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sábado, março 24, 2007

´Põe pregos de resistência ...tranca as portas da razão...

(Murillo)
Amor é um carpinteiro
Que ri com ar de matreiro,
Cerrando forte e ligeiro
Na tenda do coração...
Com toda a proficiência
Põe pregos de resistência,
Ferrolhos na consciência,
Tranca as portas da razão

(Adelaide de Castro Alves Guimarães)

quinta-feira, março 22, 2007

Emergem risos lágrimas promessas...


(Doisneau)

Retrato de corpo inteiro

No azul do teu peito
ensolarado
há espelhos de cristal
multiplicando imagens.


Emergem risos
lágrimas
promessas
olhares infantis
perdidamente
infinitamente
apaixonados
adolescentes.


A vida renasce
das tuas mãos
tremulas
entrelaçadas
— há muito tempo entrelaçadas —
Reencontradas.


No espaço secreto
da memória,
nosso retrato
- De corpo inteiro -
É o quadro mais bonito
que se pode iluminar.

(Ana Maria Feitosa)

sábado, março 17, 2007

é uma coisa que desliza por cima das lagoas...



O Amor

é uma coisa que desliza
por cima das lagoas
que corre pelos campos sem sentido
que empurra o vento
e apruma o sol no solstício
que derruba a bruma e fecha o horizonte
que nos faz ver de noite e de dia cegos
tacteando o ar sem provimento
que dá o movimento aos astros
e às sombras infinitas
que abre o mar por onde os escravos passam
e ficam livres sem saber
é a cascata que nos dilui
e lança na corrente sem perfídia
até ao oceano dos sentidos
é o iceberg que se funde
e derrota os titanics
que passam solitários pelas albas
é o assombro da manhã
o cantar dos ralos nas searas
o despertar das aves e rebanhos
o charco onde crescem amarelo e roxo
as flores da primavera


é só eu e tu
como nas novelas



Henrique Ruivo
branco azul ocre
Difel

quinta-feira, março 08, 2007

Novo modo de morte e nova dor...




Sempre a Razão vencida foi de Amor

Sempre a Razão vencida foi de Amor
Mas, porque assim o pedia o coração,
Quis Amor ser vencido da Razão.
Ora que caso pode haver maior!

Novo modo de morte e nova dor!
Estranheza de grande admiração,
Que perde suas forças a afeição,
Por que não perca a pena o seu rigor.

Pois nunca houve fraqueza no querer,
Mas antes muito mais se esforça assim
Um contrário com outro por vencer.

Mas a Razão, que a luta vence, enfim,
Não creio que é Razão; mas há-de ser
Inclinação que eu tenho contra mim.

(Luís Vaz de Camões)

domingo, março 04, 2007

UM DOMINGO COM ANTONIO NAMONEDA


(Leighton)
AMOR

Mi manera de amarte es sencilla:

te aprieto a mí

como si hubiera un poco de justicia en mi corazón

y yo te la pudiese dar con el cuerpo.



Cuando revuelvo tus cabellos

algo hermoso se forma entre mis manos.



Y casi no sé más. Yo sólo aspiro

a estar contigo en paz y a estar en paz

con un deber desconocido

que a veces pesa también en mi corazón.


(Antonio Namoneda)

quinta-feira, março 01, 2007

C'est un rayon mouillé ... (post nº 400)








(Ingres)


Chacun en sa beauté...
Chacun en sa beauté vante ce qui le touche,
L'amant voit des attraits où n'en voit point l'époux ;
Mais que d'autres, narguant les sarcasmes jaloux,
Vantent un poil follet au-dessus d'une bouche ;

D'autres, sur des seins blancs un point comme une mouche ;
D'autres, des cils bien noirs à des yeux bleus bien doux,
Ou sur un cou de lait des cheveux d'un blond roux ;
Moi, j'aime en deux beaux yeux un sourire un peu louche :

C'est un rayon mouillé ; c'est un soleil dans l'eau,
Qui nage au gré du vent dont frémit le bouleau ;
C'est un reflet de lune aux rebords d'un nuage ;


C'est un pilote en mer, par un ciel obscurci,
Qui s'égare, se trouble, et demande merci,
Et voudrait quelque dieu, protecteur du voyage.

(Charles Sainte-Beuve)

terça-feira, fevereiro 20, 2007

Um colibri de amor...




Nadie comprendía el perfume
de la oscura magnolia de tu vientre.
Nadie sabía que martirizabas
un colibrí de amor entre los dientes.

