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sábado, fevereiro 27, 2016

Cresce em mim como um distúrbio da paixão...

                                        
Addiragram

A Minha Saudade Tem o Mar Aprisionado

A minha saudade tem o mar aprisionado
na sua teia de datas e lugares.
É uma matéria vibrátil e nostálgica
que não consigo tocar sem receio,
porque queima os dedos,
porque fere os lábios,
porque dilacera os olhos.
E não me venham dizer que é inocente,
passiva e benigna porque não posso acreditar.
A minha saudade tem mulheres
agarradas ao pescoço dos que partem,
crianças a brincarem nos passeios,
amantes ocultando-se nas sebes,
soldados execrando guerras.
Pode ser uma casa ou uma rede
das que não prendem pássaros nem peixes,
das que têm malhas largas
para deixar passar o vento e a pressa
das ondas no corpo da areia.
Seria hipócrita se dissesse
que esta saudade não me vem à boca
com o sabor a fogo das coisas incumpridas.
Imagino-a distante e extinta, e contudo
cresce em mim como um distúrbio da paixão.

José Jorge Letria, in "A Metade Iluminada e Outros Poemas"

domingo, fevereiro 14, 2016

Tira-me o pão, se quiseres...




Addiragram
O Teu Riso

Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas
não me tires o teu riso.

Não me tires a rosa,
a flor de espiga que desfias,
a água que de súbito
jorra na tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.

A minha luta é dura e regresso
por vezes com os olhos
cansados de terem visto
a terra que não muda,
mas quando o teu riso entra
sobe ao céu à minha procura
e abre-me todas
as portas da vida.

Meu amor, na hora
mais obscura desfia
o teu riso, e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso será para as minhas mãos
como uma espada fresca.

Perto do mar no outono,
o teu riso deve erguer
a sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero o teu riso como
a flor que eu esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.

Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
curvas da ilha,
ri-te deste rapaz
desajeitado que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando os meus passos se forem,
quando os meus passos voltarem,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas o teu riso nunca
porque sem ele morreria. 



Pablo Neruda, in "Poemas de Amor de Pablo Neruda

terça-feira, fevereiro 09, 2016

Dar definição é dizer a última palavra sobre o assunto...

Addiragram
 
Direito, esquerdo e algumas definições


- mas voltemos às questões importantes.
- O importante ...quer uma definição? Aquilo a que dou atenção, eis o importante. Quer outra definição?
- Sim, Excelência.
- A definição de definição. Definição significa de- finir. Finir, acabar. Dar uma definição é dizer a última palavra sobre o assunto .
- É, pois, terminar a conversa.
- Exacto. Conversa finita com a definição .
- Quem define diz ao outro: nada mais tens a dizer sobre este assunto, pois acabei de dizer a última e definitiva palavra sobre a questão.
- Uma conversa entre surdos é uma conversa em que os dois trocam definições.
- Uma definição é definitiva, eis uma redundância bem redonda, se assim me posso exprimir.
- E etc.e etc.e tal.
- Muito bem, Vossa Excelência está a ver bem o assunto.
- Seria interessante pensar em definições que iniciam a conversa.
- Uma definição inicial, inaugural. Uma de-iniciação.
- Ou uma pré- definição. Uma não- definição. E assim sucessivamente.
- Bem...como eu estava a dizer: gosto de um pé que não se preocupa apenas em avançar. Gosto de um pé que descobre o caminho..que cada vez que toca o chão abre uma nova hipótese. Um pé que afasta a floresta para os lados e que faz uma estrada à medida que avança, uma estrada humana.
-...para mim, os pés são um assunto menor, um assunto, como dizer...
- É essa a grande função do pé, fazer uma estrada humana no meio da floresta desumana...floresta animalesca e até botânica !
- E até!
- Que a floresta, no fundo, se reparar bem, é botânica selvagem.
- Uma floresta botânica, que surpreendente! Mas falava do pé, não continua?
-...um jardim botânico é compreensível, mas uma floresta botânica...Uma floresta mansa, digamos, eis o que surpreende.
- E o pé, é o pé?
- porque à floresta associamos terríveis animais carnívoros capazes de nos arrancar a cabeça com uma dentada involuntária. Com uma dentada mansa...
-Os animais selvagens são capazes de nos engolir com um apetite manso, um apetite tranquilo, muito bem!
- Eles são selvagens e cruéis de uma forma natural. Sem esforço, Excelência.
-Praticam a crueldade como quem pratica  fitness ao domingo. São mais, cruéis para manter a forma, para não ganhar barriga...para não se aburguesarem, no fundo. A crueldade animalesca como actividade de laser.
- Pois bem, sim, mas voltemos aos pés.
- Ok.
-... o que me interessa agora é pensar como é que alguém , só com um pé, abre caminho humano para os dois lados, o esquerdo e o direito...
- ...no fundo, é uma questão de lateralidade.
- Sim, mas estou a pensar em alguémque atravessa a floresta ao pé - cochicho.
- Ao pé -cochicho?
- Sim...é difícil pensarmos no lado esquerdo e direito de um pé, poisestamos habituados a pensar em pé direito e pé esquerdo, os dois juntos..
- Isso.
-... o que está ao lado direitodo pé direito e o que está ao lado esquerdo do pé esquerdo...Se pensarmos num único pé, por exemplo no pé esquerdo..se for assim, o lado esquerdo da floresta está do lado esquerdo do pé esquerdo, tal é normal...agora , já é muito estranho pensarmos que o lado direito da floresta está à direita desse pé esquerdo. Porque o lado direito da floresta costuma estar do lado direitodo pé direito. Percebe o problema de quem anda na floresta só com um pé?
-Percebo, embora um desenho ajudasse...De qualquer maneira, o problema que põe é muito relevante, sem dúvida, mas estou atrasado. Vou comprar sapatos.
- Sapatos?
- Dois.
- Aperto-lhe a mão com extrema reverência e digo adeus a Vossa Excelência. Vou para o lado direito do pé direito.
- Muito bem. É uma boa hipótese, sem dúvida!
Adeus, meu caro.

Gonçalo M. Tavares - O torcicologologista, excelência.

terça-feira, fevereiro 02, 2016

Para recitar antes de adormecer...



Addiragram
Eu queria cantar para dentro de alguém,
sentar-me junto de alguém e estar aí.
Eu queria embalar-te e cantar-te mansamente
e acompanhar-te ao despertares e ao adormeceres.
Queria ser o único na casa
a saber: a noite estava fria.
E queria escutar dentro e fora
de ti, do mundo, da floresta.
Os relógios chamam-se anunciando as horas
e vê-se o fundo o tempo.
E em baixo ainda passa um estranho
e acirra um cão desconhecido.
Depois regressa o silêncio. Os meus olhos,
muito abertos, pousaram em ti;
e prendem-te docemente e libertam-te
quando algo se move na escuridão.
Rainer Maria Rilke