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quarta-feira, junho 06, 2007

Nunca os deuses capazes de os viver...

(Turner)


Bebido o luar

Bebido o luar, ébrios de horizontes,
Julgamos que viver era abraçar
O rumor dos pinhais, o azul dos montes
E todos os jardins verdes do mar.

Mas solitários somos e passamos,
Não são nossos os frutos nem as flores,
O céu e o mar apagam-se exteriores
E tornam-se os fantasmas que sonhamos.

Por que jardins que nós não colheremos,
Límpidos nas auroras a nascer,
Por que o céu e o mar se não seremos
Nunca os deuses capazes de os viver.

Sophia de Mello Breyner

terça-feira, junho 05, 2007

Nasceremos de novo um para o outro...

(Aguarelas de Turner)

Pode ser que um dia deixemos de nos falar...
Mas, enquanto houver amizade
Faremos as pazes de novo.

Pode ser que um dia o tempo passe...
Mas, se a amizade permanecer,
Um de outro se há-de lembrar.

Pode ser que um dia nos afastemos...
Mas, se formos amigos de verdade,
A amizade nos aproximará.

Pode ser que um dia não mais existamos...
Mas, se ainda sobra amizade,
Nasceremos de novo um para o outro.

Pode ser que um dia tudo acabe...
Mas, com amizade construiremos tudo novamente
Cada vez de forma diferente
Sendo único e inesquecível cada momento
Que juntos viveremos e nos lembramos sempre.

Há duas formas para viver a vida
Uma é acreditar que não existe milagre
A outra é acreditar que todas as coisas são um milagre.

Albert Einstein em "O Milagre da Vida"

quinta-feira, maio 24, 2007

Ora as sombras existem....



poema

Faz-se luz pelo processo
de eliminação de sombras
Ora as sombras existem
as sombras têm exaustiva vida própria
não dum e doutro lado da luz mas do próprio seio dela
intensamente amantes loucamente amadas
e espalham pelo chão braços de luz cinzenta
que se introduzem pelo bico nos olhos do homem

Por outro lado a sombra dita a luz
não ilumina realmente os objectos
os objectos vivem às escuras
numa perpétua aurora surrealista
com a qual não podemos contactar
senão como amantes
de olhos fechados
e lâmpadas nos dedos e na boca

Mário Cesariny

quinta-feira, maio 17, 2007

"MEME"- um presente de "ALICERCES"(H.F.M.)



(Weingarten)

O fogo é-nos mais caro que o amor ou o alimento,
quente, apressado, mas queimando se lhe tocares.


O que devemos fazer
não é unir o nosso amor ou a nossa boa vontade, ou qualquer
coisa dessas,
pois temos a certeza de introduzir muitas mentiras,
mas sim o nosso fogo, o nosso fogo elementar
de modo a que se erga numa enorme chama como um falo no
espaço vazio
e venha fecundar o zénite e o nadir
enviando milhões de centelhas de novos átomos
e nos queime e incendeie a nossa casa.


D.H.Lawrence ( Os animais evangélicos e outros poemas)(publicado nos primeiros meses do blog)


(UM " MEME" é um"gene cultural" que envolve algum conhecimento que passas a outros contemporâneos ou a teus descendentes.Os memes podem ser ideias ou partes de ideias, línguas, sons, dsenhos, capacidades, valores estéticos e morais,ou qualquer outra coisa que possa ser aprendida facilmente e transmitida enquanto unidade autónoma"

OPORTUNAMENTE sairá o DESAFIO.

domingo, maio 13, 2007

AGUARELAS DE TURNER - dois anos

(Turner)
Turner na sua capacidade única de captar a luz da emoção constituiu-se me um dia como condensação do amor pela Vida. A simplicidade e a modernidade das suas Aguarelas ( vistas pela primeira vez em Madrid, e uma segunda, uma terceira e uma quarta em Lisboa...) produziram em mim um tão grande encantamento que, de forma atrevida, me apropriei um pouco delas, tentando colorir o espírito deste lugar com a sua luminosidade .
Ao longo destes dois anos a paleta da vida foi-me dando sentires vários que colori com o pincel da poesia, da prosa, da música , da pintura e dos meus modestos Olhares. O conjunto é desigual, marcado quantas vezes pela escassez do tempo ou pelo encontro acidental com o poeta, com a tela , com a fotografia...Trouxe-me contudo o prazer de interceptar formas diferentes de olhar, deixando-me também abrir aos olhares que outros foram fazendo ao longo do tempo sobre o que aqui brotava. Não mantive, de um modo geral, com os meus comentadores uma troca justa e recíproca, não porque os seus lugares me não tocassem, mas porque, as mais das vezes, o tempo que me restava era para publicar o post do dia, esgravatado em poucos instantes. Assim, queridos Amigos foi-me sempre grato ler o que foram escrevendo e, sobretudo, o que foram acrescentando, não pelo prazer do elogio mas pelo prazer do encontro.
Se o tempo e a disponibilidade assim permitirem gostaria de transformar este lugar numa coisa outra que ainda não tem forma, mas que dança já um desenho meu interior. Veremos se tal acontecerá. Até lá, continuarei a esgravatar sinais de vida nas diferentes formas de dizer daqueles que conseguem transpôr a planura da banalidade.




sexta-feira, maio 11, 2007

Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor...




Houve um tempo em que minha janela se abria sobre uma cidade que parecia ser feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.

Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto. Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde, e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.

Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor. Outras vezes encontro nuvens espessas. Avisto crianças que vão para a escola. Pardais que pulam pelo muro. Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais. Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar. Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega. Ás vezes, um galo canta. Às vezes, um avião passa. Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino. E eu me sinto completamente feliz.

Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.


Uma lua confortavelmente instalada em nuvens, se desnuda na prosa

(Cecília Meireles)

quarta-feira, maio 09, 2007

Deve existir uma outra noite...

(Aguarelas de Turner)

deve existir uma outra
noite
onde caibamos todos


inocentemente felizes
a comer laranjas
e a discutir problemas de aromas
de flores


de Pequeno Livro da terra (Francisco Duarte Mangas)

sexta-feira, maio 04, 2007

Um pingo cai e forma uma rosa...

(Mona Cake)

Deste lado oiço gotejar
sobre as pedras.
Som da cidade ...
Do outro via a chuva no ar.
Perpendicular, fina,
Tomava cor,
distinguia-se
contra o fundo das trepadeiras
do jardim.
No chão, quando caía,
abria círculos
nas pocinhas brilhantes,
já formadas?
Há lá coisa mais linda

que este bater de água
na outra água?
Um pingo cai
E forma uma rosa...
um movimento circular,
que se espraia.
Vem outro pingo
E nasce outra rosa...
e sempre assim!

Os nossos olhos desconsolados,
sem alegria nem tristeza,
tranquilamente
vão vendo formar-se as rosas,
brilhar
e mover-se a água...

(Irene Lisboa)

terça-feira, maio 01, 2007

A gente é que faz o monstro crescer...



Lição de casa

Você tampa a panela,
dobra o avental,
deixa a lágrima secar no arame do varal.
Fecha a agenda,
adia o problema,
atrasa a encomenda,
guarda insucessos no fundo da gaveta.
A idéia é tirar a tarja preta
e pôr o dedo onde se tem medo.
Você vai perceber
que a gente é que faz o monstro crescer.
Em seguida superar o obstáculo,
pois pode-se estar perdendo
um espetáculo acontecendo do outro lado.
Atravessar o escuro
até conseguir tatear o muro,
que é o limite da claridade.
Se tiver capacidade para conquistá-la,
tente retê-la o mais que puder.
Há que ter habilidade, sem esquecer
que a luz é mulher.
Do inferno assim desmascarado,
é hora de voltar.
Não importa se é caminho complicado,
se a curva é reta,
ou se a reta entorta.
Você buscou seu brilho, voltou completa;
jogou a tranca fora, abriu a porta.


(Flora Figueiredo)

Amor a céu aberto, Editora Nova Fronteira, 1992 - Rio de Janeiro, Brasil

domingo, abril 29, 2007

QUINZE ANOS DEPOIS!



Estamos todos felizes pela forma como aproveitaste este intervalo do tempo para te fazeres quase um homem...Embora te faltem, ainda, uns escassos anitos mostra-nos já a qualidade que te habita, pela capacidade que sempre demonstras de perceberes os outros sem que para isso tenham de dizer muito...Esta capacidade não está ao alcance de todos. Muitos percorrem toda a sua existência sem nunca a terem alcançado! Com este capital terás capacidade para desbravar mesmo os terrenos mais agrestes...Guarda-o bem e desenvolve-o, se puderes. A VIDA está toda à tua frente...
Parabéns QUERIDO filho!

sexta-feira, abril 27, 2007

E no entanto procuro...

(Aivazovsky)

Décimo Poema do Pescador

Nem sempre o robalo vem
nem sempre ele traz aquele inexplicável e fundo
mistério de pulsar como o coração de alguém
ou talvez como o próprio coração do mundo.

Nem sempre me toca a graça e nem sempre está
o vento de feição. E no entanto procuro
incansavelmente procuro o não sei quê que já
muitas vezes me trouxe o coração no escuro.

Não há senão esse buscar. Esse incessante
navegar pelo sonho essa viagem
de Ulisses sem regresso. Como alma errante
não mais um viajante de passagem.

( Manuel Alegre- Senhora das Tempestades)

sexta-feira, abril 20, 2007

Era a emoção súbita...

(Aivazovsky)
UM MAR

era um mar desmesurado
demasiado mar
e ondas
e poder
e grito por vir

era a emoção súbita
a revelar ao meu corpo
sua natureza fragilíssima
sua pequena natureza humana

era o mar a crescer-me no peito
vozes do mundo
homens e mulheres no amor

era o mundo líquido
suspenso entre a minha respiração
e o vértice da minha vida

(Sílvia Schueire)

sexta-feira, abril 13, 2007

Escolhe teu diálogo...

(Cremona)

Há tantos diálogos

Diálogo com o ser amado
o semelhante
o diferente
o indiferente
o oposto
o adversário
o surdo-mudo
o possesso
o irracional
o vegetal
o mineral
o inominado

Diálogo consigo mesmo
com a noite
os astros
os mortos
as idéias
o sonho
o passado
o mais que futuro

Escolhe teu diálogo
e
tua melhor palavra
ou
teu melhor silêncio
Mesmo no silêncio e com o silêncio
dialogamos.


Drummond: 100 anos
Carlos Machado, 2002 Carlos Drummond de Andrade
In Discurso de Primavera & Algumas Sombras
José Olympio, 1977
© Graña Drummond