Mil caballitos persas se dormían
en la plaza con luna de tu frente,
mientras que yo enlazaba cuatro noches
tu cintura, enemiga de la nieve.

Entre yeso y jazmines, tu mirada
era un pálido ramo de simientes.
Yo busqué, para darte, por mi pecho
las letras de marfil que dicen siempre,

siempre, siempre: jardín de mi agonía,
tu cuerpo fugitivo para siempre,
la sangre de tus venas en mi boca,
tu boca ya sin luz para mi muerte.

(Frederico Garcia Lorca)

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Teus olhos são meus livros...



Livros e Flores


Teus olhos são meu livros.

Que livro há aí melhor,

Em que melhor se leia

A página do amor?


Flores me são teus lábios.

Onde há mais bela flor

Em que melhor se beba

O bálsamo do amor?

(Machado de Assis)

domingo, fevereiro 11, 2007

UM DOMINGO COM JOSÉ FANHA




ORVALHO

Roubas a luz
ao céu cinzento
e vestes folhas flores e ervas
com vestidos cintilantes.És água e luz
a mais doce e breve e cristalina.És o meu amigo das manhãs brumosas
e eu peço que me ensines o ofício claro
da tua transparência
para que me torne num fantástico alfaiate
e cubra a minha amada pela manhã
com o secreto nome
de uma flor feliz.

José Fanha (de “Cancioneiro Feliz)

sábado, fevereiro 10, 2007

Por entre as nossas mãos o verde mar se escoa...

(Bonnard)


A secreta viagem

No barco sem ninguém ,anónimo e vazio,
ficámos nós os dois ,parados ,de mão dada ...
Como podem só os dois governar um navio?


Melhor é desistir e não fazermos nada!
Sem um gesto sequer, de súbito esculpidos,
tornamo-nos reais,e de maneira,à proa...
Que figuras de lenda!Olhos vagos,perdidos...
Por entre nossas mâos , o verde mar se escoa...
Aparentes senhores de um barco abandonado,
nós olhamos,sem ver,a longínqua miragem...
Aonde iremos ter?- Com frutos e pecado,
se justifica, enflora, a secreta viagem!
Agora sei que és tu quem me fora indicada.
O resto passa ,passa...alheio aos meus sentidos.
-Desfeitos num rochedo ou salvos na enseada,
a eternidade é nossa ,em madeira esculpidos!


(David Mourão Ferreira)

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Na copa das árvores...



Na copa das árvores

Na copa das árvores
nota-se o movimento
que é em ti
circunscrito.



Nuno Travanca

terça-feira, fevereiro 06, 2007

Sabíamos do mar em sinuosos sinos...


(Vallotton)


Sabíamos do mar sem o sabermos

Sabíamos do mar sem o sabermos,
do mar dos mapas, da cor azul do mar,
dos naufrágios no mar,
do sol solto no mar.

Sabíamos do mar sem o sentirmos
nos poros dilatados pelo mar,
o verdejante mar escalando as montanhas
tão bruscas como o sal.

Sabíamos do mar em sinuosos sinos
assinalando a noite
com corações arrepiados,
abertos como mãos
sulcadas de cabelos e molhadas
de rugas e escamas.

Sabíamos do mar em signos, símbolos,
tropos e metáforas.
Sabíamos do mar?
Sabíamos o mar.
Sabíamos a mar



António Rebordão Navarro
O Inverno
Poemas (1952 - 1982)
Imprensa Nacional Casa da Moeda

quarta-feira, janeiro 31, 2007

Amar é a eterna inocência...



O meu olhar é nítido como um girassol.

Tenho o costume de andar pelas estradas

Olhando para a direita e para a esquerda,

E de vez em quando olhando para trás...

E o que vejo a cada momento

É aquilo que nunca antes eu tinha visto,

E eu sei dar por isso muito bem...

Sei ter o pasmo essencial

Que tem uma criança se, ao nascer,

Reparasse que nascera deveras...

Sinto-me nascido a cada momento

Para a eterna novidade do mundo...

Creio no mundo como num malmequer,

Porque o vejo. Mas não penso nele

Porque pensar é não compreender...

O Mundo não se fez para pensarmos nele

(Pensar é estar doente dos olhos)

Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...

Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,

Mas porque a amo, e amo-a por isso,

Porque quem ama nunca sabe o que ama

Nem sabe por que ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,

E a única inocência não pensar...

8-3-1914 Alberto Caeiro