca os limites de uma invejável vulgaridade...



A teoria do medalhão (cont)

Supõe que desejas saber porque motivo a 7ª companhia de infantaria foi transferida de Uruguaiana para Canguçu; serás ouvido tão-somente pelo ministro da guerra, que te explicará em dez minutos as razões desse ato. Não assim a metafísica.Um discurso de metafísica política apaixona naturalmente os partidos e o público, chama os apartes e as respostas. E depois não obriga a pensar e a descobrir. Nesse ramo dos conhecimentos humanos tudo está achado, formulado, rotulado, encaixotado; é só prover os alforjes da memória. Em todo o caso, não transcendas nunca os limites de uma invejável vulgaridade.
- Farei o que puder.Nenhuma imaginação?
- Nenhuma; antes faze correr o boato de que um tal dom é ínfimo.
-Nenhuma filosofia?
-Entendamo-nos: no papel e na língua alguma, na realidade nada. "Filosofia da história", por exemplo, é uma locução que deves empregar com frequência, mas proíbo-te que chegues a outras conclusões que não sejam as já achadas por outros. Foge a tudo que possa cheirar a reflexão, originalidade, etc,etc.
- Também ao riso?
-Como ao riso?
-Ficar sério, muito sério...
- Conforme.Tens um génio folgazão, prazenteiro, não hás de sofreá-lo nem eliminá-lo; podes brincar e rir alguma vez.Medalhão não quer dizer melancólico.Um grave pode ter seus momentos de expansão alegre. Somente,- e este ponto é melindroso...
-Diga...
-Somente não deves empregar ironia, esse movimento ao canto da boca, cheio de mistérios, inventado por algum grego da decadência, contraído por Luciano, transmitido a Swift e Voltaire, feição própria dos cépticos e desabusados. Não.Usa antes a chalaça, a nossa boa chalaça amiga, gorducha, redonda, franca, sem biocos, nem véus, que se lhe mete pela cara dos outros, estala como a palmada, faz pular o sangue nas veias, e arrebentar de riso os suspensórios. Usa a chalaça. Que é isto?
- Meia-noite.
- Meia-noite? Entras nos teus vinte e dois anos, meu peralta; estás definitivamente maior.Vamos dormir, que é tarde.Rumina bem o que te disse, meu filho. Guardadas as proporções, a conversa desta noite vale o Princípe de Machiavelli.Vamos dormir.

Machado de Assis

quarta-feira, outubro 25, 2006

Reflexos do Olhar XLIX

(Aguarelas de Turner) gotas de cor